Estes são os dois livros em que me vou basear no estudo da Primeira Guerra Mundial. Na minha opinião são dois livros extraordinários que relatam ao pormenor todo o conflito, desde a sua origem até ao seu terminus.
Comecemos então a estudar as causas que deram origem ao fenómeno.
Entre os finais do século XIX e os princípios do século XX as distâncias encurtaram e o mundo estreitou-se, o que implicou a intensificação das trocas comerciais. Às autoridades reconhecidas e declaradas como eram o rei, o padre, a lei, a família, o patrão, o oficial, juntou-se outras anónimas, sem rosto, incontroláveis: os responsáveis pelas descidas dos produtos agrícolas na Europa, dando origem à ruína dos campos e à consequente miséria dos agricultores, os que provocam graves crises económicas, os responsáveis pelo fazer ou desfazer de modas ou opiniões. Uma turba multa sem rosto, sem nome, totais desconhecidos que provocam a ruína de milhões de pessoas, enfim, os sucedâneos dos atuais «mercados».
Ora, nesta era em contínua transformação, desapareceram atividades milenares, novas profissões nascem e outras morrem. Umas empresas fecham e novas abrem. O mesmo acontece aos centros urbanos em que grande número desaparece crescendo outros. Tudo em nome do progresso, da lei ou da liberdade.
Em paralelo cresce também o número de funcionários. Na Alemanha de 1870 havia um funcionário para cada 825 habitantes; em 1905 passou a existir um para cada 216 habitantes. O mesmo fenómeno estendeu-se à Rússia, em que o número não parou de crescer. Nas vésperas da guerra, em França, um em cada 11 eleitores é funcionário. Enquanto que estes funcionários têm o seu futuro assegurado pelas suas reformas, outros não têm, são as chamadas massas, insatisfeitas, com o futuro incerto, em fuga dos campos que já não lhes garantem o sustento por causa da queda dos preços dos produtos agrícolas, invadem os grandes centros urbanos orbitando em seu redor em busca de melhores condições de vida.
A emigração faz-se sentir aos milhões. Russos, ingleses, alemães, escandinavos, eslavos, italianos abandonam os seus países e atravessam o Atlântico em direção à América.
Entre 1840 e 1914 é na Rússia que se faz sentir e temer mais a possibilidade de uma agitação social violenta, provocada pelo atraso económico do país que se traduz, no plano social, pela fraqueza da classe média. Enquanto que na Grã-Bretanha, na França e na Alemanha os movimentos sociais atenuam-se, o desemprego suaviza-se e a segurança de todos parece garantida.
Na França, entre 1900 e 1914, o salário real da maioria dos operários quase duplica e baixa o número dos que recorrem às casas de penhores. Graças à difusão da imprensa, ao desenvolvimento escolar, à alimentação variada, à aquisição de bicicletas e louças variadas criaram-se novas necessidades materiais. Com o aumento dos salários e a consequente melhoria das condições de vida subir na escala social torna-se um direito imprescindível, o que conduz a uma vivência mais interessante, mais rica. Igual fenómeno acontece em Londres e na Alemanha.
Uma americana, Caroline E. Playne, que residia em Londres na altura registou o seguinte: «As dificuldades e os constrangimentos da vida produziram uma geração muito ambiciosa. As pessoas não têm paciência para esperar que as nossas condições de existência lhes deem uma boa situação. E a guerra, a guerra eclodirá, libertá-las-á desta dificuldade. Sem o saberem estes homens tinham substituído o hino à vida ou à revolução por um grande rancor.»
Pacifismo e internacionalismo confundem-se com o individualismo e o patriotismo. Um acontecimento extraordinário que só a natureza desta guerra explica: era considerada por todos uma guerra de defesa patriótica, logo uma guerra justa e uma guerra inelutável. E deste modo a Europa caminha a passos largos para o seu primeiro conflito bélico do século XX.
Até ao próximo estudo, sim?