segunda-feira, 10 de junho de 2013

Hoje festeja-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades de Língua Portuguesa.

Por isso, lembrei-me de aqui postar um trecho de Almeida Garrett, que, penso, vem muito a propósito dos tempos em que vivemos:

«Não: Plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamaizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. -- No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais uma pouca dúzia de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? -- (...) Já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e um fidalgo, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro -- seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Logo a nação mais feliz não é a mais rica. Logo o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...
There are more things in heave and earth, Horatio
Than are dreamt of in your philosophy. (Há mais coisas no céu, há mais na terra // Do que sonha a tua vã filosofia).
A ciência deste século é uma grandessíssima tola.
E como tal, presunçosa e cheia do orgulho dos néscios.»
Almeida Garrett, in Viagens da Minha Terra

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