terça-feira, 17 de setembro de 2013

Impressões do Crepúsculo


Ora aqui vai mais um belíssimo poema do nosso estimado e amado Pessoa. Os sinos da «minha aldeia», somente é minha porque eu a adotei!, são verdade... Ouço-os a baterem as horas e os quartos... Que som tranquilizador... :-) Porém, os sinos «da minha aldeia» de Pessoa são apenas os sinos da igreja próxima lisboeta... Não são os sinos «da sua aldeia»...  Afinal, o Grande, o Mestre, o Maior Poeta Português, pelo menos para mim, classificou um poeta como: «Um poeta é um fingidor...» :-)

I

«Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minh'alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem um som de repetida.

Por mais que tanjas perto,
Quando passo triste e errante,
És para mim como um sonho --
Soas-me sempre distante...

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

II

Pauis de roçarem ânsias pela minh'alma em ouro...
Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por 
    minh'alma...

Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de 
   palma!...
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Dum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado...
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade
O meu abandonar-me a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, eco de ter-se...
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não
   conter-se...
A sentinela é hirta -- a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Para que é tudo isto... Dia chão...
Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos
   de erro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!»

«Impressões do Crepúsculo», in Poesia de Fernando Pessoa, Editorial Presença.



Há tanto tempo que nada aqui coloco. Chegou a hora de uma nova postagem! O dia a dia, o trabalho, a preguiça, a canseira e sei eu lá mais o quê, me manteve afastada do meu blogue...

Tendo por imagem este mar infinito... este pôr do Sol me clama Fernando Pessoa...

Como tal, vou abrir um livro dele e falar-vos de um poema ao calhas.
E como de calhas me caiu aqui vai o que me saiu:

«Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais do que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
A ambos nós invejar.

E foi por esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu de uma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
de muitos de mais a meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demónios debaixo de mar
Poderão separar minha alma da alma
Da linda que soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que me soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que me soube amar; 
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado.
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.»

«Os Poemas Finais de Edgar Poe, Annabel Lee», Poesia de Fernando Pessoa, Editorial Presença.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Na sexta-feira tive a certeza de que sou duplamente licenciada: isto é, tenho duas licenciaturas: Uma em engenharia de minas e outra em estudos portugueses. A última foi engenharia de minas, apesar de ter sido a primeira! Baralhados? Pois...

O meu percurso académico é sui generis (único no seu género). Comecei a estudar no curso de engenharia civil, não gostei e mudei de curso para Minas, por influência de Zola, e de Aquilino Ribeiro, essencialmente. Não me senti peixe na água, pelo contrário, senti-me fora do contexto. Abandono o curso de Minas definitivamente (já em pleno 4.º ano). Opto pelos estudos portugueses. Aí vou reencontrar os nossos antepassados escritores: D. Dinis, D. Sancho, Bernardim Ribeiro, Camões, Eça, Pessoa, Virgílio, Catulo, etc. Tantos amados. Houve um encontro entre duas especialidades díspares: estabeleci pontes entre elas. Fiz o latim, graças às minhas competências matemáticas, o mesmo aconteceu com a fonética, fonologia e morfologia. Bebi na mesma fonte da lógica.  

Após quase quinze anos dedicados totalmente às letras portuguesas, decido saber que proveitos me traria Bolonha o meu percurso académico na faculdade, após árduo trabalho. Pois consegui um reconhecimento das disciplinas que fiz ao longo de 1986 até 1993/94. 

Posto isto, sou duplamente licenciada. Quais os proventos que tal me traz? Pois, nenhuns, continuo igual ao que sempre fui. Olhando para a situação atual até poderia multiplicar as minhas licenciaturas: tudo iria embater na atualidade: DESEMPREGO. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Almeida Garrett escreveu um poema narrtivo, em 1825, dedicado a Camões. E desenvolveu-o em forma de cantos, no total 10 cantos. No último pode ler-se:

«Os olhos turvos para o céu levanta;
e já no arranco extremo: Pátria, ao menos
juntos morreremos... E expirou co'a Pátria.» Almeida Garrett, in Camões

Na sequência de uma missiva que um conde regressado da batalha de Alcácer Quibir entrega ao Poeta. O Poeta comove-se daquela forma absolutamente espantosa!
Porque, como todos sabemos, com a morte de D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir, Portugal perdeu a sua independência...
Hoje festeja-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades de Língua Portuguesa.

Por isso, lembrei-me de aqui postar um trecho de Almeida Garrett, que, penso, vem muito a propósito dos tempos em que vivemos:

«Não: Plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamaizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. -- No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais uma pouca dúzia de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? -- (...) Já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e um fidalgo, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro -- seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Logo a nação mais feliz não é a mais rica. Logo o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...
There are more things in heave and earth, Horatio
Than are dreamt of in your philosophy. (Há mais coisas no céu, há mais na terra // Do que sonha a tua vã filosofia).
A ciência deste século é uma grandessíssima tola.
E como tal, presunçosa e cheia do orgulho dos néscios.»
Almeida Garrett, in Viagens da Minha Terra

sábado, 8 de junho de 2013

Meus amigos:

Atendendo às visitas que vós tendes feito ao meu modesto blogue: estou rendida! Mais de três mil visitas no espaço de quase de um ano é obra vossa. E eu estou profundamente grata pela vossa visita.

Obrigada, a vós, que me visitais, obrigada pela vossa gentiliza, obrigada porque existis....
Meus caros amigos:

Estamos em plena feira do livro (os meus amigos de Lisboa, porque o Porto, devido à autarquia, isto é, à política praticada pelo Rui Rio, ficou sem feira)

Bem, querelas à parte, não posso deixar de referenciar livros que valem a pena serem lidos ou relidos: no meu caso particular estão a ser relidos:

A tradução é excelente.



Outro grande mestre da literatura russo e com uma tradução fantástica de Nina e Filipe Guerra, de palavra que vale a pena a leitura.


Mas há mais que valem a pena e tudo está há distância de uma deslocação até ao Parque Eduardo VII, será que está assim tão longe?

Para a malta do Norte: NÃO HÁ FEIRA! Porém há tantas livrarias que estão totalmente disponíveis para vos receber...

Malta amiga:  dirigi-vos à livraria mais próxima e comprem Tolstói e Dostoiéveski, e, de palavra de honra que não vos estou a aldrabar, irão encontrar semelhanças com a porcaria da crise atual. Não vos estou a enganar, isto é de palavra.