Na passada sexta-feira após a comunicação ao país do PM fiquei em choque. E neste estado me mantive até terça-feira, dia em que o ministro das Finanças (MF) falou, em que fiquei em estado de choque.
Penso que o governo está declaradamente em guerra com os portugueses. Olhando para a história, não me recordo de semelhante.
Não sei nada de economia, nem percebo patavina de finanças, mas tenho lido muitos livros sobre esta matéria. Os cortes de salários apenam empobrecem. Empobrecem as pessoas e consequentemente empobrecem um país. Bem sei que desde que Portugal entrou no euro, os desmandos foram muitos. Houve muita gente que pensou e acreditou que só por isto nunca mais haveria problemas e começou-se a gastar e a fazer despesas sem controlo. A dívida dos portugueses, das empresas, do estado disparou. Até aqui tudo bem. Sei que a única forma de controlar a dívida é cortar nas despesas.
O governo escudando-se no memorando da troika defende o aumento de 7% de todos os trabalhadores no imposto a ser pago à Segurança Social, baixando assim o valor a pagar pelas empresas, justificando que tal medida vai impulsionar a economia, gerar mais emprego, porque as empresas passam a ter mais dinheiro para poderem contratar.
Se isto não fosse tão triste, daria uma boa comédia. Como é que é possível? As pessoas vão ver os seus rendimentos do trabalho diminuírem, logo não podem consumir, não podem gastar. As empresas, apesar de ganharem uns trocos com o abaixamento da TSU, não vão contratar mais funcionários, porque vão ter dificuldades em manter os que já têm, uma vez que não conseguem escoar os seus produtos. Isto é um presente envenenado às nossas empresas oferecido numa bandeja de prata pelas mãos do PM e MF.
Mais: se este ano apesar das duras medidas já impostas: corte dos subsídios, corte dos salários, aumento do IVA, Portugal ultrapassou a meta do défice imposta para este ano, e o MF já avisou que para lá chegar vai ter de haver medidas extraordinárias, como é que para o ano a meta se vai situar nos 4,5%? E em 2014 2,5%??????
Para 2013 o que está previsto é o aumento do imposto para a Segurança Social para todos os trabalhadores, aumento do IRC para as empresas, aumento do IRS para todos os particulares, cortes nos subsídios para os reformados e baixa da sua pensão... Como é que com todas estas medidas ainda vamos ter tecido empresarial? Se neste último ano foram centenas e centenas de pequenas e médias empresas que encerraram as suas portas, no ano que vem vão fechar as que ainda existem. Infelizmente é esta a minha convicção. O desemprego que agora dizem que se situa nos 16% e, na minha opinião é um número não real, porque é mais elevado, vai disparar para valores nunca vistos. Neste cenário negro, Portugal tem de atingir a meta do défice dos 4,5% e no ano seguinte 2,5%? Como? Sem empresas, sem economia, com milhões de desempregados...
Hoje o Público publica uma entrevista com o diretor do FMI. Diz ele que a medida do governo em mexer na TSU não é uma imposição da troika. E o abaixamento dos salários não é uma boa medida... Em que é que ficamos?
É curioso como Portugal move-se sempre em contraciclo em relação à Europa! Quando a Europa andava num desvario em busca de soluções, nós andávamos aqui como uns bons alunos, a portámo-nos muito bem. Finalmente, a Europa parece que encontra uma solução que faz respirar de alívio os países em dificuldades, que leva ao abaixamento das taxas de juros, andamos nós num desvario...
Os nossos «ilustres» governantes sempre nos disseram que tínhamos que nos desmarcar da Grécia! Afinal o que é que aconteceu à Grécia? Tem grande parte da sua dívida perdoada, não respeita qualquer ponto imposto pela troika, já pediu mais dinheiro, e este foi-lhe concedido, já pediu mais tempo e foi atendida. Muito se falou sobre a possibilidade de sair do euro. Coisa que até agora ainda não aconteceu. Afinal nada de mal aconteceu à Grécia... Pelo contrário!
Estes nossos «ilustres e doutos» governantes querem ir para além da troika. Mas, lamentavelmente, só vão para além dela apenas nos cortes, nos roubos ao mexilhão. Alguém já viu as outras medidas que constam do memorando postas em prática? Onde está a diminuição do número de câmaras e juntas de freguesia? Mantém-se tudo igual. Onde está a reforma judicial? Onde estão as tão faladas parcerias público-privadas?
Acredito que mexer nestas últimas é muito difícil porque os contratos estabelecidos entre o estado e alguns privados foram feitos de tal forma que nos vincula de uma maneira ultrajante. Mas temos um código civil e um código penal.
É fácil dar conferências de imprensa dizendo que vão cortar nos rendimentos do mexilhão. É o caminho mais fácil, porque o outro, o caminho de ir buscar dinheiro aos interesses instalados, é muito difícil. É mais fácil roubar quem não se conhece, afinal, nós para os nossos «ilustres e doutos» governantes somos apenas um número, não somos pessoas... Agora os outros, os outros são conhecidos e afinal, quando se sai do governo, pode-se vir a necessitar deles.
Quanto ao roubo nas pensões. Os reformados do nosso país trabalharam durante muitos anos, muitos, mais de 40 anos, e durante toda a sua vida depositaram grande parte dos seus rendimentos provenientes do seu salário nos cofres do estado, acreditando que quando chegasse a sua idade de reforma, iriam receber aquilo por que tanto trabalharam. ERRADO!
Agora o mesmo estado que lhes devia, porque é da sua obrigação, garantir esse dinheiro porque eles deram muito ao seu país, rouba-lhes grande parte do seu dinheiro.
Haverá alguém que neste momento queira confiar o seu dinheiro em tal instituição? Pior, haverá alguém que neste momento acredita e tem esperança nesta instituição? O estado não está a ser uma «pessoa» de bem. Rouba, mente, e engana descaradamente os seus filhos. Triste nação que assim procede.