Hoje em dia, ninguém se detém na fé, vai-se mais longe. Isto antigamente não acontecia. A fé, nos séculos bem anteriores ao nosso, era um compromisso que era aceite para toda a vida. Perante este pensamento, despertou em mim a curiosidade de «deambular» por algumas histórias descritas na Bíblia. Uma delas, pela sua natureza, levantou a minha curiosidade e fez-me meditar nos seus contornos. A esta meditação, que irei partilhar convosco, chamei-lhe «Deambulações em redor de Abraão».
Abraão (o pai ama) é considerado o pai da fé. É o primeiro dos antepassados de Israel e encarna em si todas as virtudes e defeitos de um povo. Inicialmente chamava-se Abrão e sua mulher Sarai. Sempre foi apresentado como o pai de Israel, o homem obediente, o homem temente a Deus, o observante da lei.
Da cidade de Ur, na Caldeia, partiu a família de Tera, pai de Abrão, em direção a Haran. Permaneceram aqui até à morte de Tera. Abrão recebe um chamamento, reuniu a sua família, os seus servos e todos os seus bens, e partem com destino a Canãa, atualmente a Palestina.
A mulher de Abrão, Sarai, era estéril e de muita idade. Apesar disso, um dia o mensageiro do Senhor anunciou a Abrão que Sarai ia dar à luz um filho seu, Isaac. Após o nascimento de Isaac, Abrão e Sarai viram os seus nomes serem alterados para Abraão e Sara.
É sobre o Génesis 22 que consiste a minha «deambulação». Deus pôs à prova Abraão. Chamou-o e ordenou-lhe que pegasse em seu filho muito amado, Isaac, e se dirigisse a Moriá, onde o iria oferecer em holocausto num local que posteriormente Deus lhe indicaria.
Na manhã do dia seguinte, Abraão aparelhou o jumento, chamou dois servos que os acompanhariam na jornada e com o seu filho partiram em direção a Moriá. Caminharam durante três dias. Ao terceiro dia Abraão avista Moriá. Dá indicação aos servos para que fiquem de guarda enquanto ele e o filho vão a um lugar para orar. Abraão pega na lenha, que vai ser usada para o holocausto, e entrega-a ao seu filho. Segurando com uma mão o fogo e na outra o cutelo, juntos iniciam a subida do monte.
Isaac quase que adivinha o seu destino, uma vez que refere que levam todos os artefactos para um holocausto, mas não avista qualquer animal. Ao que Abraão responde: «Deus proverá quanto à vítima para o holocausto, meu filho.»
Por fim chegaram ao sítio indicado por Deus, e Abraão construiu um altar, dispôs a lenha e prendeu Isaac, colocou-o sobre o altar, por cima dos toros. Agarrou no cutelo e preparou-se para degolar o filho. Naquele preciso momento, ouviu-se a voz do mensageiro do Senhor evitando assim Abraão de degolar o filho: «Não levantes a mão sobre o menino e não lhe faças mal algum, porque sei agora que, na verdade, temes a Deus, visto não me teres recusado o teu filho único.» Depois de proferidas estas palavras, Abrãao ergueu o olhar e avistou um carneiro preso a um silvado. Foi buscá-lo em substituição do seu filho.
A ordem de Deus a Abraão foi feita na véspera da partida. Será que Abraão contou a Sara o que Deus lhe havia pedido? Será que Sara suspeitou de alguma coisa, de alguma perturbação do marido, no caso de este lhe ter ocultado o pedido de Deus? Como é que Abraão enfrentou as horas que anteciparam o início da jornada? E como é que Abrãao conseguiu disfarçar a sua angústia durante aqueles três dias de viagem? Como é que ele se sentiu sempre que olhava para o rosto do seu amado filho? Quais teriam sido os pensamentos que ocorriam a Abraão? Se o Senhor lhe tinha dado um filho, quase no ocaso da vida e sendo a mulher estéril, como é que agora Ele lhe pedia um tal sacrifício? O Eleito de Deus ia sofrer uma das maiores provações. Como fora isto possível? Deus punha à prova Abrãao. Apesar da angústia, do desespero, Abraão não vacilou e meteu pés ao caminho.
Acreditou sem jamais duvidar. Acreditou no absurdo.
Se assim não tivesse sido, Abraão podia ter partido, levado na mesma o seu filho, preparado o altar e no último momento, enterraria o cutelo em si próprio. Ou então escolheria um dos servos e matá-lo-ia. Abraão também poderia ter duvidado, olhado em redor, empunhado o cutelo e avistado o cordeiro. E mal o avistasse, poderia tê-lo trocado pelo seu filho. Tudo isto mesmo antes de ser travado pelo mensageiro do Senhor. Porém, Abraão nada disto fez, mas sim o que Deus lhe disse para fazer. E levou a ordem até ao fim porque sabia que era o pedido mais duro e que nenhum outro se lhe pode igualar. Não há sacrifício maior do que um pai matar o seu filho.
No episódio do Evangelho, do rapaz muito rico que gostaria de seguir Jesus, mas só não o fazia porque não era capaz de abrir mão da sua fortuna pode-se estabelecer uma comparação entre este jovem rico e Abraão. O que é o sacrifício de abandonar uma grande fortuna, por muito gigante que ela seja, quando comparado com o sacrifício de Abraão de matar o seu prório filho muito amado? Não existe obrigação moral para com o dinheiro enquanto que um pai está ligado ao filho por um vínculo nobre e sagrado. Mais, se não fosse pela fé, tal ato poderia ser visto como um frio e calculado assassínio: os preparativos da viagem, a preparação da lenha, o cutelo, o fogo, o facto de ter deixado as testemunhas para trás... Mas não!
Abraão seguiu com o seu filho amado, subiu o monte e nunca, mas nunca em qualquer momento perdeu a fé. A fé que ele depositava em Deus. Acreditou sempre de que Deus não o iria obrigar a levar a cabo tal sacrifício. Por isso Abraão, o homem digno, o homem piedoso e temente a Deus ser chamado eleito do Eterno. Acreditou no absurdo: ainda que matasse Isaac, Abraão acreditava que Deus o restituísse. E acreditou no absurdo, uma vez que todo o cálculo estava abandonado. E acreditar no absurdo é o mesmo que ter fé. No momento em tudo nos parece perdido, eis que há um golpe de face e tudo acaba por se resolver da melhor maneira.
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