sábado, 22 de setembro de 2012

«Onde pus a esperança, as rosas
Murcharam logo.
Na casa, onde fui habitar,
O jardim, que eu amei por ser
Ali o melhor lugar,
E por quem essa casa amei --
Decerto o achei,
E, quando o tive, sem razão pr'a o ter.

Onde pus a feição, secou
A fonte logo.
Da floresta, que fui buscar
Por essa fonte ali tecer
Seu canto de rezar --
Quando na sombra penetrei,
Só o lugar achei
Da fonte seca, inútil de se ter.

Pr'a quê, pois, afeição, 'sperança
Se tê-las sabe a não as ter?
Que as uso, a causa pr'a as usar,
Se tê-las sabe a não as ter?
Crer ou amar --
Até à raiz, do peito onde alberguei
Tais sonhos e os gozei,
O vento arranque e leve onde quiser
E eu os não possa achar!»

Fernando Pessoa, Poesias

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