sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Nos últimos dois anos pelo menos mais de duzentos mil portugueses abandonaram o país e rumaram para outros destinos. Portugal sempre teve na sua história episódios de emigração, como podem ver neste belíssimo romance de Ferreira de Castro.




Só que agora os emigrantes já não levam a sua malinha de cartão. Levam na bagagem os seus diplomas de licenciados, mestres e doutorados. São jovens que têm os seus cursos pagos por todos nós e agora vão dar o seu contributo a outros países, porque o nosso não quer saber deles para nada. Aliás, penso que o nosso país não quer saber de nós para nada. O ideal é Portugal não ter portugueses! Assim seria um grande país, habitado apenas pelo governo, parlamento e sindicatos!

O importante foi o acontecimento de termos ido ao mercado e termos ido comprar dinheiro. A preço de oiro. Isso é que é o grande acontecimento, celebrado com fogo de artifício e cantares de vitória vindos da presidência da República e governo. 
Ora isto é que é um feito! Agora temos os problemas todos resolvidos. A economia vai crescer, os empregos vão exceder a procura, as empresas vão deixar de ir à falência, os ordenados vão ser aumentados, os reformados e aposentados vão ver as suas reformas triplicarem, isto é, voltarem a receber aquilo que descontaram durante toda a sua vida contributiva.


Ups... Eheheheheh
Estava a brincar... Afinal um reformado que ganhe mais de 1300 euros mensais é um ricalhaço e há que lhe tirar quase todos os seus ganhos de uma vida de descontos. Ah! Ganda país que assim tratas os teus filhos!!!!!!
Olá amig@s! 
Já há uns tempitos que não vinha para este espaço trocar ideias convosco. A preguiça e o temporal contribuíram para o meu silêncio.
Já abordei ligeiramente o nosso grande escritor Camilo Castelo Branco e hoje vou fazer-lhe uma revisita e gostaria de vos convidar.
Nasceu em Lisboa, mas logo em criança, após a morte da mãe, primeiro, e depois a morte do pai, Camilo rumou em direção ao Norte, para Vila Real, onde permaneceu durante quatro anos. 
Viveu no Porto, esteve preso na Cadeia da Relação do Porto, por causa do seu amor pela Ana Plácido e depois instalou-se com Ana Plácido em São Miguel de Seide, em Famalicão.
A notabilidade de Camilo assenta no romance. E foram muitos os livros que escreveu.
A intriga nos seus romances envolve ora pares que se amam e veem o seu amor contrariado quer pela diferença social, quer pelo desnível económico das famílias, quer pelas famílias rivais. A estes elementos dramáticos juntou Camilo outros de terror, dos quais resultaram uma espécie de romance negro; noutros, Camilo polvilhou-os de sátira mordaz, dando origem ao romance satírico de costumes; outros houve ainda em que este grande escritor explorou o amor impetuoso que nada detém e criou então o romance passional. Já para o fim da vida, Camilo enveredou pelo caminho do naturalismo, mas sob a pena jocosa, criando paródias de romances realistas.

Nos meus tempos de juventude, Camilo não despertou de todo a minha atenção. Achei os seus livros enfadonhos, monótonos e muito difíceis de ler. Porém, a idade adoça-nos o sabor das coisas da vida e à medida que avancei na idade, os meus gostos refinaram-se, adoçaram-se e agora sou uma leitora fervorosa da obra camiliana. Neste momento releio toda a sua obra, mais uma vez, e encontro cada vez mais beleza na sua escrita. 
Nas suas obras colhemos um riquíssimo e variadíssimo vocabulário, muitas vezes de sabor arcaizante. (Daí que seja de leitura difícil para um jovem ou para alguém mais distraído...)
A ironia está sempre presente. A cada passo encontramos uma frase irónica, satírica, onde também não falta o lirismo, especialmente nas coisas do amor.
Os adjetivos quase que não existem, mas também não são necessários porque Camilo escolhe excelsamente os substantivos e os verbos. Não é um escritor de descrições de paisagens, ambientes; também não faz uma análise psicológica das suas personagens. Contudo, conhecemo-las e vemo-las através dos diálogos. E, à medida que vamos avançando na leitura, ora nos apaixonamos e nos identificamos por esta ou aquela personagem, ora odiamos e criticamos uma outra.
Ler a obra camiliana é como degustar uma requintada refeição gourmet, ou um vinho de excelência. Tantas vezes volto atrás para reler um parágrafo, uma frase, porque não ficaram bem entendidos, bem saboreados, bem degustados.
Para vos aguçar o apetite vou transcrever um pequenino trecho do livro que estou a reler neste momento: «Álvaro é que notou magreza e palidez no rosto da prima. A natureza tem às vezes a caprichosa benevolência de entrar nestas comédias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombreiam o aspecto das cores mórbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espírito nas contingências do ar atmosférico, da insónia, e do alimento indigesto; mas a crítica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão fantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua própria paixão.» (in O Romance dum Homem Rico)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A amizade vista pelos olhos e sentimento de Florbela Espanca

«A amizade é o maior sentimento que não morre.» Correspondência, 1911.

Contador de histórias: Luís Vaz de Camões

«Esta é a ditosa pátria, minha amada,
À qual se o céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz comigo.»
Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas

Contador de histórias: o livro

Livro é magia que entrelaça vogais e consoantes que se transformam em palavras. Palavras que, ora, podem ser doces, mágicas, meigas, ora, cruéis, que ferem. Palavras que ficam para a história, muito para lá de quem as produziu. Este mundo maravilhoso da literatura em que podemos voar através da projeção das palavras na nossa mente para mundos distantes. O livro, esse transportador de sonhos, de realidades, de vivências fantasiosas ou bibliográficas. Ao contrário do cinema, o livro dá asas à imaginação, permite que a mente imagine lugares, pessoas, histórias. 
Marília Carmen Barros

Contador de histórias: Os filhos de Alice



Os filhos de Alice eram os livros que ela lia; os que corrigia. E quanto mais trabalho um livro lhe desse, mais amava aquele filho saído das suas entranhas: palavra atrás de palavra; frase após frase.
Não eram os filhos desejados e sonhados de Alice, de carne e osso, mas eram filhos em que os seus corpos eram de papel, os seus ossos, letras e o seu sangue misturava-se com o sangue da Alice; o sangue das horas passadas a tentar encontrar o sinónimo exato, a palavra certa, a vírgula bem colocada. Os «filhos» de Alice tinham pai: o/a autor/a. Mas para a Alice, o pai era apenas uma figura; o sémen indispensável à produção. O resultado era fruto do trabalho árduo de Alice. Como ela amava aquelas criaturas feitas de orações, subordinações, integrantes, substantivas. Assim passou a Alice a ser mãe não de uma, duas, três ou mais crianças, mas de uma infinidade de filhos. Todos muito amados, muito queridos, muito sofridos durante o percurso da sua educação. Uns foram rebeldes e indisciplinados, outros doces e amáveis, uns fizeram a Alice chorar lágrimas sentidas e outros gargalhadas incontidas. E como ela se sentia feliz no dia em que via o seu filho exposto num escaparate de uma livraria! Conhecia todos os seus filhos pelo nome; sabia quanto sangue seu perdeu ao dar à luz aqueles filhos. 
Marília Carmen Barros

Uma tarde com Camilo

Nesta tarde, cinzenta e fria, tenho por companhia um lume bem avivado e nas mãos um livro de Camilo Castelo Branco. Deixo-me levar pelas palavras de Camilo, excelso contador de histórias e olho as chamas avermelhadas da fogueira e penetro num ambiente do século XIX português.
Quando eu era mais nova, este escritor nunca despertou em mim a paixão. Ficava-me pelo ambiente bucólico de Júlio Dinis e pelos ambientes do Eça de Queirós. Mas a idade vai-nos abrindo o espírito a outros espaços e ambientes e a minha paixão por Camilo Castelo Branco vai crescendo de dia para dia. Lembro-me, perfeitamente, que o único livro que tinha devorado na minha juventude foi o famoso e conhecidíssimo Amor de Perdição. Depois vaguei pela Brasileira de Prazins, onde o riso me chegou até às lágrimas, o mesmo aconteceu enquanto percorri as aventuras de A Queda de Um Anjo.
Agora retomo novamente às páginas dos mesmos romances e encontro novos segredos até aqui nunca descobertos. Afinal a literatura é isto mesmo: de todas as vezes que lemos um livro de um grande autor, encontramos sempre coisas novas. 
Neste momento deambulo pelas páginas de O Romance de Um Homem Rico, o livro favorito do autor e escrito no período em que ele esteve preso na cadeia da Relação do Porto. 
Neste fim de semana que ontem findou, concluí a releitura de A Freira no Subterrâneo, que apesar de ser uma tradução pelo punho do Camilo tem imprimida a sua marca de escritor fora de série. Deixo-vos aqui um pequenino trecho como comprovativo da sua escrita exemplar e singular:
«Quem há que defina e analise uma carta de amores? São todas parecidas, cheias de adoráveis canduras, de entusiasmos sublimes, por vezes pueris e encantadores, jubilosos como um hossana e tristes como um gemido. Umas vezes marejam os olhos, outras vezes fazem sorrir. O que as aformoseia e diviniza é o sentimento que nos infundem e inflamam. Se mais tarde o coração se resfria e incinera, lá vai perdida a primeira impressão; porém, se um bafejo generoso nos aviventa, se o seio arfa, se renascemos para o amor como para uma vida nova, são inefáveis os gozos que nos dão as nossas cartas amorosas. Não nos vexamos de as ler, acolhemo-las ao seio, beijamo-las sem pejo nem contrafeito pudor. Aquele que não estremece ao ler uma carta dessas, aquele que olvidou a vida ardente e febril que aí se reflecte nesse papel, esse tal não amou nunca, nem foi digno de ser amado.» in A Freira no Subterrâneo.

Têm de concordar comigo que este pequenino trecho define tudo, não é verdade?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A amizade é algo caro a todos. A amizade é uma dádiva. A amizade é gratuitidade. Quantas vezes sentimos amizade por alguém e, esse alguém, trai a amizade... Como eu gostava de ter um  amigo verdadeiro ou uma amiga sem traições sem falsidade... Mas tenho; e esse amigo é Deus. O que nunca falha, o que nunca nos decessiona ....

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Beira Alta

Serras dobradas sobre serras, pequenos vales escondidos em desfiladeiros abruptos e as aldeias geralmente negras de lousa e curvadas de pequenas culturas; de onde em onde um plató mais airoso que deixa ver à distância as lombas azuladas -- e é a Beira serrana. Lá dentro, o beirão é um homem resoluto e andarilho, trepador da serra a pé ou a lombo de garrano, ora afeito à doçura dos vales dos socalcos que, pelo sopé do Caramulo e a faixa da Bairrada, estabelecem transição com a zona portuguesa da costa, ora habituado às alturas da serra da Estrela e às plataformas da raia castelhana.
O coração da província pulsa esparso e tranquilo, tão depressa na Guarda e na sua região de vilas acasteladas e pecuárias -- Belmonte, Almeida, Gouveia, Manteigas, Sertã --, como na velha Viseu da lenda do Viriato, e no seu duplo alfoz de Lamego ao Alto Paiva e das suas vilas vinhateiras e lenhosas do vale do Dão: Nelas, Santa Comba Dão, Mangualde. Os xistos lamelados alternam na construção com os granitos lavrados dos solares de Viseu e de Tondela.
A expressão da terra é ao mesmo tempo áspera e suavizada. As penhas redondas do Alto Dão, onde o próprio pinheiro parece vegetar a custo, cedem a largos oásis férteis e bem regados. A amendoeira algarvia tem a sua réplica e o seu émulo em Figueira de castelo Rodrigo.
Assim, a Beira Alta é o cerne de Portugal, a sua região interior a que os ventos do Atlântico ainda levam um pouco de frescura e humidade. Os rebanhos compactos descem dos Hermínios aos vales que o outono de todo em todo não crestou, e então o pastor de surrão e manta às costas traz até quase ao litoral a nota de uma humanidade de um pouco de pão duro e azeitonas com um trago da ordenha da manhã. os centros beirões conhecem uma civilização velhíssima que a energia hidroelétrica arrancada às quedas serranas vai industrializando e iluminando.
Em Viseu passeamos entre solares vetuscos e podemos ver da melhor pintura quinhentista em museus bem ordenados. Há estâncias de cura e repouso ao longo do vale do Dão, vida e ar puro em toda a parte. Tocando a leste o páramo castelhano, na planura de Almeida, a oeste as terras baixas e irrigadas e ao sul os calmos pinhais, estremenhos, que ondulam no sentido do mar, a Beira Alta é Portugal velho legítimo, Portugal de raiz.




Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Estive a fazer uma «arrumação» ao blogue. Assim os leitores poderão ler os poemas por autor e não toda aquela mistura anterior que não permitia escolher um poeta. Penso que esta ordenação é mais certa. Todos os assuntos tratados aqui estão na pasta respetiva, tornando mais fácil o acesso aos conteúdos.

De qualquer forma aceitam-se sugestões, certo?

Minho

Terra de verdura e de névoa; terra sem osso -- chamou Miguel de Unamuno, espanhol nosso amigo, ao Minho e à Galiza. Mas os ossos que faltam à terra húmida e fértil sobram ao homem próvido. O Minho é a província da pobreza seivosa e lameiros quase humanos. Ali, a gente e a terra fundem-se numa harmonia profunda e sofrida. A vida é dura mas alegremente levada. O cabaneiro agarra-se com igual denodo à soga dos bois, ao sacho do milho regadio e à tesoura de podar. No dia de festa do santuário larga tudo pela maceta do bombo ou pelo fole da gaita céltica. De Barcelos a Viana e de Braga a Monção estrugem foguetes de arraial, os caminhos enfeitam-se da saia barrada de Afife e dos peitos constelados de cordões.

As romarias afamadas ainda são sensivelmente as mesmas do tempo de Pai Soares de Taveirós e de el-rei D. Dinis, num cordão de ermidinhas que levam São Torcato ao endireito de Compostela, entre os milharais e as latadas. A um lado Viana do Castelo com os veleiros e solares; -- a outro, Guimarães com a Colegiada de Mumadona e a igrejinha de São Miguel onde levaram a batizar o primeiro rei português; a outro, ainda, Braga com a bênção de São Martinho de Dume, apóstolo do reino suevo, a espessura do Bom Jesus e as ruas canónicas e pausadas.
A literatura abusou talvez um pouco do pitoresco de uma terra que não é só logradoiro de lavradeiras clientes das ourivesarias de Gondomar, porque é também a leiva em que não cabem todos e que, assim, vai encaminhando o seu povo, de saquitel e tamancos às costas, para o caminho incerto e duro da emigração. Mas o minhoto de Santo Tirso, de Famalicão e de Barcelos não quer mal à terra apertada a que voltará um dia com a certeza de espaço para a velhice e a morte. A densidade da vizinhança ensina-lhe uma regra de convívio temperada de prudência e bonomia. É festeiro na hora da festa e bom braço nos dias de labuta. pescador em Âncora e Viana, é boieiro à porta do estábulo, serrano nas alturas de Barroso, vinhateiro e hortelão das chedas um pouco por toda a parte. Ourives nas abas do Porto, as suas mãos calosas do carro do milho e da aduela do pipo do verdasco chamuscam-se da pólvora pirotécnica do arraial, empastam-se do barro de Barcelos, falquejam as imagens de Braga e o cavername dos barcos de Vila do Conde e de Póvoa de Varzim.
O senhor abade e o fidaurgo da quinta dos vales do Lima, do Minho e do Vez ainda são seus oráculos: sempre, porém, ouvidos com o íntimo sentimento de que cada um no seu lugar cuida de si mesmo -- e bonda... Com isto, a paz da honesta abundância ainda conhece bucólicas como a do quinchoso de Alvapenha do romance de Júlio Dinis. Os cães ladram nas testeiras das quintas, são mesmo de má cara em Castro Laboreiro, mas o almocreve vai passando, como passa a roga e o rancho de Zé Pereira. De Ponte de Lima a Caminha e Monção vai havendo lugar para todos, uma malga de caldo verde, um naco de broa e às vezes uma caneca em que crepita o verdasco. Quando o não há, o minhoto toma pacatamente um paquete no porto de Leixões e espera-lhe pela volta com uma confiança inabalável. Portugal não fica arredondado sem ele.

Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.



Balada da neve


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente,
e a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se houve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
-- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezinhos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
-- E cai no meu coração.

Augusto Gil, Luar de Janeiro.

A vida

«A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai;
a vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares,
uma após outra lançou,
a vida -- pena caída
da asa de ave ferida --
de vale em vale impelida
a vida o vento a levou!»

João de Deus, Campo de Flores.