Olá amig@s!
Já há uns tempitos que não vinha para este espaço trocar ideias convosco. A preguiça e o temporal contribuíram para o meu silêncio.
Já abordei ligeiramente o nosso grande escritor Camilo Castelo Branco e hoje vou fazer-lhe uma revisita e gostaria de vos convidar.
Nasceu em Lisboa, mas logo em criança, após a morte da mãe, primeiro, e depois a morte do pai, Camilo rumou em direção ao Norte, para Vila Real, onde permaneceu durante quatro anos.
Viveu no Porto, esteve preso na Cadeia da Relação do Porto, por causa do seu amor pela Ana Plácido e depois instalou-se com Ana Plácido em São Miguel de Seide, em Famalicão.
A notabilidade de Camilo assenta no romance. E foram muitos os livros que escreveu.
A intriga nos seus romances envolve ora pares que se amam e veem o seu amor contrariado quer pela diferença social, quer pelo desnível económico das famílias, quer pelas famílias rivais. A estes elementos dramáticos juntou Camilo outros de terror, dos quais resultaram uma espécie de romance negro; noutros, Camilo polvilhou-os de sátira mordaz, dando origem ao romance satírico de costumes; outros houve ainda em que este grande escritor explorou o amor impetuoso que nada detém e criou então o romance passional. Já para o fim da vida, Camilo enveredou pelo caminho do naturalismo, mas sob a pena jocosa, criando paródias de romances realistas.
Nos meus tempos de juventude, Camilo não despertou de todo a minha atenção. Achei os seus livros enfadonhos, monótonos e muito difíceis de ler. Porém, a idade adoça-nos o sabor das coisas da vida e à medida que avancei na idade, os meus gostos refinaram-se, adoçaram-se e agora sou uma leitora fervorosa da obra camiliana. Neste momento releio toda a sua obra, mais uma vez, e encontro cada vez mais beleza na sua escrita.
Nas suas obras colhemos um riquíssimo e variadíssimo vocabulário, muitas vezes de sabor arcaizante. (Daí que seja de leitura difícil para um jovem ou para alguém mais distraído...)
A ironia está sempre presente. A cada passo encontramos uma frase irónica, satírica, onde também não falta o lirismo, especialmente nas coisas do amor.
Os adjetivos quase que não existem, mas também não são necessários porque Camilo escolhe excelsamente os substantivos e os verbos. Não é um escritor de descrições de paisagens, ambientes; também não faz uma análise psicológica das suas personagens. Contudo, conhecemo-las e vemo-las através dos diálogos. E, à medida que vamos avançando na leitura, ora nos apaixonamos e nos identificamos por esta ou aquela personagem, ora odiamos e criticamos uma outra.
Ler a obra camiliana é como degustar uma requintada refeição gourmet, ou um vinho de excelência. Tantas vezes volto atrás para reler um parágrafo, uma frase, porque não ficaram bem entendidos, bem saboreados, bem degustados.
Para vos aguçar o apetite vou transcrever um pequenino trecho do livro que estou a reler neste momento: «Álvaro é que notou magreza e palidez no rosto da prima. A natureza tem às vezes a caprichosa benevolência de entrar nestas comédias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombreiam o aspecto das cores mórbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espírito nas contingências do ar atmosférico, da insónia, e do alimento indigesto; mas a crítica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão fantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua própria paixão.» (in O Romance dum Homem Rico)