segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Contador de histórias: Os filhos de Alice



Os filhos de Alice eram os livros que ela lia; os que corrigia. E quanto mais trabalho um livro lhe desse, mais amava aquele filho saído das suas entranhas: palavra atrás de palavra; frase após frase.
Não eram os filhos desejados e sonhados de Alice, de carne e osso, mas eram filhos em que os seus corpos eram de papel, os seus ossos, letras e o seu sangue misturava-se com o sangue da Alice; o sangue das horas passadas a tentar encontrar o sinónimo exato, a palavra certa, a vírgula bem colocada. Os «filhos» de Alice tinham pai: o/a autor/a. Mas para a Alice, o pai era apenas uma figura; o sémen indispensável à produção. O resultado era fruto do trabalho árduo de Alice. Como ela amava aquelas criaturas feitas de orações, subordinações, integrantes, substantivas. Assim passou a Alice a ser mãe não de uma, duas, três ou mais crianças, mas de uma infinidade de filhos. Todos muito amados, muito queridos, muito sofridos durante o percurso da sua educação. Uns foram rebeldes e indisciplinados, outros doces e amáveis, uns fizeram a Alice chorar lágrimas sentidas e outros gargalhadas incontidas. E como ela se sentia feliz no dia em que via o seu filho exposto num escaparate de uma livraria! Conhecia todos os seus filhos pelo nome; sabia quanto sangue seu perdeu ao dar à luz aqueles filhos. 
Marília Carmen Barros

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