Os filhos de Alice eram os
livros que ela lia; os que corrigia. E quanto mais trabalho um livro lhe desse,
mais amava aquele filho saído das suas entranhas: palavra atrás de palavra;
frase após frase.
Não eram os filhos desejados e
sonhados de Alice, de carne e osso, mas eram filhos em que os seus corpos eram
de papel, os seus ossos, letras e o seu sangue misturava-se com o sangue da
Alice; o sangue das horas passadas a tentar encontrar o sinónimo exato, a
palavra certa, a vírgula bem colocada. Os «filhos» de Alice tinham pai: o/a autor/a. Mas para a Alice, o pai era apenas uma figura; o sémen indispensável à produção.
O resultado era fruto do trabalho árduo de Alice. Como ela amava aquelas
criaturas feitas de orações, subordinações, integrantes, substantivas. Assim
passou a Alice a ser mãe não de uma, duas, três ou mais crianças, mas de uma infinidade de filhos.
Todos muito amados, muito queridos, muito sofridos durante o percurso da sua
educação. Uns foram rebeldes e indisciplinados, outros doces e amáveis, uns fizeram a Alice chorar lágrimas sentidas e outros gargalhadas incontidas. E como ela se sentia feliz no dia em que via o seu filho exposto num
escaparate de uma livraria! Conhecia todos os seus filhos pelo nome; sabia quanto sangue seu perdeu ao dar à luz aqueles filhos.
Marília Carmen Barros
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