Serras dobradas sobre serras, pequenos vales escondidos em desfiladeiros abruptos e as aldeias geralmente negras de lousa e curvadas de pequenas culturas; de onde em onde um plató mais airoso que deixa ver à distância as lombas azuladas -- e é a Beira serrana. Lá dentro, o beirão é um homem resoluto e andarilho, trepador da serra a pé ou a lombo de garrano, ora afeito à doçura dos vales dos socalcos que, pelo sopé do Caramulo e a faixa da Bairrada, estabelecem transição com a zona portuguesa da costa, ora habituado às alturas da serra da Estrela e às plataformas da raia castelhana.
O coração da província pulsa esparso e tranquilo, tão depressa na Guarda e na sua região de vilas acasteladas e pecuárias -- Belmonte, Almeida, Gouveia, Manteigas, Sertã --, como na velha Viseu da lenda do Viriato, e no seu duplo alfoz de Lamego ao Alto Paiva e das suas vilas vinhateiras e lenhosas do vale do Dão: Nelas, Santa Comba Dão, Mangualde. Os xistos lamelados alternam na construção com os granitos lavrados dos solares de Viseu e de Tondela.
A expressão da terra é ao mesmo tempo áspera e suavizada. As penhas redondas do Alto Dão, onde o próprio pinheiro parece vegetar a custo, cedem a largos oásis férteis e bem regados. A amendoeira algarvia tem a sua réplica e o seu émulo em Figueira de castelo Rodrigo.
Assim, a Beira Alta é o cerne de Portugal, a sua região interior a que os ventos do Atlântico ainda levam um pouco de frescura e humidade. Os rebanhos compactos descem dos Hermínios aos vales que o outono de todo em todo não crestou, e então o pastor de surrão e manta às costas traz até quase ao litoral a nota de uma humanidade de um pouco de pão duro e azeitonas com um trago da ordenha da manhã. os centros beirões conhecem uma civilização velhíssima que a energia hidroelétrica arrancada às quedas serranas vai industrializando e iluminando.
Em Viseu passeamos entre solares vetuscos e podemos ver da melhor pintura quinhentista em museus bem ordenados. Há estâncias de cura e repouso ao longo do vale do Dão, vida e ar puro em toda a parte. Tocando a leste o páramo castelhano, na planura de Almeida, a oeste as terras baixas e irrigadas e ao sul os calmos pinhais, estremenhos, que ondulam no sentido do mar, a Beira Alta é Portugal velho legítimo, Portugal de raiz.
Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.
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