terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Minho

Terra de verdura e de névoa; terra sem osso -- chamou Miguel de Unamuno, espanhol nosso amigo, ao Minho e à Galiza. Mas os ossos que faltam à terra húmida e fértil sobram ao homem próvido. O Minho é a província da pobreza seivosa e lameiros quase humanos. Ali, a gente e a terra fundem-se numa harmonia profunda e sofrida. A vida é dura mas alegremente levada. O cabaneiro agarra-se com igual denodo à soga dos bois, ao sacho do milho regadio e à tesoura de podar. No dia de festa do santuário larga tudo pela maceta do bombo ou pelo fole da gaita céltica. De Barcelos a Viana e de Braga a Monção estrugem foguetes de arraial, os caminhos enfeitam-se da saia barrada de Afife e dos peitos constelados de cordões.

As romarias afamadas ainda são sensivelmente as mesmas do tempo de Pai Soares de Taveirós e de el-rei D. Dinis, num cordão de ermidinhas que levam São Torcato ao endireito de Compostela, entre os milharais e as latadas. A um lado Viana do Castelo com os veleiros e solares; -- a outro, Guimarães com a Colegiada de Mumadona e a igrejinha de São Miguel onde levaram a batizar o primeiro rei português; a outro, ainda, Braga com a bênção de São Martinho de Dume, apóstolo do reino suevo, a espessura do Bom Jesus e as ruas canónicas e pausadas.
A literatura abusou talvez um pouco do pitoresco de uma terra que não é só logradoiro de lavradeiras clientes das ourivesarias de Gondomar, porque é também a leiva em que não cabem todos e que, assim, vai encaminhando o seu povo, de saquitel e tamancos às costas, para o caminho incerto e duro da emigração. Mas o minhoto de Santo Tirso, de Famalicão e de Barcelos não quer mal à terra apertada a que voltará um dia com a certeza de espaço para a velhice e a morte. A densidade da vizinhança ensina-lhe uma regra de convívio temperada de prudência e bonomia. É festeiro na hora da festa e bom braço nos dias de labuta. pescador em Âncora e Viana, é boieiro à porta do estábulo, serrano nas alturas de Barroso, vinhateiro e hortelão das chedas um pouco por toda a parte. Ourives nas abas do Porto, as suas mãos calosas do carro do milho e da aduela do pipo do verdasco chamuscam-se da pólvora pirotécnica do arraial, empastam-se do barro de Barcelos, falquejam as imagens de Braga e o cavername dos barcos de Vila do Conde e de Póvoa de Varzim.
O senhor abade e o fidaurgo da quinta dos vales do Lima, do Minho e do Vez ainda são seus oráculos: sempre, porém, ouvidos com o íntimo sentimento de que cada um no seu lugar cuida de si mesmo -- e bonda... Com isto, a paz da honesta abundância ainda conhece bucólicas como a do quinchoso de Alvapenha do romance de Júlio Dinis. Os cães ladram nas testeiras das quintas, são mesmo de má cara em Castro Laboreiro, mas o almocreve vai passando, como passa a roga e o rancho de Zé Pereira. De Ponte de Lima a Caminha e Monção vai havendo lugar para todos, uma malga de caldo verde, um naco de broa e às vezes uma caneca em que crepita o verdasco. Quando o não há, o minhoto toma pacatamente um paquete no porto de Leixões e espera-lhe pela volta com uma confiança inabalável. Portugal não fica arredondado sem ele.

Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.



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