quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Reflexões

Neste momento estão centenas de jovens de cara coberta a provocarem distúrbios em frente ao parlamento.   O orçamento, como era expectável, foi aprovado. A manifestação é legítima e é um direito, o que eu critico e não estou de todo de acordo é com os distúrbios e, mais, os rostos tapados. Quando nos manifestamos e neste momento temos o dever de o fazer e este dever é de CIDADANIA, deve ser com a cara descoberta, sem medo e sem VIOLÊNCIA. Porque tanto a violência como os rostos tapados retiram toda a legitimidade e desvirtuam toda e qualquer manifestação.

Ex corde

Quem de entre nós não tenta inúmeras vezes possuir uma flor? Mas mal a possuímos rapidamente vemos a sua beleza desaparecer e murchar. Agora, quem apenas se limita a observar a beleza de uma flor no campo, ela permanecerá para sempre connosco. Porque uma flor combina com a tarde, com o pôr do sol, com o cheiro da terra molhada e com as nuvens que vagueiam no horizonte. Tal como a flor no campo, assim também é o amor. O amor é a liberdade e não aquilo que ocorre invariavelmente pensar que amor é possuir.  Lembremo-nos da história bíblica de Salomão e das duas mulheres que disputavam a maternidade de uma criança. A verdadeira mãe não suportou a ideia de ver o seu filho divido em dois. Preferiu prescindir da sua maternidade em troca da vida da criança. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Momentos de poesia

Nada melhor para terminar o dia que um momento de poesia com os nossos poetas.

«Sonhos

Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Quase se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que ao sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...

Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois vir a morte

Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II

«Amor vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser -- e não só de beijos
Dados no ar -- delírios e desejos --
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?»

Antero de Quental, Sonetos.

«Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.»

Bocage, Antologia poética.




sábado, 27 de outubro de 2012

Santo do dia

São Gonçalo de Lagos nasceu por volta de 1360. Ainda jovem saiu de da sua terra natal em direção a Lisboa. Aqui tomou o hábito dos eremitas de Santo Agostinho, no convento da Graça. De espírito humilde, renunciou ao doutoramento em teologia, embora fosse brilhante e grande amigo das letras. Dedicou-se à pregação e à caridade. Morreu em Torres Vedras a 15 de outubro de 1422. Foi beatificado por Pio VI, em 1798, mas em Portugal é considerado santo.


«Diz a escritura: Deus dá a graça aos humildes e resiste aos soberbos. Considerai, irmãos caríssimos, qual a retribuição de uns e de outros e ficareis a entender o que deveis amar e o que deveis odiar. Este, pelo amor à humildade, é enriquecido pela graça; aquele, por causa da soberba, é merecedor de castigo. Corrija-se cada qual a si mesmo, se de alguém se apoderou o orgulho, para não atrair sobre si a justiça celeste. Porquanto, dificilmente passará sem perigo de vida aquele que se expõe ao combate contra um poder mais alto. Inclinemos, portanto, o nosso espírito com toda a humildade, a fim de alcançarmos a graça junto do Senhor.
Mas podereis compreender como é grave a culpa da soberba e como é necessário evitar tão grande castigo da ira divina. A humildade sai sempre ilesa, porque não pode ser vencido quem não está implicado na luta. Mas a soberba atrai ódios e perigos, porque dificilmente escapa ao combate quem cometeu a ofensa. Contudo, será fácil para nós escapar de todo o perigo, se lutarmos com humildade contra os vícios da soberba. Deus dá a graça aos humildes e resiste aos soberbos.
Refiro-me àquela humildade verdadeira e santa que é inspirada no amor de Deus e da religião, e não aquela que provém do temor servil. Falo daquela humildade que anda sempre associada à caridade, que não se desvanece com a autoridade mas se alimenta com a lei da vida.
Consideremos, irmãos caríssimos, os bens da humildade. A humildade é serena e atenciosa, é grata nas amizades e calma nas afrontas. O humilde não se exalta com a prosperidade, nem se perturba com a adversidade; não pede serviços nem os impõe; por deferência, é o primeiro a saudar e o último a sentar-se; não se deixa seduzir pelos aduladores, nem ambiciona saudações lisonjeiras; não busca pretextos de louvor, nem espera o favor dos aplausos; evita o coro das reclamações, porque o louvor ofende a modéstia da boa consciência. Não dá ouvidos a vozes aduladoras aquele que se reconhece indigno de louvor; tolera com dificuldade os louvores dos amigos aquele que os merece. Todavia, se cai nalguma falta, espera que os seus atos sejam notados e justamente censurados.
A humildade anda sempre acompanhada da bondade. Assim como não sabe ofender ninguém, também não se queixa das afrontas. Nas discussões, o homem humilde tem mais satisfação em calar-se do que em vencer; nos juízos, antes quer parecer ignorante do que ser tido como imprudente; é circunspecto no falar e prudente ao responder.
Caríssimos: amemos e procuremos a humildade, abracemo-la e conservemo-la com entusiasmo, para não perdermos a recompensa da graça prometida. Ouvi as palavras do evangelista: Quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado.» (das «Homilias de São Valeriano», bispo, da Liturgia das Horas, «Ofício de Leitura»)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Breves palavras de Santa Teresa

«A quem ainda não a começou (a oração), por amor do Senhor lhe rogo, nãp careça de tanto bem. Não há aqui que temer senão que desejar. Mesmo quando não for avante mas se esforçar a ser perfeito que mereça os gostos e regalos que Deus dá a estes, pouco a pouco irá entendendo o caminho para o Céu; e se persevera, espero eu na misericórdia de Deus, pois ninguém O tomou por amigo que não lho pagasse. E outra coisa não é, a meu parecer, oração mental, senão tratar de amizade -- estando muitas vezes tratando a sós -- com quem sabemos que nos ama.»

«Andava pois já a minha alma cansada e, embora quisesse, não a deixavam descansar os ruins costumes que tinha. Aconteceu-me que, entrando eu um dia no oratório, vi uma imagem, que para ali trouxeram a guardar; tinham-na ido buscar para certa festa que se fazia na casa. Era a de Cristo muito chagado e tão devota que, ao pôr nela os olhos, toda eu me perturbei por O ver assim, porque representava bem o que passou por nós. Foi tanto o que senti por tal mal Lhe ter agradecido aquelas chagas, que o coração, me parece, se partia e arrojei-me junto d'Ele com grandessíssimo derramamento de lágrimas, suplicando-Lhe me fortalecesse de uma vez para sempre para não O ofender.»


Santa Teresa de Jesus, Obras completas.

Camões

«Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero sempre que seja celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dua outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.»

Luís de Camões, Lírica.


«O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha e a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar a minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora,

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.»

Idem.

Momento de poesia

«Salmo

Esperemos em Deus! Ele há tomado
Em suas mãos a massa inerte e fria
Da matéria impotente e, num só dia,
Luz, movimento, ação, tudo lhe há dado.

Ele, ao mais pobre de alma, há tributado
Desvelo e amor: ele conduz à via
Segura quem lhe foge e se extravia,
Quem pela noite andava desgarrado.

E a mim, que aspiro a ele, a mim, que o amo,
Que anseio por mais vida e maior brilho,
Há de negar-me o termo deste anseio?

Buscou quem o não quis: e amim, que o chamo,
Há de fugir-me, como a ingrato filho?
Ó Deus, meu pai e abrigo! espero!... eu creio!»

Antero de Quental, Sonetos

Momento de poesia

«O meu céu

Para suportar o exílio do vale de lágrimas
Preciso de olhar do meu Divino Salvador
Esse olhar cheio de amor revelou-me os seus encantos
Fez-me pressentir a felicidade celeste.
O meu Jesus sorri-me quando suspiro por Ele.
Então já não sinto a provação da fé
O olhar do meu Deus, o seu encantador sorriso
Eis o meu céu!...

O emu céu é poder atrair sobre as almas
Sobre a Igreja minha mãe e sobre todas as minhas irmãs
As graças de Jesus e as suas divinas chamas
Que sabem abrasar e alegrar os corações.
Posso tudo alcançar quando em segredo
Falo a sós com o meu divino Rei
Esta doce oração juntinho do santuário
Eis o meu céu!...

O meu céu está oculto na hóstia pequenina
Onde Jesus, meu Esposo, se esconde por amor
A este fogo divino eu vou buscar a vida
E nele o meu Salvador ouve-me noite e dia.
'Oh! que feliz instante quando na tua ternura
Vens, meu Bem-amado, transformar-me em Ti'
Esta união de amor, esta inevitável loucura
Eis o meu céu!...

O meu céu é sentir em mim semelhança
Do Deus que me criou com o seu sopro poderoso
O meu céu é ficar sempre na sua presença
Chamar-Lhe meu Pai e ser sua filha
Nos seus braços divinos, não receio a tempestade
O total abandono é a minha ínica lei.
Dormitar no seu coração, bem junto do seu rosto
Eis o meu céu!...»

Santa Teresinha do Menino Jesus, Obra Completa.

Ex corde

«Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinteressada delas. Eu sou ao contrário: o tempo passa e a afeição vai crescendo, morrendo apenas quando a ingratidão e a maldade a fizerem morrer.»

Florbela Espanca, Correspondência, 1916.

«A respeito de política (...) eu continuo a não ter fé em ninguém e a achar todos os mesmos.»

Idem.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Três minutos de sabedoria

Não tenhamos qualquer dúvida de que os conselhos ou sugestões dos outros nos ajudam. Contudo, não nos devemos esquecer de que a solução para os nossos problemas está dentro de nós, na voz silenciosa da nossa consciência, que não é mais do que a voz de Deus. Não nos deixemos enganar nem iludir: só cada um de nós é responsável pelo caminho que escolher. Ninguém poderá prestar contas em nosso nome. Devemos, portanto, viver corretamente de acordo com a nossa consciência.


Embora nos possamos sentir sós na nossa caminhada, não devemos esmorecer. Devemos continuar a nossa jornada, mesmo que as trevas em nosso redor se adensem. E esta poderá ser mais uma razão para mantermos acesa, por muito pequenina que seja, a chama da fé. Não devemos nunca deixar que esta luzinha se apague, porque se a deixarmos apagar, aí é que ficaremos mesmo nas trevas. Iluminemos o nosso caminho com esta chamazinha de fé e as trevas se dissiparão e a luz voltará a incidir sobre nós.


Fixemos o nosso olhar no lado belo da vida. E ao fazermos isto, verificaremos que há tanta coisa para ser contemplada e apreciada! Enquanto que as moscas pousam mesmo num corpo completamente limpo, as abelhas buscam as flores,  mesmo as que nascem no meio de um pântano. Então sigamos o exemplo das abelhas! Embora ao nosso redor apenas avistemos, à primeira vista, lama, devemos lançar um olhar mais atento e de certeza que iremos descobrir uma pequenina flor. Pode ser uma florzinha singela e tenra mas virá sem dúvida aquecer a nossa alma. Porque a beleza, o lado belo da vida, não está nas grandes coisas, mas sim nas pequeninas, naquilo que muitas vezes a nossa vista desatenta não consegue ver.

Alguns momentos de poesia

«Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva --
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão --
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.»

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, Poemas


«Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se eu morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.»

Idem.

«Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não terá nada mais simples.
Tem só duas datas -- a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.

Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.»

Idem.



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

«Fosse eu apenas, não sei onde nem como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu doirado assomo...

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloríola com ter
A árvore do meu uso o único pomo...

Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...»

Fernando Pessoa, Poesias

Momento de poesia

«Oração

Ó Deus, senhor da terra, omnipotente,
Senhor do vasto mar! Senhor do céu!
Atendei esta prece humilde e crente,
Ouvi-me por piedade, Senhor meu!

Olhai por todos que amam sua terra,
Guiai aqueles que amam Portugal,
Protegei os que andam pela guerra
A defender o seu torrão natal!

Lançai o vosso olhar de piedade
Por todos os que arrastam 'ma saudade
pela pátria distante, muito além!...

Consolai, ó meu Deus, os orfãozinhos,
As mães, as noivas e os que têm ninhos
Despedaçados pela guerra. Amém.»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II

Reflexão

Hoje vou colocar aqui uma carta de despedida de um enfermeiro para o PR. Vale a pena lê-la e meditar em tudo o que os governantes deste país nos fizeram e nos conduziram, E o problema máximo disto é que todos nós somos culpados, porque foi com o nosso voto que estes governantes lá estão sentados na cadeira do poder.




"Carta de despedida à Presidência da República
Excelência,
Não me conhece, mas eu conheço
o e, por isso, espero que não se importe que lhe dê alguns dados biográficos. Chamome Pedro Miguel, tenho 22 anos, sou um recém licenciado
da Escola Superior de Enfermagem do Porto. Nasci no dia 31 de Julho de
1990 na freguesia de Miragaia. Cresci em Alijó com os meus avós paternos, brinquei na
rua e frequentava a creche da Vila. Outras vezes acompanhava a minha avó e o meu
avô quando estes iam trabalhar para o Meiral, um terreno de árvores de fruto, vinha
(como a maioria daquela zona), entre outros. Aprendi a dizer “bom dia”, “boa tarde”,
“boa noite” quando me cruzava na rua com terceiros. Aprendi que a vida se conquista
com trabalho e dedicação. Aprendi, ou melhor dizendo, ficou em mim a génesis da
ideia de que o valor de um homem reside no poder e força das suas convicções, no
trato que dá aos seus iguais, no respeito pelo que o rodeia. Voltei para a cidade onde
continuei o meu percurso: andei numa creche em Aldoar, freguesia do Porto e no
Patronato de Santa Teresinha; frequentei a escola João de Deus durante os primeiros 4
anos de escolaridade, o Grande Colégio Universal até ao 10º ano e a Escola Secundária
João Gonçalves Zarco nos dois anos de ensino secundário que restam. Em 2008
candidatei
me e fui aceite na Escola Superior de Enfermagem do Porto, como referi,
tendo terminado o meu curso em 2012 com a classificação de Bom. Nunca reprovei
nenhum ano. No ensino superior conclui todas as unidades curriculares sem “deixar
nenhuma cadeira para trás” como se costuma dizer. Durante estes 20 anos em que vivi
no Grande Porto, cresci em tamanho, em sabedoria e em graça. Fui educado por uma
freira, a irmã Celeste, da qual ainda me recordo de a ver tirar o véu e ficar
surpreendido por ela ter cabelo; tive professores que me ensinaram a ver o mundo
(nem todos bons, mas alguns dignos de serem apelidados de Professores, assim
mesmo com P maiúsculo); tive catequistas que, mais do que religião, me ensinaram
muito sobre amizade, amor, convivência, sobre a vida no geral; tive a minha família
que me acompanhou e me fez; tive amigos que partilharam muito, alguns segredos,
algumas loucuras próprias dos anos em flor; tive Praxe, aquilo que tanta polémica dá,
não tendo uma única queixa da mesma, discutindo Praxe várias vezes com diversos
professores e outras pessoas, e posso afirmar ter sido ela que me fez crescer muito,
perceber muita coisa diferente, conviver com outras realidades, ter tirado da minha
boca para poder oferecer um lanche a um colega que não tinha que comer nesse dia.
Tudo isto me engrandeceu o espírito. E cresci, tornei
me um cidadão que, não sendo
perfeito, luto pelas coisas em que eu acredito, persigo objetivos e almejo, como todos
os demais, a felicidade, a presença de um propósito em existirmos. Sou exigente
comigo mesmo, em ser cada vez melhor, em ter um lugar no mundo, poder dizer “eu
existo, eu marquei o mundo com os meus atos”. Pergunta agora o senhor por que
razão estarei eu a contar
lhe isto. Eu respondolhe: quero despedirme de si. Em
menos de 48 horas estarei a embarcar para o Reino Unido numa viagem só de ida. É
curioso, creio eu, porque a minha família (inclusive o meu pai) foi emigrante em França
(onde ainda conservo parte da minha família) e agora também eu o sou. Os motivos
são outros, claro, mas o objetivo é mesmo: trabalhar, ter dinheiro, ter um futuro.
Lamento não poder dar ao meu país o que ele me deu. Junto comigo levo mais 24
pessoas de vários pontos do país, de várias escolas de Enfermagem. Somos dos
melhores do mundo, sabia? E não somos reconhecidos, não somos contratados, não
somos respeitados. O respeito foi uma das palavras que mais habituado cresci a ouvir.
A par dessa também a responsabilidade pelos meus atos, o assumir da consequência,
boa ou má (não me considero, volto a dizer, perfeito). Esse assumir de uma
consequência, a pro
atividade para fazer mais, o pensar, ter uma perspetiva sobre as
coisas, é algo que falta em Portugal. Considero ridículas estas últimas semanas. Não
entendo as manifestações que se fazem que não sejam pacíficas. Não sou a favor das
multidões em protesto com caras tapadas (se estão lá, deem a cara pelo que lutam),
daqueles que batem em polícias e afins. Mais, a culpa do país estar como está não é
sua, nem dos sucessivos governos rosas e laranjas com um azul à mistura: a culpa é de
todos. Porquê? Porque vivemos com uma Assembleia que pretende ser representativa,
existindo, por isso, eleições. A culpa é nossa que vos pusemos nesse pódio onde não
merecem estar. Contudo o povo cansou
se da ausência de alternativas, da
austeridade, do desemprego, das taxas, dos impostos. E pedem um novo Abril. Para
quê? O Abril somos nós, a liberdade é nossa. E é essa liberdade que nos permite sair à
rua, que me permite escrever estas linhas. O que nós precisamos é que se recorde que
Abril existiu para ser o povo quem “mais ordena”. E a precisarmos de algo, precisamos
que nos seja relembrado as nossas funções, os nossos direitos, mas, sobretudo,
principalmente, com muita ênfase, os nossos deveres. Porém, irei partir. Dia 18 de
Outubro levarei um cachecol de Portugal ao pescoço e uma bandeira na bagagem de
mão. Levarei a Pátria para outra Pátria, levarei a excelência do que todas as pessoas
me deram para outro país. Mostrarei o que sou, conquistarei mais. Mas não me
esquecerei nunca do que deixei cá. Nunca. Deixo amigos, deixo a minha família. Como
posso explicar à minha sobrinha que tem um ano que eu a amo, mas que não posso
estar junto dela? Como posso justificar a minha ausência? Como posso dizer adeus aos
meus avós, aos meus tios, ao meu pai? Eles criaram, fizeram
me um Homem. Sou sem
dúvida um privilegiado. Ainda consigo ter dinheiro para emigrar, o que não é para
todos. Sou educado, tenho objetivos, tenho valores. Sou um privilegiado. E é por isso
que lhe faço um último pedido. Por favor, não crie um imposto sobre as lágrimas e
muito menos sobre a saudade. Permita
me chorar, odiar este país por minutos que
sejam, por não me permitir viver no meu país, trabalhar no meu país, envelhecer no
meu país. Permita
me sentir falta do cheiro a mar, do sol, da comida, dos campos da
minha aldeia. Permita
me, sim? E verá que nos meus olhos haverá saudade e a
esperança de um dia aqui voltar, voltar à minha terra. Voltarei com mágoa, mas sem
ressentimentos, ao país que, lá bem no fundo, me expulsou dele mesmo. Não
pretendo que me responda, sinceramente. Sei que ser político obriga a ser
politicamente correto, que me desejará boa sorte, felicidades. Prefiro ouvir isso de
quem o diz com uma lágrima no coração, com o desejo ardente de que de facto essa
sorte exista no meu caminho.
Cumprimentos, Pedro Marques"
Outubro, 2012


sábado, 20 de outubro de 2012

Evangelho do dia

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Todo aquele que me tiver reconhecido diante dos homens também o Filho do Homem o reconhecerá diante dos anjos de Deus. Mas quem me tiver negado diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus. E todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem, será perdoado; mas quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo não será perdoado. Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de responder nem com o que haveis de dizer em vossa defesa. O Espírito Santo vos ensinará naquela hora o que haveis de dizer.» (Lc 12,8-12) da Bíblia dos Capuchinhos

Nós hoje, mais do que nunca, necessitamos de ser totalmente possuídos pelo Espírito Santo. Só Ele nos dá força, coragem para superarmos os nossos medos, as nossas angústias para podermos espalhar a Sua Palavra ao mundo cada vez mais egoísta, tão pouco solidário e tão pouco amoroso; fechado sobre si mesmo e abraçado aos seus interesses pessoais e mesquinhos. Devemos abrir o nosso coração ao Espírito Santo (ou, para aqueles que não são crentes, abrir o coração ao Amor) para que Ele possa produzir muitos frutos em nós e assim, com o auxílio d'Ele, poderemos começar a construção de um sítio mais agradável e mais afetuoso e mais solidário com os outros.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Santo do dia

Santo Inácio de Antioquia

Foi bispo em Antioquia, sucessor de Pedro. Foi preso e condenado às feras em 107 ou 110, no tempo do imperador Trajano. Durante o percurso escreveu sete cartas a várias Igrejas onde escreveu que desejava ser «o trigo de Cristo moído pelos dentes das feras para ser transformado em pão de Cristo».

«Escrevo a todos as Igrejas e asseguro a todas elas que estou disposto a morrer de bom grado por Deus, se vós não o impedirdes. Peço-vos que não manifesteis por mim uma benevolência inoportuna. Deixai-me ser pasto das feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus. Sou trigo de Deus e devo ser moído pelos dentes das feras, para me transformar em pão limpo de Cristo. Rezai por mim a Cristo, para que, por meio desses instrumentos, eu seja sacrifício para Deus.
Para nada me serviriam os prazeres do mundo ou os reinos deste século. prefiro morrer em Cristo Jesus a reinar sobre todos os confins da terra. Procuro Aquele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa. Estou prestes a nascer. Tende piedade de mim, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirás que eu morra. Não me entregueis ao mundo, a mim que desejo ser de Deus, nem penseis seduzir-me com coisas terrenas. Deixai-me alcançar a luz pura. (...) Não queirais ter ao mesmo tempo o nome de Jeus Cristo na boca e desejos mundanos no coração. (...) O meu Amor está crucificado e não há em mim fogo que se alimente da matéria. Mas há uma água viva que murmura dentro de mim e me diz interiormente: "Vem para o Pai". (Da Carta de Santo Inácio, bispo e mártir, aos Romanos, da Liturgia das Horas, Ofício de Leitura)

Oração: Deus eterno e omnipotente, que pelo testemunho dos santos mártires honrais todo o corpo da Igraja, concedei que o glorioso martírio de Santo Inácio que hoje celebramos, assim como mereceu para ele a glória eterna, seja também para nós um auxílio permanente.

Evangelho do dia

Naquele tempo, disse o Senhor: «Ai de vós, fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças, mas desprezais a justiça e o amor de Deus! Devíeis praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Ai de vós, fariseus, porque gostais do primeiro lugar nas sinagogas e das saudações na praça pública! Ai de vós, porque sois somo sepulcros disfarçados, sobre os quais passamos sem o saber!» Então um dos doutores da lei tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, ao dizeres essas palavras também nos insultas a nós.» Jesus respondeu: «Ai de vós também, doutores da lei, porque impondes aos homens fardos insuportáveis e vós próprios nem com um só dedo tocais nesses fardos!» (Lc 11,42-46, da Bíblia dos Capuchinhos).

Mais um apelo de Jesus para que nos deixemos de banalidades, exibicionismos e hipocrisias; de todos aqueles que se querem passar por bons, honestos e justos, quando afinal é precisamente o contrário daquilo que querem dar a entender.
Jesus faz-nos este convide diário: não basta ir à Igreja cumprir meia dúzia de preceitos e regressar com o sentimento de dever cumprido. Não! Não basta fazer meia dúzia de coisas. Tem de haver uma mudança em nós e mais empenhamento em tentar corrigir o nosso modo de vida.

Mas também isto pode ser aplicado ao momento em que vivemos. Impõem-nos fardos muito pesados sobre as nossas costas, tão pesados que vão ser insuportáveis e os «doutores» «nem com um só dedo» tocam «nesses fardos», gostam do primeiro lugar (serem poder)...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Santa Teresa de Jesus

Santa Teresa nasceu em Ávila a 28 de março de 1515. Passou a infância e a adolescência a oscilar entre a oração e as vaidades mundanas. Apesar da oposição do pai, aos 21 anos entrou no Convento de Santa Maria do Monte do Carmelo. Na fase inicial de monja a sua vida religiosa, tal como a própria santa o declarou, pautou-se pela tibieza, porém, em 1554, ao fixar o seu olhar numa imagem de Cristo «muito chagado», nas palavras da Santa, foi «apanhada em cheio» por Deus.
A partir desse momento foram grandiosos os passos da Santa no caminho da perfeição, tendo mesmo grandes revelações místicas. Para Teresa Deus era o seu Tudo, o Seu Amigo. São conhecidas muitas das suas frases: «Nada te perturbe, nada te espante.» «Tudo passa. Deus não muda.» «A paciência tudo alcança.» «Quem a Deus tem, nada lhe falta.» «Só Deus basta!»

Juntamente com S. João da Cruz empreendeu a reforma da Ordem e fundou 15 conventos, tendo começado pelo Convento de S. José, em Ávila. Todas estas reformas lhe valeram grandes tribulações, mas tudo suportou com uma coragem extraordinária. Foram muitos também os males físicos, mas era sempre encorajada pelo seu «Capitão» (Jesus Cristo).

Deixou escritos de grande profundidade mística e valor espiritual: o Livro da Vida, o Caminho da Perfeição, o Castelo Interior, todos relatados na primeira pessoa, e em que ela partilha todas as suas experiências.

Morreu em Alba de Tormes a 4 de outubro de 1582. Para Teixeira de Pascoais Teresa de Jesus foi «a Ibéria feita mulher».

O papa Paulo VI proclamou-a doutora da Igreja em 1970. Mulher dotada de grande humildade, simplicidade, sentido de humor e muita alegria.

Oração: Senhor, que por meio de Santa Teresa de Ávila, inspirada pelo Espírito Santo, manifestastes à Igreja o caminho da perfeição, concedei-nos a graça de encontrar alimento na sua doutrina espiritual e de nos inflamarmos ne desejo da verdadeira santidade.

«Estando presente tão bom amigo e tão generoso capitão, Jesus Cristo, tudo podemos suportar. Ele é ajuda e dá forças; nunca falta; é verdadeiro amigo. E eu vejo claramente que, para contentar a Deus e receber grandes mercês, Ele quer que seja pelas mãos desta humanidade sacratíssima, na qual a sua Majestade se deleita.
Muitas vezes o vi por experiência. O Senhor mo disse. Vi claramente que temos de entrar por esta porta se quisermos que a soberana Majestade nos mostre grandes segredos. Não se procure outro caminho, mesmo estando no mais alto grau da contemplação; é por aqui que se vai seguro. (...)
Que mais desejamos de amigo tão bom ao nosso lado, que não nos deixará em dificuldades e tribulações, como fazem os do mundo? Ditoso aquele que O ama de verdade e O traz sempre junto de si. Consideremos o glorioso S. Paulo que tinha sempre na sua boca o nome de Jesus, porque o tinha bem no coração. Depois de ter compreendido isto, reparei com cuidado am alguns santos, grandes contemplativos, que não iam por outro caminho: São Francisco, Santo António de Pádua, São Bernardo, Santa Catarina de Sena. (...)
O amor pede amor. Procuremos pois ir meditando nisto e despertando-nos para amar. Na verdade, se o Senhor nos concede uma vez a graça de nos imprimir no coração este amor, tudo será fácil para nós e muito faremos em breve tempo e com pouco trabalho.» (Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida)

domingo, 14 de outubro de 2012

Reflexões


Amanhã, dizem!, será o dia da apresentação do Orçamento do Estado (OE) definitivo!
Depois de mais de um mês com avanços e recuos. Medidas e mais medidas, umas a caírem, outras novas em cima da mesa... Não me lembro de algum dia se ter passado tal trapalhada e tal confusão!

D. Policarpo parece que disse que «isto» não vai lá com manifestações nem tão-pouco com revoluções. Com uma revolução também não acredito que «isto» vá ao lugar... mas com manifestações acredito que sim. Aliás, e ao contrário do que disse D. Policarpo, a democracia passa também pela liberdade de um povo manifestar aos seus governantes o seu descontentamento.

No passado não muito longínquo, Mário Soares escreveu um livro intitulado Portugal Amordaçado. Pois neste momento o título é extremamente atual. Aliás, até penso que se deveria acrescentar: Portugal amordaçado, manietado e amortalhado.

Um lamentável exemplo disto foi o episódio no dia 5 de outubro o presidente da República ter içado a bandeira com o Escudo de Portugal voltado de cabeça para baixo! Os militares sabem bem o que isto quer dizer: território ocupado; o país rende-se aos «inimigos».

A Tragédia, entre os gregos da antiguidade clássica, era considerada o mais nobre dos géneros. No princípio, consistia apenas num diálogo entre um ator (o hipócrita) e um coro (os sátiros). A pouco e pouco foi-se acrescentando mais atores principais, até um máximo de três: o protagonista, o deuteragonista (o que representa o segundo papel) e o tritagonista (o que representa o terceiro papel na tragédia, reduzindo assim a atuação narrativa do coro). O coro, na tragédia grega, desempenha um papel importantíssimo, porque representa a voz do senso comum.
Assim, os autores das tragédias gregas iam avançando na sua história abrindo caminho à ação para a desgraça final com a rapidez exigida pela tragédia. Quanto mais rápido é o desenlace, tanto mais a obra ganha em beleza.

Ora nesta nossa tragédia, em que temos três protagonistas, nada disto tem beleza, pelo contrário. Mas estes três protagonistas estão a encaminhar a ação muito rapidamente até ao desenlace final que se avizinha trágico: o número de falências de micro e pequenas empresas pode ser assustador; o número de desempregados pode disparar; os cidadãos a empobrecer a olhos vistos.

E o que fazem estes três atores desta tragédia que é em simultâneo, ironia do destino, grega e portuguesa? Pois, seguem o caminho mais fácil e mais rápido: vão-nos ao bolso! As «famosas» reformas ainda não saíram do papel ou dos gabinetes que nós pagamos a peso de oiro. Porque é que não se renegoceia as PPP dizendo apenas isto: Estamos falidos, não vos podemos pagar. Ponto final!
É assim que se passa com  as famílias que entram em falência... é assim com as empresas... Porque faliu, não pode pagar. Fim da história.

Até aqui tudo certo, tudo correto. Mas... há o reverso da medalha! Os três atores atuais não se querem esgotar nesta representação. Querem ter um futuro e talvez não convenha zangarem-se com os das privadas, porque, quando a sua atuação terminar, necessitam de uns valentes «tachos» num sítio qualquer em que nada fazem e são muito bem pagos. 

Sim, porque cá em Portugal se começa pelo fim (tal bandeira ao contrário): são políticos primeiro e gestores, diretores, assessores, etc. depois, com ordenados pornográficos. Cá, neste retangulozinho à beira mar plantado, existe uma profissão extraordinária: político de carreira...!!!!! O que significa: um indivíduo que nada faz, ganha muito bem e a sua utilidade é uma inutilidade. Claro que o seu «ordenadinho» é pago com os tostões dos contribuintes.

Meus queridos amigos, a «coisa» tem de mudar. E mudar radicalmente. É nos momentos de crise, de tragédia, que nasce a esperança de mudança. E só pode ser o coro (a voz do senso comum) que tem de se elevar, que tem de se fazer ouvir mais alto que as vozes destes atores que há mais de vinte anos (20) nos levam calmamente em direção à desgraça, à lama em que agora estamos atolados.

Desde o 25 de Abril que assistimos ao «Rotativismo», isto é, PS versus PSD, com o terceiro ator no CDS. E andamos nisto; os protagonistas ora mandam, ora se sentam nos lugares da «oposição». Trocam de posições e volta tudo ao mesmo! Tachos e mais tachos, clientelismo, corrupção...

E é no Coro desta Tragédia que tem de partir a voz do bom senso: Que tal não ir aos votos quando chegarem as eleições? Se o Coro fizesse «greve» às eleições era fantástico! Dizer BASTA a este bando do Rotativismo e dizer-lhes muito clara e abertamente: IDE TRABALHAR.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Evangelho do dia

Naquele tempo, Jesus expulsou um demónio, mas alguns dos presentes disseram: «É por Belzebu, príncipe dos demónios, que Ele expulsa os demónios.» Outros, para o experimentarem, pediram-lhe um sinal do céu. Mas Jesus, que conhecia os seus pensamentos, disse: «Todo o reino dividido contra si mesmo, acaba em ruínas e cairá casa sobre casa. Se Satanás está dividido contra si mesmo, como substirá o seu reino? Por isso eles mesmos serão os vossos juízes. Mas Eu expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós. Quando um homem forte bem armado guarda o seu palácio, os seus bens estão em segurança. Mas se aparece um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos. Quem não está comigo está contra mim e quem não junta comigo, dispersa. Quando o espírito impuro sai do homem, anda a vaguear por lugares desertos à procura de repouso. Como não o encontra, diz consigo: "Voltatrei para a casa de onde saí." Quando lá chega, encontra-a varrida e arrumada. Então vai e toma consigo sete espíritos piores do que ele, que entram e se instalam nele. E o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro.» (Lc 11,15-26, da Bíblia dos Capuchinhos)  


Jesus apresenta-se como o libertador, Aquele que derrotou todos os males e tudo aquilo que mantém o ser humano prisioneiro. Uns admiraram o poder libertador, mas outros acusaram Jesus de ser cúmplice com satanás.
A fé é um dom de Deus e se não acolhermos o reino de Deus com um coração aberto, agradecido e livre, colocar-nos-emos numa situação pior do que a anterior.
Só poderemos compreender e conhecer quem amamos se vivermos pessoalmente com ela. Há que viver e partilhar toda a nossa existência com essa pessoa, para a conhecermos, e ela a nós, totalmente. O mesmo se passa com Jesus: para O conhecermos, para O amarmos, para estarmos do Seu lado incondicionalmente e sermos um espírito livre, não nos resta outra solução senão a de mantermos a familiaridade, a amizade com Ele mediante a oração e a escuta da Palavra. Só com o auxílio de Jesus é que poderemos quebrar os aguilhões que nos mantém prisioneiros a coisas caducas como o orgulho, a maledicência, a preguiça, o consumismo desenfreado, o egoísmo, a vaidade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Um minuto de sabedoria




Deus está em toda a parte, sempre ao nosso lado e dentro de nós. Nunca estamos desamparados; nunca estamos sós. Não devemos deixar que as tristezas nos perturbem: devemos, sim, tranquilizarmo-nos de maneira a podermos esutar a voz silenciosa de Deus. Uma voz que só se tivermos tranquilidade é que a podemos ouvir. Assim, superaremos todas as dificuldades que vão aparecendo no nosso caminho e descobriremos também a Verdade que existe em todas as coisas e pessoas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Momento de poesia

«Tormenta


Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.

Isto, e o mistério de que a a noite é o fausto...
Mas súbito, de onde o vento ruge,
O relâmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha, e o mar 'scuro 'struge.»

Fernando pessoa, Mensagem
Há dias um dos nossos ministros fez um comentáro hilariante: nós deveríamos ser mais formigas que cigarras... Afinal quem será a formiga e a cigarra? Eis aquilo que o nosso ilustríssimo Bocage escreveu sobre tão famosa fábula:

«A cigarra e a formiga


Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha,
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe, que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão, com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

"Amiga (diz a cigarra)
Prometo à fé de animal
Pagar-vos antes de agosto
Os juros, e o principal."

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso ajunta:
"No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: "Eu cantava
Noite e dia,  a toda a hora."
"Oh, bravo! (torna a formiga)
Cantavas? Pois dança agora.»

Bocage, Antologia poética

Mutatis mutandis... será que algum dia andámos a cantar? Mas de certeza que agora iremos todos dançar...

domingo, 7 de outubro de 2012

Um minuto de sabedoria


Não devemos desanimar nem desistir logo no primeiro degrau da subida. Se a dúvida nos assaltar, se a tristeza bater à nossa porta, se a calúnia nos magoar, devemos erguer a cabeça com coragem e contemplar o firmamento. Embora possa estar o céu carregado de nuvens escuras, sabemos que elas mais cedo ou mais tarde irão desaparecer e o sol voltará a brilhar.
Sigamos em frente porque todas as nuvens da nossa existência também irão desaparecer e o sol da alegria voltará para nos aquecer a alma e a nossa vida.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Breve biografia de Antero de Quental

Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada em 1842 no seio de uma família profundamente religiosa e muito culta. Em 1852, Antero frequentou o colégio em Ponta Delgada e três anos depois veio para o continente terminar os seus estudos. Aos dezasseis anos estava a frequentar o curso de direito na faculdade de Direito de Coimbra.
Este período para Antero foi extremamente profícuo em termos de leituras, dedicando-se à literatura realista e racionalista, lendo imensos livros que lhe chegavam de França. Fundou a Sociedade do Raio, uma espécie de agremiação secreta, perfilhou as ideias jacobinas e encabeçou a célebre Questão Coimbrã.

Quando terminou o curso de direito, partiu para São Miguel. Pouco tempo depois regressou ao continente e decidiu tomar contacto com o mundo do trabalho, para saber por experiência própria as dificuldades dos operários. Foi para Paris e durante seis meses exerceu a profissão de tipógrafo.

Quando regressou a Portugal, juntamente com Jaime Batalha Reis, transformou a sua casa no célebre Cenáculo, local de convívio de leitura e discussão de literatura europeia vanguardista. Foi durante este perído que Antero promoveu as conhecidas Conferências do Casino.

Partilhava fortemente do socialismo defendido por Proudhon e chegou a trabalhar na organização Fraternidade Operária, fundou um semanário e chegou mesmo a ter ideias para criar um partido político exclusivamente operário.

Em 1873, o pai de Antero morre e um ano depois é ele próprio que adoece. Depois de ter consultado muitos médicos, diagnosticaram-lhe histeria.

Decidiu retirar-se e viver como um eremita. Em 1881, instalou-se em Vila do Conde com as duas filhas do jornalista Germano Meireles, falecido em 1877,  e a viúva deste.

Em 1885 morre a mãe das meninas e Antero decide internar as garotas nas Doroteias do Porto e mantém-se retirado no seu «ermitério».
Em 1890, aquando do ultimatum inglês, Antero abandona o seu retiro e preside à Liga Patriótica do Norte, tendo-se esta extinguido pouco tempo depois.
Entretanto as meninas já estavam crescidas e era imperioso tirá-las do instituto e iniciá-las e apresentá-las à sociedade.
Em 1891 Antero parte para os Açores a fim de deixar as meninas ao cuidado da sua irmã. Porém, a irmã de Antero recebe mal as garotas e este fica furioso chegando mesmo a dizer: «Isto ainda acaba com uma corda na garganta ou um tiro na cabeça.»
Finalmente, no dia 10 de setembro de 1891, consegue encontrar uma família que as recebeu. No dia seguinte, Antero de Quental vendo-se só e desamparado sentado num banco de jardim, deu um tiro na cabeça. Às nove horas da noite desse mesmo dia, Antero morre no hospital da Misericórdia de Ponta Delgada.

«Verdades cruéis

Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.

Hoje amam, amanhã 'squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre oito dias!...»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
«A J. Félix dos Santos

Sempre o futuro, sempre! e o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se assiste
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega... é presente... e só à dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?

desventura ou delírio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, pior, espectro impuro...

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa.»

Antero de Quental, Sonetos
«Hino à razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo teu nome escrito em seus escudos!»

Antero de Quental, Sonetos

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

In illo tempore; in hoc tempore

O trecho que vou citar poderia ter saído de um qualquer diário ou semanário. Mas não é verdade. O trecho que eu vou citar foi escrito no século XIX por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão!

«Entre os privilégios que ainda existem em Portugal -- e que seria bom que acabassem, uma vez que o país (...) começou evidentemente a odiar todo o privilágio -- contam-se em primeira linha os privilégios que a carreira política permite àqueles que a seguem.
Para servir tais privilégios a opinião pública obteve meios de dividir uma coisa essencialmente indivisível e una -- a probidade -- em probidade política e probidade individual.
Uma vez admitida esta casuística um tanto imoral, o indivíduo considera-se irresponsável perante a sociedade por todas as ignomínias, por todas as baixezas, por todas as infâmias que comete na política.
(...) O homem político -- simples influente eleitoral, mero candidato a deputado -- lisonjeia, mente, difama, atraiçoa. Na política portuguesa raros dão um passo que o não conquistem por algum destes vícios. Toda a gente o sabe. As eleições fazem-se ou pela compra da consciência a dinheiro, ou pela promessa, pela lisonja, pelo dolo, pela mentira. Não há integridade nem limpeza de carácter que resista à influência degradante e sordidíssima de uma campanha eleitoral. Em presença do eleitor, nas conversações, nos comícios e na imprensa, para desvanecer atritos para abater dificuldades, para minar resistências, o candidato, de concessão em concessão, de recuamento em recuamento, de curva em curva, de cortesia em cortesia, desdiz todas as suas opiniões, desmente todos os seus propósitos, falseia todas as suas convicções, renega todas as suas crenças. A campanha eleitoral é uma navegação pestilencial pelo cano de esgoto de todas as imundícies da conveniência, do egoísmo e da ambição. Tal tribuno que hoje bate nos peitos com o punho cerrado, fazendo saltar pelos olhos chispas de valor e deitando pela boca os mais estrondosos borbotões de independência, escumas da raiva cívica e patriótica -- perguntai aos eleitores e aos ministros que o viram passar -- foi para esse lugar de rojos pela lama, com os joelhos no chão, babando-se em condescendências asquerosas e em risos nojentos.

A luta partidária o que é? Nenhum partido se distingue dos outros pelas ideias que professa. As ideias são sempre as mesmas -- poucas, pequenas, mas idênticas. Os partidos têm para as ideias de seus gastos um mealheiro comum sebento de velhice, de economia e de miséria. O que estabelece as distinções, o que assinala as diferenças, o que suscita os combates, e o que resolve as vitórias, é a intriga (...).»

Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, As Farpas, «Agosto de 1871»
«Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda,
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão de vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem -- ou desgraça ou ânsia --,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância --
Do mar ou outra, mas que seja nossa!»

Fernando Pessoa, Mensagem
«Despondency

Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá-la ir, a vela que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!»

Antero de Quental, Sonetos

Momento de poesia

Dedico este belíssimo poema de Fernado Pessoa aos cerca de 10 milhões de portugueses.



«O andaime

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha 'sp'rança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam -- verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperança nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Sem morto das águas mansas
Que correm por ter de ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças --
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim --
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser -- muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.»

Fernando Pessoa, Poesia