quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Reflexão

Hoje vou colocar aqui uma carta de despedida de um enfermeiro para o PR. Vale a pena lê-la e meditar em tudo o que os governantes deste país nos fizeram e nos conduziram, E o problema máximo disto é que todos nós somos culpados, porque foi com o nosso voto que estes governantes lá estão sentados na cadeira do poder.




"Carta de despedida à Presidência da República
Excelência,
Não me conhece, mas eu conheço
o e, por isso, espero que não se importe que lhe dê alguns dados biográficos. Chamome Pedro Miguel, tenho 22 anos, sou um recém licenciado
da Escola Superior de Enfermagem do Porto. Nasci no dia 31 de Julho de
1990 na freguesia de Miragaia. Cresci em Alijó com os meus avós paternos, brinquei na
rua e frequentava a creche da Vila. Outras vezes acompanhava a minha avó e o meu
avô quando estes iam trabalhar para o Meiral, um terreno de árvores de fruto, vinha
(como a maioria daquela zona), entre outros. Aprendi a dizer “bom dia”, “boa tarde”,
“boa noite” quando me cruzava na rua com terceiros. Aprendi que a vida se conquista
com trabalho e dedicação. Aprendi, ou melhor dizendo, ficou em mim a génesis da
ideia de que o valor de um homem reside no poder e força das suas convicções, no
trato que dá aos seus iguais, no respeito pelo que o rodeia. Voltei para a cidade onde
continuei o meu percurso: andei numa creche em Aldoar, freguesia do Porto e no
Patronato de Santa Teresinha; frequentei a escola João de Deus durante os primeiros 4
anos de escolaridade, o Grande Colégio Universal até ao 10º ano e a Escola Secundária
João Gonçalves Zarco nos dois anos de ensino secundário que restam. Em 2008
candidatei
me e fui aceite na Escola Superior de Enfermagem do Porto, como referi,
tendo terminado o meu curso em 2012 com a classificação de Bom. Nunca reprovei
nenhum ano. No ensino superior conclui todas as unidades curriculares sem “deixar
nenhuma cadeira para trás” como se costuma dizer. Durante estes 20 anos em que vivi
no Grande Porto, cresci em tamanho, em sabedoria e em graça. Fui educado por uma
freira, a irmã Celeste, da qual ainda me recordo de a ver tirar o véu e ficar
surpreendido por ela ter cabelo; tive professores que me ensinaram a ver o mundo
(nem todos bons, mas alguns dignos de serem apelidados de Professores, assim
mesmo com P maiúsculo); tive catequistas que, mais do que religião, me ensinaram
muito sobre amizade, amor, convivência, sobre a vida no geral; tive a minha família
que me acompanhou e me fez; tive amigos que partilharam muito, alguns segredos,
algumas loucuras próprias dos anos em flor; tive Praxe, aquilo que tanta polémica dá,
não tendo uma única queixa da mesma, discutindo Praxe várias vezes com diversos
professores e outras pessoas, e posso afirmar ter sido ela que me fez crescer muito,
perceber muita coisa diferente, conviver com outras realidades, ter tirado da minha
boca para poder oferecer um lanche a um colega que não tinha que comer nesse dia.
Tudo isto me engrandeceu o espírito. E cresci, tornei
me um cidadão que, não sendo
perfeito, luto pelas coisas em que eu acredito, persigo objetivos e almejo, como todos
os demais, a felicidade, a presença de um propósito em existirmos. Sou exigente
comigo mesmo, em ser cada vez melhor, em ter um lugar no mundo, poder dizer “eu
existo, eu marquei o mundo com os meus atos”. Pergunta agora o senhor por que
razão estarei eu a contar
lhe isto. Eu respondolhe: quero despedirme de si. Em
menos de 48 horas estarei a embarcar para o Reino Unido numa viagem só de ida. É
curioso, creio eu, porque a minha família (inclusive o meu pai) foi emigrante em França
(onde ainda conservo parte da minha família) e agora também eu o sou. Os motivos
são outros, claro, mas o objetivo é mesmo: trabalhar, ter dinheiro, ter um futuro.
Lamento não poder dar ao meu país o que ele me deu. Junto comigo levo mais 24
pessoas de vários pontos do país, de várias escolas de Enfermagem. Somos dos
melhores do mundo, sabia? E não somos reconhecidos, não somos contratados, não
somos respeitados. O respeito foi uma das palavras que mais habituado cresci a ouvir.
A par dessa também a responsabilidade pelos meus atos, o assumir da consequência,
boa ou má (não me considero, volto a dizer, perfeito). Esse assumir de uma
consequência, a pro
atividade para fazer mais, o pensar, ter uma perspetiva sobre as
coisas, é algo que falta em Portugal. Considero ridículas estas últimas semanas. Não
entendo as manifestações que se fazem que não sejam pacíficas. Não sou a favor das
multidões em protesto com caras tapadas (se estão lá, deem a cara pelo que lutam),
daqueles que batem em polícias e afins. Mais, a culpa do país estar como está não é
sua, nem dos sucessivos governos rosas e laranjas com um azul à mistura: a culpa é de
todos. Porquê? Porque vivemos com uma Assembleia que pretende ser representativa,
existindo, por isso, eleições. A culpa é nossa que vos pusemos nesse pódio onde não
merecem estar. Contudo o povo cansou
se da ausência de alternativas, da
austeridade, do desemprego, das taxas, dos impostos. E pedem um novo Abril. Para
quê? O Abril somos nós, a liberdade é nossa. E é essa liberdade que nos permite sair à
rua, que me permite escrever estas linhas. O que nós precisamos é que se recorde que
Abril existiu para ser o povo quem “mais ordena”. E a precisarmos de algo, precisamos
que nos seja relembrado as nossas funções, os nossos direitos, mas, sobretudo,
principalmente, com muita ênfase, os nossos deveres. Porém, irei partir. Dia 18 de
Outubro levarei um cachecol de Portugal ao pescoço e uma bandeira na bagagem de
mão. Levarei a Pátria para outra Pátria, levarei a excelência do que todas as pessoas
me deram para outro país. Mostrarei o que sou, conquistarei mais. Mas não me
esquecerei nunca do que deixei cá. Nunca. Deixo amigos, deixo a minha família. Como
posso explicar à minha sobrinha que tem um ano que eu a amo, mas que não posso
estar junto dela? Como posso justificar a minha ausência? Como posso dizer adeus aos
meus avós, aos meus tios, ao meu pai? Eles criaram, fizeram
me um Homem. Sou sem
dúvida um privilegiado. Ainda consigo ter dinheiro para emigrar, o que não é para
todos. Sou educado, tenho objetivos, tenho valores. Sou um privilegiado. E é por isso
que lhe faço um último pedido. Por favor, não crie um imposto sobre as lágrimas e
muito menos sobre a saudade. Permita
me chorar, odiar este país por minutos que
sejam, por não me permitir viver no meu país, trabalhar no meu país, envelhecer no
meu país. Permita
me sentir falta do cheiro a mar, do sol, da comida, dos campos da
minha aldeia. Permita
me, sim? E verá que nos meus olhos haverá saudade e a
esperança de um dia aqui voltar, voltar à minha terra. Voltarei com mágoa, mas sem
ressentimentos, ao país que, lá bem no fundo, me expulsou dele mesmo. Não
pretendo que me responda, sinceramente. Sei que ser político obriga a ser
politicamente correto, que me desejará boa sorte, felicidades. Prefiro ouvir isso de
quem o diz com uma lágrima no coração, com o desejo ardente de que de facto essa
sorte exista no meu caminho.
Cumprimentos, Pedro Marques"
Outubro, 2012


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