«Diz a escritura: Deus dá a graça aos humildes e resiste aos soberbos. Considerai, irmãos caríssimos, qual a retribuição de uns e de outros e ficareis a entender o que deveis amar e o que deveis odiar. Este, pelo amor à humildade, é enriquecido pela graça; aquele, por causa da soberba, é merecedor de castigo. Corrija-se cada qual a si mesmo, se de alguém se apoderou o orgulho, para não atrair sobre si a justiça celeste. Porquanto, dificilmente passará sem perigo de vida aquele que se expõe ao combate contra um poder mais alto. Inclinemos, portanto, o nosso espírito com toda a humildade, a fim de alcançarmos a graça junto do Senhor.
Mas podereis compreender como é grave a culpa da soberba e como é necessário evitar tão grande castigo da ira divina. A humildade sai sempre ilesa, porque não pode ser vencido quem não está implicado na luta. Mas a soberba atrai ódios e perigos, porque dificilmente escapa ao combate quem cometeu a ofensa. Contudo, será fácil para nós escapar de todo o perigo, se lutarmos com humildade contra os vícios da soberba. Deus dá a graça aos humildes e resiste aos soberbos.
Refiro-me àquela humildade verdadeira e santa que é inspirada no amor de Deus e da religião, e não aquela que provém do temor servil. Falo daquela humildade que anda sempre associada à caridade, que não se desvanece com a autoridade mas se alimenta com a lei da vida.
Consideremos, irmãos caríssimos, os bens da humildade. A humildade é serena e atenciosa, é grata nas amizades e calma nas afrontas. O humilde não se exalta com a prosperidade, nem se perturba com a adversidade; não pede serviços nem os impõe; por deferência, é o primeiro a saudar e o último a sentar-se; não se deixa seduzir pelos aduladores, nem ambiciona saudações lisonjeiras; não busca pretextos de louvor, nem espera o favor dos aplausos; evita o coro das reclamações, porque o louvor ofende a modéstia da boa consciência. Não dá ouvidos a vozes aduladoras aquele que se reconhece indigno de louvor; tolera com dificuldade os louvores dos amigos aquele que os merece. Todavia, se cai nalguma falta, espera que os seus atos sejam notados e justamente censurados.
A humildade anda sempre acompanhada da bondade. Assim como não sabe ofender ninguém, também não se queixa das afrontas. Nas discussões, o homem humilde tem mais satisfação em calar-se do que em vencer; nos juízos, antes quer parecer ignorante do que ser tido como imprudente; é circunspecto no falar e prudente ao responder.
Caríssimos: amemos e procuremos a humildade, abracemo-la e conservemo-la com entusiasmo, para não perdermos a recompensa da graça prometida. Ouvi as palavras do evangelista: Quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado.» (das «Homilias de São Valeriano», bispo, da Liturgia das Horas, «Ofício de Leitura»)
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