terça-feira, 30 de outubro de 2012

Momentos de poesia

Nada melhor para terminar o dia que um momento de poesia com os nossos poetas.

«Sonhos

Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Quase se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que ao sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...

Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois vir a morte

Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II

«Amor vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser -- e não só de beijos
Dados no ar -- delírios e desejos --
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?»

Antero de Quental, Sonetos.

«Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.»

Bocage, Antologia poética.




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