terça-feira, 17 de setembro de 2013

Impressões do Crepúsculo


Ora aqui vai mais um belíssimo poema do nosso estimado e amado Pessoa. Os sinos da «minha aldeia», somente é minha porque eu a adotei!, são verdade... Ouço-os a baterem as horas e os quartos... Que som tranquilizador... :-) Porém, os sinos «da minha aldeia» de Pessoa são apenas os sinos da igreja próxima lisboeta... Não são os sinos «da sua aldeia»...  Afinal, o Grande, o Mestre, o Maior Poeta Português, pelo menos para mim, classificou um poeta como: «Um poeta é um fingidor...» :-)

I

«Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minh'alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem um som de repetida.

Por mais que tanjas perto,
Quando passo triste e errante,
És para mim como um sonho --
Soas-me sempre distante...

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

II

Pauis de roçarem ânsias pela minh'alma em ouro...
Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por 
    minh'alma...

Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de 
   palma!...
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Dum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado...
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade
O meu abandonar-me a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, eco de ter-se...
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não
   conter-se...
A sentinela é hirta -- a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Para que é tudo isto... Dia chão...
Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos
   de erro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!»

«Impressões do Crepúsculo», in Poesia de Fernando Pessoa, Editorial Presença.



Há tanto tempo que nada aqui coloco. Chegou a hora de uma nova postagem! O dia a dia, o trabalho, a preguiça, a canseira e sei eu lá mais o quê, me manteve afastada do meu blogue...

Tendo por imagem este mar infinito... este pôr do Sol me clama Fernando Pessoa...

Como tal, vou abrir um livro dele e falar-vos de um poema ao calhas.
E como de calhas me caiu aqui vai o que me saiu:

«Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais do que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
A ambos nós invejar.

E foi por esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu de uma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
de muitos de mais a meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demónios debaixo de mar
Poderão separar minha alma da alma
Da linda que soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que me soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que me soube amar; 
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado.
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.»

«Os Poemas Finais de Edgar Poe, Annabel Lee», Poesia de Fernando Pessoa, Editorial Presença.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Na sexta-feira tive a certeza de que sou duplamente licenciada: isto é, tenho duas licenciaturas: Uma em engenharia de minas e outra em estudos portugueses. A última foi engenharia de minas, apesar de ter sido a primeira! Baralhados? Pois...

O meu percurso académico é sui generis (único no seu género). Comecei a estudar no curso de engenharia civil, não gostei e mudei de curso para Minas, por influência de Zola, e de Aquilino Ribeiro, essencialmente. Não me senti peixe na água, pelo contrário, senti-me fora do contexto. Abandono o curso de Minas definitivamente (já em pleno 4.º ano). Opto pelos estudos portugueses. Aí vou reencontrar os nossos antepassados escritores: D. Dinis, D. Sancho, Bernardim Ribeiro, Camões, Eça, Pessoa, Virgílio, Catulo, etc. Tantos amados. Houve um encontro entre duas especialidades díspares: estabeleci pontes entre elas. Fiz o latim, graças às minhas competências matemáticas, o mesmo aconteceu com a fonética, fonologia e morfologia. Bebi na mesma fonte da lógica.  

Após quase quinze anos dedicados totalmente às letras portuguesas, decido saber que proveitos me traria Bolonha o meu percurso académico na faculdade, após árduo trabalho. Pois consegui um reconhecimento das disciplinas que fiz ao longo de 1986 até 1993/94. 

Posto isto, sou duplamente licenciada. Quais os proventos que tal me traz? Pois, nenhuns, continuo igual ao que sempre fui. Olhando para a situação atual até poderia multiplicar as minhas licenciaturas: tudo iria embater na atualidade: DESEMPREGO. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Almeida Garrett escreveu um poema narrtivo, em 1825, dedicado a Camões. E desenvolveu-o em forma de cantos, no total 10 cantos. No último pode ler-se:

«Os olhos turvos para o céu levanta;
e já no arranco extremo: Pátria, ao menos
juntos morreremos... E expirou co'a Pátria.» Almeida Garrett, in Camões

Na sequência de uma missiva que um conde regressado da batalha de Alcácer Quibir entrega ao Poeta. O Poeta comove-se daquela forma absolutamente espantosa!
Porque, como todos sabemos, com a morte de D. Sebastião na batalha de Alcácer Quibir, Portugal perdeu a sua independência...
Hoje festeja-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades de Língua Portuguesa.

Por isso, lembrei-me de aqui postar um trecho de Almeida Garrett, que, penso, vem muito a propósito dos tempos em que vivemos:

«Não: Plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamaizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. -- No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais uma pouca dúzia de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? -- (...) Já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e um fidalgo, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro -- seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Logo a nação mais feliz não é a mais rica. Logo o princípio utilitário é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...
There are more things in heave and earth, Horatio
Than are dreamt of in your philosophy. (Há mais coisas no céu, há mais na terra // Do que sonha a tua vã filosofia).
A ciência deste século é uma grandessíssima tola.
E como tal, presunçosa e cheia do orgulho dos néscios.»
Almeida Garrett, in Viagens da Minha Terra

sábado, 8 de junho de 2013

Meus amigos:

Atendendo às visitas que vós tendes feito ao meu modesto blogue: estou rendida! Mais de três mil visitas no espaço de quase de um ano é obra vossa. E eu estou profundamente grata pela vossa visita.

Obrigada, a vós, que me visitais, obrigada pela vossa gentiliza, obrigada porque existis....
Meus caros amigos:

Estamos em plena feira do livro (os meus amigos de Lisboa, porque o Porto, devido à autarquia, isto é, à política praticada pelo Rui Rio, ficou sem feira)

Bem, querelas à parte, não posso deixar de referenciar livros que valem a pena serem lidos ou relidos: no meu caso particular estão a ser relidos:

A tradução é excelente.



Outro grande mestre da literatura russo e com uma tradução fantástica de Nina e Filipe Guerra, de palavra que vale a pena a leitura.


Mas há mais que valem a pena e tudo está há distância de uma deslocação até ao Parque Eduardo VII, será que está assim tão longe?

Para a malta do Norte: NÃO HÁ FEIRA! Porém há tantas livrarias que estão totalmente disponíveis para vos receber...

Malta amiga:  dirigi-vos à livraria mais próxima e comprem Tolstói e Dostoiéveski, e, de palavra de honra que não vos estou a aldrabar, irão encontrar semelhanças com a porcaria da crise atual. Não vos estou a enganar, isto é de palavra.

domingo, 5 de maio de 2013

Eu sei que não posso esperar muito do meu blogue, uma vez que me tenho afastado imenso dele.. mas atendendo às circunstâncias em que vivemos: ora baixo, ora alto, ora assim assim, não tenho vontade de escrever seja o que for!

Falar dos nossos poetas, dos nossos escritores do passado em tempos que nos são adversos , torna-se ridículo. Daí que não consigo postar aqui seja o que for. A minha dor pelas circunstâncias é de tal forma imensa que me impede de falar...
Mas hoje, a Gaivota, deu-me asas. Asas de voar. Asas de aspirar a algo mais alto.

Mais uma vez vos peço desculpa por ter desaparecido, mas há coisas que nem a razão pode explicar que me mantiveram afastada. Quando a dor é demasiado, a mente e o corpo afastam-se... É este o caso.
Olá, malta

Atendendo às circunstâncias em que vivemos, penso que seja oportuno colocar aqui uma letra e canção de outros tempos. A malta da minha idade de certeza que se comove com a letra e música disto. Vá, força...


Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero
Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
assas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"Quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.
Somos um povo
que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.

Letra e música Ermelinda

sábado, 2 de março de 2013

Casaco em croché

Olá,

Tenho andado arredada deste espaço, porque estive a crochetar este casaquinho em lã. Penso que é um bonito trabalho em croché, muito fácil de executar, os pontos são simples, apenas pontos altos e abertos. 
Como veem o efeito é vistoso. As barras foram crochetadas em ponto baixo e a cor adotada foi o azul-escuro.
Estas fotografias mostram a parte de trás do casaco.
Tive de mudar de sítio para tirar a fotografia, porque está muito vento.
Mais uma fotografia tirada de perto que mostra melhor o feitio do casaco. Como podem ver na fotografia, está por detrás do casaco uma camisola tricotada também por mim e que ficou muito bonita também. Na gola da camisola optei por uma trança, o que lhe empresta graça e originalidade.

A lã que serviu para a execução foi cuidadosamente escolhida, não poderia ter pelo, uma vez que o trabalho é feito apenas com uma agulha, claro! Também fica um trabalho muito bonito em algodão, mas como ainda está frio, decidi-me pela lã.

Espero que tenham gostado.
Até ao próximo post.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Um país a empobrcer

Esta semana que passou fui até Lisboa e passei lá dois dias. Na quinta-feira, fui com uns amigos jantar a um bar no Cais do Sodré. Quando saímos do bar e nos dirigimos ao carro, para meu espanto, tristeza e angústia, deparei-me com um grupo de jovens, mais de 10 deitados no chão frio da rua, cobertos por uns cobertores finos, que se preparavam para dormir sob um toldo de um café. Fiquei deprimida.
Há mais de quinze anos que frequento aquele bar e nunca até àquele dia vi sem-abrigo naquele local. Aliás, nesse mesmo dia, passeei pela baixa de Lisboa e tive a sensação de que os sem-abrigo eram mais do que o costume. 
O que mais me chocou nessa noite foi o contraste: um bar cheio de gente, o ter gastado cerca de 15 euros pelo jantar e, na rua, contrastando, o ter visto jovens e menos jovens que têm por lar as estrelas, ou a chuva (estava a chover) e possivelmente nem tomaram nenhuma refeição quente.

O fosso entre os que podem gastar dinheiro e ainda têm uma casa e os que perderam tudo está cada vez mais profundo.
Mas que grande porcaria que os governantes estão a fazer! Há por aí um lunático visionário (só pode ser assim qualificado) que diz que para o ano Portugal vai ver um crescimento fantástico da economia! Só desejaria que ele dissesse quais são as cartas de tarot em que ele está a ler semelhante coisa! Porque também quero ler nessas cartas tal visão otimista, porquanto o que eu vejo é precisamente o contrário.

O desemprego sobe em flecha e neste momento devem estar desempregados mais de um milhão de portugueses, pretendem retirar o complemento solidário aos reformados, o que vai contribuir para aumentar a pobreza dos idosos, o subsídio de desemprego a diminuir, deixando famílias inteiras sem qualquer rendimento. 
Só posso concluir esta partilha fazendo um apelo a todos 
ACORDAI


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Escandaloso!

Isto é um escândalo!
Neste momento estão a fechar centenas e centenas de pequenas e médias empresas em Portugal e estes indivíduos que estão neste momento sentados na cadeira do poder avançam para a construção do TGV?
O Pedro já se esqueceu de que quando estava sentado na bancada se insurgiu contra o Zé, que estava do outro lado, defendendo afincadamente o não avanço desta construção, apelidando-a de megalómana, irreal?
O que se passa com estes «senhores»? Ou o Pedro pensa que os portugueses têm uma memória de passarinho tão pequenina que já nos esquecemos do que ele disse? Ou o Pedro pensa que pode fazer tudo quanto lhe apetece que os portugueses aceitam cordatamente todas as decisões vindas do governo, porque se acha com legitimidade para as tomar? 
Meus caros amigos, temos de fazer alguma coisa para parar com toda esta pouca vergonha porque já chega de sermos tratados como subprodutos.

Peço desculpa, mas há coisas que são muito difíceis de engolir e eu já estou farta destes tipos que fazem e desfazem sem pensarem nas pessoas, porque um país é feito de pessoas reais, de carne e osso e estes fulaninos estão a fazer de nós gato-sapato sem qualquer consideração ou respeito. Sinto que «eles» estão a dançar sobre o nosso túmulo! De palavra de honra, que temos de fazer alguma coisa para acabar com esta pouca vergonha!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Estes são os dois livros em que me vou basear no estudo da Primeira Guerra Mundial. Na minha opinião são dois livros extraordinários que relatam ao pormenor todo o conflito, desde a sua origem até ao seu terminus.

Comecemos então a estudar as causas que deram origem ao fenómeno.
Entre os finais do século XIX e os princípios do século XX as distâncias encurtaram e o mundo estreitou-se, o que implicou a intensificação das trocas comerciais. Às autoridades reconhecidas e declaradas como eram o rei, o padre, a lei, a família, o patrão, o oficial, juntou-se outras anónimas, sem rosto, incontroláveis: os responsáveis pelas descidas dos produtos agrícolas na Europa, dando origem à ruína dos campos e à consequente miséria dos agricultores, os que provocam  graves crises económicas, os responsáveis pelo fazer ou desfazer de modas ou opiniões. Uma turba multa sem rosto, sem nome, totais desconhecidos que provocam a ruína de milhões de pessoas, enfim, os sucedâneos dos atuais «mercados».

Ora, nesta era em contínua transformação, desapareceram atividades milenares, novas profissões nascem e outras morrem. Umas empresas fecham e novas abrem. O mesmo acontece aos centros urbanos em que grande número desaparece crescendo outros. Tudo em nome do progresso, da lei ou da liberdade.
Em paralelo cresce também o número de funcionários. Na Alemanha de 1870 havia um funcionário para cada 825 habitantes; em 1905 passou a existir um para cada 216 habitantes. O mesmo fenómeno estendeu-se à Rússia, em que o número não parou de crescer. Nas vésperas da guerra, em França, um em cada 11 eleitores é funcionário. Enquanto que estes funcionários têm o seu futuro assegurado pelas suas reformas, outros não têm, são as chamadas massas, insatisfeitas, com o futuro incerto, em fuga dos campos que já não lhes garantem o sustento por causa da queda dos preços dos produtos agrícolas, invadem os grandes centros urbanos orbitando em seu redor em busca de melhores condições de vida.
A emigração faz-se sentir aos milhões. Russos, ingleses, alemães, escandinavos, eslavos, italianos abandonam os seus países e atravessam o Atlântico em direção à América.

Entre 1840 e 1914 é na Rússia que se faz sentir e temer mais a possibilidade de uma agitação social violenta, provocada pelo atraso económico do país que se traduz, no plano social, pela fraqueza da classe média. Enquanto que na Grã-Bretanha, na França e na Alemanha os movimentos sociais atenuam-se, o desemprego suaviza-se e a segurança de todos parece garantida.
Na França, entre 1900 e 1914, o salário real da maioria dos operários quase duplica e baixa o número dos que recorrem às casas de penhores. Graças à difusão da imprensa, ao desenvolvimento escolar, à alimentação variada, à aquisição de bicicletas e louças variadas criaram-se novas necessidades materiais. Com o aumento dos salários e a consequente melhoria das condições de vida subir na escala social torna-se um direito imprescindível, o que conduz a uma vivência mais interessante, mais rica. Igual fenómeno acontece em Londres e na Alemanha.
Uma americana, Caroline E. Playne, que residia em Londres na altura registou o seguinte: «As dificuldades e os constrangimentos da vida produziram uma geração muito ambiciosa. As pessoas não têm paciência para esperar que as nossas condições de existência lhes deem uma boa situação. E a guerra, a guerra eclodirá, libertá-las-á desta dificuldade. Sem o saberem estes homens tinham substituído o hino à vida ou à revolução por um grande rancor.»

Pacifismo e internacionalismo confundem-se com o individualismo e o patriotismo. Um acontecimento extraordinário que só a natureza desta guerra explica: era considerada por todos uma guerra de defesa patriótica, logo uma guerra justa e uma guerra inelutável. E deste modo a Europa caminha a passos largos para o seu primeiro conflito bélico do século XX.

Até ao próximo estudo, sim?

Para o ano, 2014, faz cem anos que a Europa assistiu a um conflito bélico que até aí não havia memória: a Primeira Guerra Mundial, um conflito bélico que decorreu de 1914 a 1918 que ceifou mais de nove milhões de soldados de Infantaria, Marinha e Força Aérea. Calcula-se que mais de cinco milhões de civis morreram em consequência da ocupação, bombardeamentos, fome e doenças.

Ao longo do ano corrente irei aqui colocar alguns textos elucidativos que deram origem ao conflito. 
Como estamos em 2013 irei iniciar esta conversa convosco a partir de 1913 podendo, sempre que for necessário, recuar mais um pouco no tempo, para podermos entender melhor este grande conflito que teve início no coração da Europa e depois se estendeu ao resto do mundo.

Chamar-lhe-ei o «Prelúdio da Guerra».

É evidente que a Internet está cheia de explicações, textos sobre este tremendo conflito e, para todos os que estão interessados em melhorar os seus conhecimentos, poderão recorrer a eles. Contudo, eu penso no meu público restrito e fiel, que me tem acompanhado desde o início desta aventura pela blogosfera e penso que sendo eu a escrever, o assunto terá mais sabor e será devidamente lido; e é a pensar em vós que eu me aventuro por estas águas lodosas que um conflito armado desta envergadura sempre provoca, chegando mesmo a ser nauseante pensar que tudo apenas começou pela conquista de um pedaço de terra!
Milhões e milhões de homens pereceram nos campos de batalha e nas trincheiras que anteriormente juravam «guerra à guerra», que aquela iria ser a «mãe de todas as guerras» e depois dela «o mundo nunca mais viria uma nova guerra»!

No início do conflito, logo em 1914, eram muitos os que acreditavam que no Natal tudo estaria resolvido e terminado; a guerra seria curta e ambos os lados, alemães e aliados, seriam os vencedores. Como se fosse possível que numa guerra houvesse vencedores. Todos os intervenientes num conflito bélico são perdedores, quer seja perda de vidas, expoente máximo, quer seja perda de batalhas e da guerra, propriamente dita. Nisto nunca ninguém sai vencedor, apesar do lado ganhador festejar sempre a vitória.

Neste conflito que iremos estudar houve vozes que concordavam com a guerra e outras que discordavam, como é habitual em situações idênticas. Todavia, neste caso específico, as vozes contra o conflito eram mais do que as que estavam a favor, então como é que as primeiras se viram de repente sem capacidade para o fazer?

Parto para este grande desafio, porque é efetivamente grande e trabalhoso, com a convicção de que ele nos vai ajudar a compreender melhor a história da Europa. E, porque não, mutatis mutandis, ajudar-nos a melhor entender a época atual.

Arregaço as mangas e deito mão à tarefa, esperando que seja do vosso agrado, apesar do tema não ser bonito, mas é real, aconteceu e Portugal esteve nesta guerra. Foram muitos os soldados portugueses que morreram em terras de França. 

Até breve vou agora preparar o próximo texto.
Vá, já chega de vos «massacrar» com o tema livros. Agora chegou a vez de vos «massacrar» com as particularidades da língua portuguesa escrita e falada.

O Facebook é uma rede social que mostra bem o quanto as pessoas escrevem mal, com erros ortográficos (e não estou a referir-me ao acordo ortográfico, bem pelo contrário ele veio até reduzir os erros). Para mim, tão sensível à ortografia, dá-me dores na alma quando leio o que os outros escrevem! A cada palavra escrita, é erro garantido. É claro que este reparo nada tem e nem pretende ser insultuoso, pelo contrário. É apenas um reparo e uma constatação de que não sei bem o que os responsáveis pela disciplina de língua portuguesa andam a fazer.

Nos meus tempos de escola primária, e não só, era-nos pedido que fizéssemos todos os dias uma cópia. Mas uma cópia de um texto grande e não de duas ou três linhas. Está cientificamente provado que a nossa memória visual é excelente e ao fazermos cópias, o nosso cérebro lentamente e sem grande esforço vai memorizando as palavras e a forma como elas se escrevem. A somar à cópia, havia o ditado. Outra forma de treino de escrita sem erros. Claro que não aprovo as sanções que nos eram impostas caso déssemos cinco erros... eu cheguei a levar duas palmatórias porque dei num ditado cinco erros! Mas com sanções à parte, porque não há agora o incentivo do passado nas cópias e ditados? Eram tarefas para serem feitas na escola mas levávamos também como trabalho de casa.

Posto isto, que é apenas um aparte, vou hoje falar de uma particularidade da língua portuguesa em relação às cores.

Dou como exemplo o azul-escuro.

Azul-escuro é uma palavra composta, logo entra no grupo das chamadas cores compostas, ou seja, os elementos das cores ligam-se sempre por hífen..
Neste caso particular que estamos a estudar, o azul-escuro pode assumir duas funções: substantiva ou adjetiva, e varia conforme a função que estiver a assumir.
Assim, se estivermos perante a função substantiva, isto é, se a palavra estiver na posição de substantivo, tipo: "O azul-escuro é muito bonito e elegante" faz o plural assim: "Os azuis-escuros são muito bonitos e elegantes". E quando está na função de substantivo usa-se sempre no masculino do singular ou plural. 
Exemplos: o amarelo-claro, os amarelos-claros; o azul-claro, os azuis-claros, etc.

Porém se a nossa amiga cor composta estiver a exercer a função de adjetivo, o caso muda de figura!
Exemplo no singular: 1. "O casaco azul-escuro da Maria Luísa é lindíssimo." Mas se estivermos perante uma frase no plural: 2. "Os sofás azul-escuros da Maria Luísa são lindíssimos." 

Conseguem aperceber-se das diferenças? E porquê estas diferenças? Porque o segundo elemento é também um adjetivo (escuro) e por isso concorda em género e número com o substantivo (no caso em estudo em 1 temos um substantivo no singular e no caso 2 no plural, ambos são substantivos masculinos).

E se estivermos perante substantivos femininos? De que forma se grafam as cores compostas?

Pois bem, grafam-se sempre em concordância com o chefe que é o substantivo quem manda. Assim, 3. "A saia azul-escura da Maria Luísa é lindíssima"; substantivo feminino do singular.
4. "As botas azul-escuras da Maria Luísa são lindíssimas", substantivo feminino do plural.

Resta por fim acrescentar que esta regra se estende a todas as cores compostas: amarelo-vivo; azul-claro. verde-escuro, etc.


Mais uma particularidade da língua. Até à próxima!

Há quanto tempo não...?

Hoje estou voltada para os livros! E gostaria de vos fazer as seguintes perguntas:
Há quanto tempo não entram numa livraria e não sentem entre as vossas mãos um livro? Há quanto tempo não desfolham as páginas de um livro? Há quanto tempo não pegam num livro, não se sentam no sofá mais cómodo da sala e não saboreiam uns momentos de intimidade entre vós e um livro?

Se a vossa resposta for «Há muito tempo!», a minha será: «De que estão à espera para se dirigirem rapidamente a uma livraria, ou à Internet, vasculharem as prateleiras, ou navegarem nas páginas das editoras online, e levarem um amigo convosco?»

E não se desculpem com o preço porque neste momento na Internet há centenas de livros a 2,50 euros! A sério, não estou a brincar.


O que um livro pode fazer por nós. Desperta os nossos cinco sentidos: o do tato, quando o temos na mão e o sentimos; o do olfato no momento em que o cheiro do papel chega às nossas narinas; o da visão, porque o olhamos; o da audição, porque ouvimos o que ele tem para nos dizer e quais são os segredos que iremos desvendar; e por fim o do paladar, quando saboreamos, tal como um vinho de alta qualidade ou refeição gourmet ou cozinha de autor, as palavras, as frases, os diálogos.
É esta combinação de nós com o livro que é tão fascinante e tão apaixonante. Uma vida sem livros e sem leitura é tão sensaborona como um jardim sem flores, sem o chilrear de pássaros. Quem passa pela vida sem a companhia quotidiana de um livro, passa sem a viver; desconhece as maravilhas que um livro, um pequeno objeto que transportamos de um lado para o outro facilmente, que quando o abrimos e começamos a olhar as páginas e a ler, somos imediatamente transportados para mundos distantes, entramos e descobrimos figuras iguais a nós, umas, outras diametralmente opostas. Um livro permite a evasão das nossas angústias diárias, das nossas tristezas e, porque não, também, das nossas alegrias. Pegamos num livro de acordo com a nossa disposição do momento. É por isto que eu leio vários livros ao mesmo tempo: ora pego num ou noutro de acordo com a minha disposição de momento. Mas o que eu gosto mais é de revisitar livros já lidos. Voltar a casa de personagens minhas amigas, voltar a sentar-me nos seus sofás, voltar a tomar chá com elas, partilhar os seus desgostos, as suas alegrias. Ouvi-las novamente a falar comigo. Que ninguém diga que ler é um ato solitário, porque me recuso a aceitar tal opinião.
«Estava claro o céu, tépido o ar, e as bouças e montados floridos. O mês era de dezembro, de 1863, em véspera de Natal.
A gente das cidades pergunta-me em que país do mundo florescem, em dezembro, bouças e montados.
Respondo que é em Portugal, no perpétuo jardim do mundo, no Minho, onde os inventores de deuses teriam ideado as suas teogonias, se não existisse a Grécia. No Minho, ao menos, se buscariam águas límpidas para Castálias e Hipocrenes. No Minho, a Citera para a máe dos amores. Nos arvoredos desta região de sonhos, de poemas, e rumores de conversas de espíritos, é que os sátiros, as dríades, e os silvanos sairíam a cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a natureza tem segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se à fantasia dos poetas.
Mas que flores... quer o leitor saber que flores vestem os calvos e denegridos serros do Minho, em Portugal. São flores a festões, cachos de corolas amarelas, viçosas, e aveludadas como as dos arbustos cultivados em jardins: é a florescência dos tojais, plantas repulsivas por seus espinhos, alegres de sua perpétua verdura, únicas a enfeitarem a terra quando a restante natureza vegetal amarelece, definha e morre. E desse privilégio como que o agreste arbusto se está gozando soberbamente; pois vos amostra as suas pinhas de flores, e com os inflexíveis espinhos vos defende o despojá-lo delas.» Amor de Salvação, Camilo Castelo Branco

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Nos últimos dois anos pelo menos mais de duzentos mil portugueses abandonaram o país e rumaram para outros destinos. Portugal sempre teve na sua história episódios de emigração, como podem ver neste belíssimo romance de Ferreira de Castro.




Só que agora os emigrantes já não levam a sua malinha de cartão. Levam na bagagem os seus diplomas de licenciados, mestres e doutorados. São jovens que têm os seus cursos pagos por todos nós e agora vão dar o seu contributo a outros países, porque o nosso não quer saber deles para nada. Aliás, penso que o nosso país não quer saber de nós para nada. O ideal é Portugal não ter portugueses! Assim seria um grande país, habitado apenas pelo governo, parlamento e sindicatos!

O importante foi o acontecimento de termos ido ao mercado e termos ido comprar dinheiro. A preço de oiro. Isso é que é o grande acontecimento, celebrado com fogo de artifício e cantares de vitória vindos da presidência da República e governo. 
Ora isto é que é um feito! Agora temos os problemas todos resolvidos. A economia vai crescer, os empregos vão exceder a procura, as empresas vão deixar de ir à falência, os ordenados vão ser aumentados, os reformados e aposentados vão ver as suas reformas triplicarem, isto é, voltarem a receber aquilo que descontaram durante toda a sua vida contributiva.


Ups... Eheheheheh
Estava a brincar... Afinal um reformado que ganhe mais de 1300 euros mensais é um ricalhaço e há que lhe tirar quase todos os seus ganhos de uma vida de descontos. Ah! Ganda país que assim tratas os teus filhos!!!!!!
Olá amig@s! 
Já há uns tempitos que não vinha para este espaço trocar ideias convosco. A preguiça e o temporal contribuíram para o meu silêncio.
Já abordei ligeiramente o nosso grande escritor Camilo Castelo Branco e hoje vou fazer-lhe uma revisita e gostaria de vos convidar.
Nasceu em Lisboa, mas logo em criança, após a morte da mãe, primeiro, e depois a morte do pai, Camilo rumou em direção ao Norte, para Vila Real, onde permaneceu durante quatro anos. 
Viveu no Porto, esteve preso na Cadeia da Relação do Porto, por causa do seu amor pela Ana Plácido e depois instalou-se com Ana Plácido em São Miguel de Seide, em Famalicão.
A notabilidade de Camilo assenta no romance. E foram muitos os livros que escreveu.
A intriga nos seus romances envolve ora pares que se amam e veem o seu amor contrariado quer pela diferença social, quer pelo desnível económico das famílias, quer pelas famílias rivais. A estes elementos dramáticos juntou Camilo outros de terror, dos quais resultaram uma espécie de romance negro; noutros, Camilo polvilhou-os de sátira mordaz, dando origem ao romance satírico de costumes; outros houve ainda em que este grande escritor explorou o amor impetuoso que nada detém e criou então o romance passional. Já para o fim da vida, Camilo enveredou pelo caminho do naturalismo, mas sob a pena jocosa, criando paródias de romances realistas.

Nos meus tempos de juventude, Camilo não despertou de todo a minha atenção. Achei os seus livros enfadonhos, monótonos e muito difíceis de ler. Porém, a idade adoça-nos o sabor das coisas da vida e à medida que avancei na idade, os meus gostos refinaram-se, adoçaram-se e agora sou uma leitora fervorosa da obra camiliana. Neste momento releio toda a sua obra, mais uma vez, e encontro cada vez mais beleza na sua escrita. 
Nas suas obras colhemos um riquíssimo e variadíssimo vocabulário, muitas vezes de sabor arcaizante. (Daí que seja de leitura difícil para um jovem ou para alguém mais distraído...)
A ironia está sempre presente. A cada passo encontramos uma frase irónica, satírica, onde também não falta o lirismo, especialmente nas coisas do amor.
Os adjetivos quase que não existem, mas também não são necessários porque Camilo escolhe excelsamente os substantivos e os verbos. Não é um escritor de descrições de paisagens, ambientes; também não faz uma análise psicológica das suas personagens. Contudo, conhecemo-las e vemo-las através dos diálogos. E, à medida que vamos avançando na leitura, ora nos apaixonamos e nos identificamos por esta ou aquela personagem, ora odiamos e criticamos uma outra.
Ler a obra camiliana é como degustar uma requintada refeição gourmet, ou um vinho de excelência. Tantas vezes volto atrás para reler um parágrafo, uma frase, porque não ficaram bem entendidos, bem saboreados, bem degustados.
Para vos aguçar o apetite vou transcrever um pequenino trecho do livro que estou a reler neste momento: «Álvaro é que notou magreza e palidez no rosto da prima. A natureza tem às vezes a caprichosa benevolência de entrar nestas comédias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombreiam o aspecto das cores mórbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espírito nas contingências do ar atmosférico, da insónia, e do alimento indigesto; mas a crítica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão fantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua própria paixão.» (in O Romance dum Homem Rico)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A amizade vista pelos olhos e sentimento de Florbela Espanca

«A amizade é o maior sentimento que não morre.» Correspondência, 1911.

Contador de histórias: Luís Vaz de Camões

«Esta é a ditosa pátria, minha amada,
À qual se o céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz comigo.»
Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas

Contador de histórias: o livro

Livro é magia que entrelaça vogais e consoantes que se transformam em palavras. Palavras que, ora, podem ser doces, mágicas, meigas, ora, cruéis, que ferem. Palavras que ficam para a história, muito para lá de quem as produziu. Este mundo maravilhoso da literatura em que podemos voar através da projeção das palavras na nossa mente para mundos distantes. O livro, esse transportador de sonhos, de realidades, de vivências fantasiosas ou bibliográficas. Ao contrário do cinema, o livro dá asas à imaginação, permite que a mente imagine lugares, pessoas, histórias. 
Marília Carmen Barros

Contador de histórias: Os filhos de Alice



Os filhos de Alice eram os livros que ela lia; os que corrigia. E quanto mais trabalho um livro lhe desse, mais amava aquele filho saído das suas entranhas: palavra atrás de palavra; frase após frase.
Não eram os filhos desejados e sonhados de Alice, de carne e osso, mas eram filhos em que os seus corpos eram de papel, os seus ossos, letras e o seu sangue misturava-se com o sangue da Alice; o sangue das horas passadas a tentar encontrar o sinónimo exato, a palavra certa, a vírgula bem colocada. Os «filhos» de Alice tinham pai: o/a autor/a. Mas para a Alice, o pai era apenas uma figura; o sémen indispensável à produção. O resultado era fruto do trabalho árduo de Alice. Como ela amava aquelas criaturas feitas de orações, subordinações, integrantes, substantivas. Assim passou a Alice a ser mãe não de uma, duas, três ou mais crianças, mas de uma infinidade de filhos. Todos muito amados, muito queridos, muito sofridos durante o percurso da sua educação. Uns foram rebeldes e indisciplinados, outros doces e amáveis, uns fizeram a Alice chorar lágrimas sentidas e outros gargalhadas incontidas. E como ela se sentia feliz no dia em que via o seu filho exposto num escaparate de uma livraria! Conhecia todos os seus filhos pelo nome; sabia quanto sangue seu perdeu ao dar à luz aqueles filhos. 
Marília Carmen Barros

Uma tarde com Camilo

Nesta tarde, cinzenta e fria, tenho por companhia um lume bem avivado e nas mãos um livro de Camilo Castelo Branco. Deixo-me levar pelas palavras de Camilo, excelso contador de histórias e olho as chamas avermelhadas da fogueira e penetro num ambiente do século XIX português.
Quando eu era mais nova, este escritor nunca despertou em mim a paixão. Ficava-me pelo ambiente bucólico de Júlio Dinis e pelos ambientes do Eça de Queirós. Mas a idade vai-nos abrindo o espírito a outros espaços e ambientes e a minha paixão por Camilo Castelo Branco vai crescendo de dia para dia. Lembro-me, perfeitamente, que o único livro que tinha devorado na minha juventude foi o famoso e conhecidíssimo Amor de Perdição. Depois vaguei pela Brasileira de Prazins, onde o riso me chegou até às lágrimas, o mesmo aconteceu enquanto percorri as aventuras de A Queda de Um Anjo.
Agora retomo novamente às páginas dos mesmos romances e encontro novos segredos até aqui nunca descobertos. Afinal a literatura é isto mesmo: de todas as vezes que lemos um livro de um grande autor, encontramos sempre coisas novas. 
Neste momento deambulo pelas páginas de O Romance de Um Homem Rico, o livro favorito do autor e escrito no período em que ele esteve preso na cadeia da Relação do Porto. 
Neste fim de semana que ontem findou, concluí a releitura de A Freira no Subterrâneo, que apesar de ser uma tradução pelo punho do Camilo tem imprimida a sua marca de escritor fora de série. Deixo-vos aqui um pequenino trecho como comprovativo da sua escrita exemplar e singular:
«Quem há que defina e analise uma carta de amores? São todas parecidas, cheias de adoráveis canduras, de entusiasmos sublimes, por vezes pueris e encantadores, jubilosos como um hossana e tristes como um gemido. Umas vezes marejam os olhos, outras vezes fazem sorrir. O que as aformoseia e diviniza é o sentimento que nos infundem e inflamam. Se mais tarde o coração se resfria e incinera, lá vai perdida a primeira impressão; porém, se um bafejo generoso nos aviventa, se o seio arfa, se renascemos para o amor como para uma vida nova, são inefáveis os gozos que nos dão as nossas cartas amorosas. Não nos vexamos de as ler, acolhemo-las ao seio, beijamo-las sem pejo nem contrafeito pudor. Aquele que não estremece ao ler uma carta dessas, aquele que olvidou a vida ardente e febril que aí se reflecte nesse papel, esse tal não amou nunca, nem foi digno de ser amado.» in A Freira no Subterrâneo.

Têm de concordar comigo que este pequenino trecho define tudo, não é verdade?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A amizade é algo caro a todos. A amizade é uma dádiva. A amizade é gratuitidade. Quantas vezes sentimos amizade por alguém e, esse alguém, trai a amizade... Como eu gostava de ter um  amigo verdadeiro ou uma amiga sem traições sem falsidade... Mas tenho; e esse amigo é Deus. O que nunca falha, o que nunca nos decessiona ....

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Beira Alta

Serras dobradas sobre serras, pequenos vales escondidos em desfiladeiros abruptos e as aldeias geralmente negras de lousa e curvadas de pequenas culturas; de onde em onde um plató mais airoso que deixa ver à distância as lombas azuladas -- e é a Beira serrana. Lá dentro, o beirão é um homem resoluto e andarilho, trepador da serra a pé ou a lombo de garrano, ora afeito à doçura dos vales dos socalcos que, pelo sopé do Caramulo e a faixa da Bairrada, estabelecem transição com a zona portuguesa da costa, ora habituado às alturas da serra da Estrela e às plataformas da raia castelhana.
O coração da província pulsa esparso e tranquilo, tão depressa na Guarda e na sua região de vilas acasteladas e pecuárias -- Belmonte, Almeida, Gouveia, Manteigas, Sertã --, como na velha Viseu da lenda do Viriato, e no seu duplo alfoz de Lamego ao Alto Paiva e das suas vilas vinhateiras e lenhosas do vale do Dão: Nelas, Santa Comba Dão, Mangualde. Os xistos lamelados alternam na construção com os granitos lavrados dos solares de Viseu e de Tondela.
A expressão da terra é ao mesmo tempo áspera e suavizada. As penhas redondas do Alto Dão, onde o próprio pinheiro parece vegetar a custo, cedem a largos oásis férteis e bem regados. A amendoeira algarvia tem a sua réplica e o seu émulo em Figueira de castelo Rodrigo.
Assim, a Beira Alta é o cerne de Portugal, a sua região interior a que os ventos do Atlântico ainda levam um pouco de frescura e humidade. Os rebanhos compactos descem dos Hermínios aos vales que o outono de todo em todo não crestou, e então o pastor de surrão e manta às costas traz até quase ao litoral a nota de uma humanidade de um pouco de pão duro e azeitonas com um trago da ordenha da manhã. os centros beirões conhecem uma civilização velhíssima que a energia hidroelétrica arrancada às quedas serranas vai industrializando e iluminando.
Em Viseu passeamos entre solares vetuscos e podemos ver da melhor pintura quinhentista em museus bem ordenados. Há estâncias de cura e repouso ao longo do vale do Dão, vida e ar puro em toda a parte. Tocando a leste o páramo castelhano, na planura de Almeida, a oeste as terras baixas e irrigadas e ao sul os calmos pinhais, estremenhos, que ondulam no sentido do mar, a Beira Alta é Portugal velho legítimo, Portugal de raiz.




Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Estive a fazer uma «arrumação» ao blogue. Assim os leitores poderão ler os poemas por autor e não toda aquela mistura anterior que não permitia escolher um poeta. Penso que esta ordenação é mais certa. Todos os assuntos tratados aqui estão na pasta respetiva, tornando mais fácil o acesso aos conteúdos.

De qualquer forma aceitam-se sugestões, certo?

Minho

Terra de verdura e de névoa; terra sem osso -- chamou Miguel de Unamuno, espanhol nosso amigo, ao Minho e à Galiza. Mas os ossos que faltam à terra húmida e fértil sobram ao homem próvido. O Minho é a província da pobreza seivosa e lameiros quase humanos. Ali, a gente e a terra fundem-se numa harmonia profunda e sofrida. A vida é dura mas alegremente levada. O cabaneiro agarra-se com igual denodo à soga dos bois, ao sacho do milho regadio e à tesoura de podar. No dia de festa do santuário larga tudo pela maceta do bombo ou pelo fole da gaita céltica. De Barcelos a Viana e de Braga a Monção estrugem foguetes de arraial, os caminhos enfeitam-se da saia barrada de Afife e dos peitos constelados de cordões.

As romarias afamadas ainda são sensivelmente as mesmas do tempo de Pai Soares de Taveirós e de el-rei D. Dinis, num cordão de ermidinhas que levam São Torcato ao endireito de Compostela, entre os milharais e as latadas. A um lado Viana do Castelo com os veleiros e solares; -- a outro, Guimarães com a Colegiada de Mumadona e a igrejinha de São Miguel onde levaram a batizar o primeiro rei português; a outro, ainda, Braga com a bênção de São Martinho de Dume, apóstolo do reino suevo, a espessura do Bom Jesus e as ruas canónicas e pausadas.
A literatura abusou talvez um pouco do pitoresco de uma terra que não é só logradoiro de lavradeiras clientes das ourivesarias de Gondomar, porque é também a leiva em que não cabem todos e que, assim, vai encaminhando o seu povo, de saquitel e tamancos às costas, para o caminho incerto e duro da emigração. Mas o minhoto de Santo Tirso, de Famalicão e de Barcelos não quer mal à terra apertada a que voltará um dia com a certeza de espaço para a velhice e a morte. A densidade da vizinhança ensina-lhe uma regra de convívio temperada de prudência e bonomia. É festeiro na hora da festa e bom braço nos dias de labuta. pescador em Âncora e Viana, é boieiro à porta do estábulo, serrano nas alturas de Barroso, vinhateiro e hortelão das chedas um pouco por toda a parte. Ourives nas abas do Porto, as suas mãos calosas do carro do milho e da aduela do pipo do verdasco chamuscam-se da pólvora pirotécnica do arraial, empastam-se do barro de Barcelos, falquejam as imagens de Braga e o cavername dos barcos de Vila do Conde e de Póvoa de Varzim.
O senhor abade e o fidaurgo da quinta dos vales do Lima, do Minho e do Vez ainda são seus oráculos: sempre, porém, ouvidos com o íntimo sentimento de que cada um no seu lugar cuida de si mesmo -- e bonda... Com isto, a paz da honesta abundância ainda conhece bucólicas como a do quinchoso de Alvapenha do romance de Júlio Dinis. Os cães ladram nas testeiras das quintas, são mesmo de má cara em Castro Laboreiro, mas o almocreve vai passando, como passa a roga e o rancho de Zé Pereira. De Ponte de Lima a Caminha e Monção vai havendo lugar para todos, uma malga de caldo verde, um naco de broa e às vezes uma caneca em que crepita o verdasco. Quando o não há, o minhoto toma pacatamente um paquete no porto de Leixões e espera-lhe pela volta com uma confiança inabalável. Portugal não fica arredondado sem ele.

Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.