-- O Porto! -- dizia ela. -- Então mas o senhor já viu terra mais linda e gente mais séria?
Devo confessar ter-lhe respondido que a respeito de boniteza havia visto melhor, mas quanto a seriedade, concordei. E acrescento agora que só quem de todo quiser negar as evidências e apagar o facho de gerações e gerações, é que pode deixar de combater para que esta terra não continue a ser o reduto das nossas velhas virtudes, das quais é certamente a mais perdida a que D. João de Castro sabia que se chamava honradez.
A velha e, hoje, para muitos, ridícula cena das barbas, lá nas terras onde só coisas dessas nos fizeram grandes, não vem aqui ao acaso, nem por simples motivo de expressão. Vem porque se emoldura justamente neste caixilho sólido de castanho velho, e porque quero tirar dela o significado profundo que ela tem.
O indivíduo que põe num cabelo seu o valor de todo o resto de si, é um homem perfeito. Da cabeça aos pés, passando pela alma, a sua unidade não tem fendas, e joga como um bloco maciço. É uma força invencível. Ora se por graça da sorte o cabelo transpõe, e em vez de ser um pelo da cara passa a ser uma cidade inteira, então o perfeito torna-se sublime, e nós temos esta coisa única e reveladora: o cidadão do Porto, o homem português mais livre, mais humano, mais responsável e mais uno que a nossa pátria deu.
Formado na escola do trabalho remunerado, da solidariedade correspondida, da liberdade conquistada e dos direitos adquiridos, o filho desta terra, das origens até agora, foi sempre ao mesmo tempo ímpar e ubíquo na história de Portugal.
À semelhança do antigo vice-rei, que não era daqui mas podia ter sido, cada filho do Porto soube sempre dar o Porto por penhor dos seus atos. Dá-lo e remi-lo honradamente.
Toda a forma serena e acabada de uma expressão é um classicismo imortal. Nas sociedades, como na arte, esses estados atingem-se de vez em quando, e são marcos padrões de uma graça por que a vida se esforça. Na história portuguesa, os mais altos momentos, não do nosso génio, mas da nossa plenitude atingida, foram aqui. Uma saudável consciência gregária, uma solidez de processos de conduta e relação, deram a este aglomerado humano foros de única grande cidade castiçamente nossa. Deram-lhe isto a que eu chamo o classicismo social português.
O próprio mar, que sempre se lhe negou, mantendo-se renitentemente indócil a todas as solicitações, afastando a cidade da grande epopeia de Lisboa, a tornou mais nossa, mais nacional, agrária e comercial no telúrico e íntimo destino que nos esperava.
A aventura das descobertas foi um espasmo onde a seiva minhota, transmontana e beiroa entrou sem convicção. Por isso o Porto mandou à façanha do infante de Sagres e Pêro Vaz de Caminha, seus filhos, um para empurrar as naus, outro para dar notícias da chegada delas ao Brasil, e como mãe tinha cumprido o seu dever, longe do feito, continuou o seu labor de capital terrosa e barrosã de Portugal. Bem sei que há Ceuta, onde o Porto deu tudo. Mas uma coisa é um gesto, e outra uma obstinação.
Não é que ter ido à Índia tire a Lisboa significação e sentido. Pudéssemos nós ir às Índias deste tempo!
Chão humoso nas nossas caseiras virtudes e defeitos, Porto de Portugal e não da Europa ou do mundo, quem como eu faz persistentemente e incansavelmente o trajeto espectral da nossa pátria, há de por força senti-lo tal e qual como eu, embalado numa toalha velha e diligente de socos a roer granito -- é Portugal por uma pena. São as fragas da Estrela a dar centeio, as de Barroso a dar batata, e o milho as do Gerês. É uma existência arrancada a uma courela onde tudo cresce em dor.
Até no ritmo de progredir, na maneira formal de realização, eu julgo ver o Porto com mais caráter português. Um certo cortar em largo, em medida exagerada às nossas forças, em estilo de embaixada de D. Manuel e de convento de Mafra, com um pouco de mais bom senso, claro está, tem aqui a sua morada. Sem mesmo faltar depois a nossa costumada renúncia, sentimental na sua aparência e tragicamente fatal no seu fundo. O tal ímpeto desmedido vai por aí acima num rompante de Avenida dos Aliados; mas para daí a pouco, embasbacado diante da Igreja da Trindade.
Eu não cuido de saber neste momento se sim ou não se devem levar todas as avenidas ao fim. Quero apenas oferecer à meditação dos portugueses, sobretudo aos do Porto, esta parábola contemporânea.
Miguel Torga, O Porto