«Ó Alma Portuguesa, agora exulta;
E, num protesto ousado,
repele a ignara gente que te insulta,
Clamando: "Povo exausto e infortunado,
Que existe apenas pelo seu passado!"
Dizê-lo deixarás sem que o desmintas?
Queres tu num sarcófago de gelo
Dormir, sonhando com ações extintas?...
Não; tu hás de viver; e ardendo em zelo,
Lutar com o mau destino até vencê-lo!
Que te falta? Valor? Não; esperança!
Em ti própria não crês; vagas aflita,
Na indecisão estranha que te irrita,
E em pensamentos lúgubres te lança...
Mas a esperança ressuscita!
Não muda a raça, embora o tempo mude.
Em ti, alma serena,
O génio não morreu, nem a virtude;
Inda nas mãos da lusa juventude
Podem caber charrua, espada e pena...
Alma complexa, que o valor guerreiro
Conduziu muito além da Taprobana;
E que exprimir soubeste, na profana
Graça dos fados e do Romanceiro,
A tua lírica emoção humana;
Alma suave e pia,
Alma candente e heroica,
Leal no intento, simples na energia,
No sofrimento resignada e estoica,
Doce no amor e na melancolia;
Eia, arranca de ti o manto escuro
Dessa austera, apagada e vil tristeza;
E tendo o Gama audaz por palinuro,
Vai conquistar as Índias do futuro,
Ó Alma Portuguesa!»
Magalhães Azevedo, Língua Pátria
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