domingo, 2 de dezembro de 2012

Falando de literatura

É curioso que tendo dado a conhecer tanta poesia neste espaço que  O Cantinho da Carmen ainda não tenha explicado o que é a poesia, o que é a prosa e como ambas se podem interligar. Pois agora vamos tentar, sucintamente, passar uma vista de olhos neste assunto.

Se apenas nos limitarmos a ter em conta o aspeto externo de uma linha em verso de uma outra em prosa rapidamente nos damos conta das diferenças. Todavia não nos podemos quedar apenas neste aspeto, porque há necessidade de analisarmos a linguagem sob dois níveis: o do conteúdo (semântico) e o nível da expressão (fónico).
Poesia e prosa quase que se podem colocar em campos opostos. A primeira pode ser considerada um desvio de natureza estética, enquanto que a segunda é a expressão da linguagem corrente e normal. 
A poesia que aqui tem sido mostrada situamo-la na chamada poesia integral. Isto é, contém uma linguagem conotativa e metafórica, próxima da música pelo ritmo, e apenas lhe interessa o aspeto artístico.Os signos linguísticos são de forte cunho conotativo, ricos de sentido e de emoção. Mas também podemos encontrar estes signos linguísticos na chamada prosa poética, bastante evidenciada por exemplo em Vergílio Ferreira, em que o mundo do não eu é-nos apresentado em linguagem com características bem ritmadas e ricos de emoção poética, o que muito a aproxima da sua «irmã» poesia.
Dentro da prosa ainda temos mais estilos: a prosa literária e a não literária. Na primeira os signos selecionados não evidenciam qualquer emoção poética. Porém são escolhidos cuidadosamente de forma a mostrar clareza, naturalidade, originalidade. Na prosa não literária os signos mostram a ausência total de emoção poética. Como exemplos concretos de prosa literária podemos encontrá-la nos romances e nos livros de Oliveira Martins, que tem uma forma extraordinária e rica de apresentar os signos linguísticos na descrição de vários episódios da história.
Na prosa não literária temos exemplos nos livros técnicos, em que os signos linguísticos são exclusivamente denotativos, pobres de conteúdo semântico.

Chegados a este ponto, estarão vocês assim a pensar: Tudo muito bem, mas o que é a semântica, signo, denotação, conotação?

Passemos então a explicar de forma simples.
A semântica é uma ciência que estuda a significação das palavras no tempo e no espaço. Divide-se em dois constituintes: o semantema e o morfema.
Gato define-se como um substantivo comum masculino do singular. Pode ser desmontado em semantema (gat) e morfema (o). O semantema é a parte propriamente significativa da palavra e o morfema é o que lhe dá a forma, isto é, o que lhe empresta a categoria de substantivo comum masculino do singular. Exemplo: 
gata. A mudança de morfema do para o classifica a palavra já como pertencente ao género feminino.

A noção denotação é constituída pelo significado real, objetivo e lógico. A conotação, pelo contrário, é constituída pelo seu conteúdo afetivo, emocional e expressivo.
Exemplos:
Denotação: O incêndio por fim dava tréguas e recuava, deixando um rasto de cinzas atrás de si.
Conotação: Necessito de me afastar para pôr as ideias em ordem de modo a apagar o incêndio que se instalou no meu coração.
Noite -- denota o espaço entre o pôr do sol e o nascer do sol; conota em determinado contexto dor e tristeza. 
Vermelho -- denota cor; conota perigo em certos contextos e também fações políticas.
E muitos mais exemplos há.
Signo -- designação vulgar a qualquer objeto, forma ou fenómeno que nos remete de imediato para algo diferente de si mesmo. Exemplo: a balança que nos remete de imediato não para o utensílio que serve para pesar algo, mas sim símbolo da justiça. Cruz -- que nos remete de imediato para o cristianismo e não para aquelas cruzinhas que colocamos nos jogos da Santa Casa.

1 comentário:

O silêncio reparador disse...

Gostei desta explicação. Ficamos a saber um pouco mais sobre as particularidades da nossa língua portuguesa.