Júlio Dinis é o pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Escritor romântico que publicou títulos tão conhecidos como A Morgadinha dos Canaviais, As Pupilas do Senhor Reitor, Os Fidalgos da Casa Mourisca e Uma Família Inglesa. Nasceu no Porto a 14 de novembro de 1839, onde, aliás, viveu quase toda a sua curta vida e fez os seus estudos na Escola Médica.
A mãe morre de tuberculose, o mesmo aconteceu aos seus dois irmãos. Já jovem médico, começaram a manifestar-se os primeiros sintomas e ele decide ir viver uma temporada em Ovar, terra natal do pai, em 1863. É nesta vila pacata da altura que Júlio Dinis tem o primeiro contacto com as gentes simples do campo e decide escrever o seu primeiro romance, As Pupilas do Senhor Reitor.
Em 1865 regressa ao Porto e desde logo avança para a escrita de mais romances: Uma Família Inglesa e A Morgadinha dos Canaviais.
Porém a doença continua a avançar e o médico e escritor decide ir passar uma temporada à ilha da Madeira, quatro anos depois. Foi mais ou menos por essa altura que começou a escrever Os Fidalgos da Casa Mourisca, mas, lamentavelmente, o jovem escritor não chegaria a ver o seu livro em público. Os ares da Madeira não fizeram o bem que Júlio Dinis esperava e, sentindo-se cada vez mais doente, abandona a ilha em maio de 1971 regressando ao Porto novamente, e no dia 12 de setembro desse mesmo ano, morre vítima de tuberculose.
Atualmente é um escritor muito pouco conhecido, sendo os seus romances simples, ingénuos e até mesmo pueris. Contudo, sob vários aspetos, o jovem escritor médico pode ser considerado inovador dentro da corrente do romantismo na época, porque abordou temas que até aí nunca tinham sido abordados: as suas personagens movimentam-se em cenários da atualidade da época; envolve na ação a vida do campo e a vida familiar e é um excelente observador e narrador dos meios envolventes.
No caso particular do romance de A Morgadinha dos Canaviais, o narrador transporta o leitor para a ação política da época, com um ato eleitoral à mistura, com os políticos a fazerem promessas eleitorais, compra de votos em troca de favores, a grande polémica da lei que proibia os enterramentos fora dos cemitérios, numa época em que os habitantes de cidades e de vilas eram ainda a favor de que os seus mortos fossem enterrados na igreja; a expansão e construção de estradas; os jogos políticos; uma mudança e evolução dos estratos sociais ligadas ao período da Regeneração, onde se verificou um contínuo progresso da sociedade rural. À exceção de Uma Família Inglesa, cujas cenas familiares decorrem na cidade do Porto, todos os outros romances de Júlio Dinis se desenrolam no campo, mais concretamente no Minho. E aqui Júlio Dinis é um mestre na descrição do meio ambiente, pinta as paisagens com primor e qualidade, as suas personagens são dinâmicas, vivas, porém idílicas. O pincel do jovem médico é bastante benevolente com as suas figuras campesinas. Retrata-as como pessoas de exceção, boas, de excelente caráter, amigas dos seus vizinhos, solidárias, enfim pinta cenários ideais quando, infelizmente, todos sabemos que não é bem assim. Mas foi, sem dúvida, inovador desenhista do meio envolvente e um perspicaz desenhista de carateres das suas personagens. Graças à qualidade das descrições do narrador, ficamos a conhecer muito bem as personagens, os seus gostos, os seus pensamentos, as suas tendências, os seus hábitos.
Eça de Queirós, quando se referiu a Júlio Dinis, definiu-o assim: «Um escritor que viveu ao de leve, escreveu ao de leve e morreu ao de leve.» Todavia, vale a pena revisitar os seus romances, em especial A Morgadinha dos Canaviais dotado até de uma certa intemporalidade no que à política portuguesa diz respeito.
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