quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sempre a sorrir

Um homem casado não se sente bem. Sofre de dores, mal-estar generalizado e tristeza profunda. Decide ir ao médico e a mulher acompanha-o. Quando chegam ao consultório, a mulher fica na sala de espera, enquanto o marido vai receber a consulta. Apresenta todas as suas queixas ao médico e este dá-se conta da gravidade do caso. Pede ao marido que vá chamar a mulher, porque quer ter uma conversa com ela em particular. O marido, muito cabisbaixo, vai chamar a mulher. Esta entra no consultório e o médico informa-a:
-- O seu marido está gravemente doente. Sofre de uma doença psicossomática muito severa. Se a senhora não lhe levar todos os dias o pequeno-almoço à cama, se não o deixar ver sempre os seus jogos de futebol favoritos, se o obrigar a ir aos almoços de domingo na casa dos seus pais e se não o deixar ir ter com os amigos dele sempre que ele quiser, lhe garanto que o seu marido vai morrer.
A mulher fica apreensiva e sai do consultório e dirige-se à sala de espera, onde o marido a aguarda. Quando chega perto dele, este pergunta-lhe em tom ansioso:
-- Então, o que te disse o médico? É algo sério?
A mulher suspira, respira fundo e declara:
-- Vais morrer!
Não há nada melhor que um dia de sol. Apesar do friozinho que se faz sentir e do vento também não ser muito agradável. Hoje não estou grandemente inspirada para os devaneios. Estou mais voltada para preguiçar no sofá. Contudo, o que tem de ser feito, tem de se fazer.
Já há muito tempo que não vos dou a conhecer ou relembrar mais provérbios, ora então vamos lá colocar uns alusivos ao dia:

«Sol de inverno sai tarde e põe-se cedo.» Nada mais verdadeiro.

E este que por acaso eu desconhecia totalmente:
«Sol roxo, chuva a olho.» A cor arroxeada do sol quando se põe anuncia chuva próxima. Espero que não seja o caso dos próximos dias, porque necessito de fazer umas limpezas em casa, depois de tantos dias chuvosos, e para as fazer necessito de sol e não de chuva.

E agora para terminar vou colocar aqui um desenho do sol (é necessário explicar primeiro, para o caso de não ser rapidamente reconhecido como tal e podem rir-se à vontade que não me importo.

Hehehehe!
Se um desenho tal simples como é o do sol me sai assim, imaginem como irão ficar os meus postais de Natal...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Vale a pena ver

Acabei de ver na RTP1 o programa Anticrise com Manuel Marques, Eduardo Madeira e António Machado e, de palavra de honra, que chorei com riso. Hoje foi a estreia e recomendo vivamente que tod@s vós sigam, porque é mesmo anticrise. E para combater a tristeza que se apoderou de todos nós, nada melhor do que rirmo-nos à gargalhada, porque rir faz bem muito bem à saúde

Antes do jantar

Enquanto aguardo que a minha massinha com frango fique cozida, decidi vir até aqui para comentar convosco aquilo que estou a ouvir no Telejornal. Não tenho memória de um Sporting tão em baixo. Muda de treinadores com uma facilidade espantosa. Está na 12.ª posição e fora das competições estrangeiras. A continuar neste ritmo de péssimos resultados ainda corre o risco de descer de divisão!
Nutro uma simpatia especial por este clube, talvez porque já não ganha um campeonato há mais de uma década e neste momento está perto da linha de água...

Continuação do anterior

(Continuação)
Ficamos então desde o último poste no dia 16 de julho de 1942, no momento em que a família van Peels se junta à família Frank no refúgio do anexo, numa tentativa de escaparem à perseguição dos nazis aos judeus.  
No dia 12 de junho de 1942, o pai de Anne ofereceu-lhe um diário como prenda de aniversário. E Anne começa a escrever regularmente. Quando se escondem no anexo, Anne levou o seu diário para aí continuar a sua escrita. Nele escreveu todo o seu dia a dia no anexo e de todos os que ali viviam, os seus medos, as suas depressões, as discussões, as angústias, os problemas normais e sobremaneira conhecidos de qualquer miúda a atravessar a adolescência: as discussões com a mãe e com os outros elementos do anexo e a vivência do seu primeiro amor com o Peter van Pels, mas também as festas: Natal, Hanukkah, Ano Novo e os aniversários de cada habitante do anexo. No dia 16 de novembro de 1942 junta-se-lhes um outro judeu, dentista, e também alemão, Fritz Pfeffer.
Claro que para oito «mergulhados», era esta a designação na altura para todos os que se escondiam, era fundamental terem ajuda. E os que os ajudaram foram os funcionários da empresa: Miep Gies, uma secretária, Kugler, que chefiava os empregados do armazém, Kleiman, o diretor da empresa, e Bep Voskuijl, datilógrafa. Todos eles estavam ao corrente do segredo, bem como o marido de Miep Gies, Jan Gies, um ativista que se dedicava a ajudar «mergulhados». Eram eles que estavam encarregados de lhes trazer a comida, cadernos, livros, palavras de conforto e de alento, enfim durante mais de dois anos, Kleiman, Kugler, Bep, Miep e Jan tentaram dar ânimo aos seus amigos, incentivavam os dias festivos e nunca se esqueciam dos aniversários dos seus «protegidos». 
Relembro-vos que quando os «mergulhados» eram descobertos ou eram imediatamente mortos no local, ou rapidamente enviados para campos da morte. Os seus protetores não teriam melhor sorte, caso os nazis descobrissem o esconderijo. Ou eram também fuzilados ou enviados para campos de concentração. Mas, felizmente, os amigos destes oito «mergulhados» não temeram as represálias nem tão-pouco se deixaram intimidar pelo medo. Desde o dia 6 de julho de 1942 até 4 de agosto de 1944, ajudaram os seus amigos. 
A 4 de agosto de 1944 (a última entrada no diário de Anne é de três dias antes) a Gestapo invade o anexo, prende os oito «mergulhados» e juntamente com estes Kugler e Kleiman. Por um golpe de sorte, Miep e Bep não foram presas. 
É a partir deste dia que a tragédia se abate sobre todos os residentes do anexo. No dia 8 de agosto são enviados de comboio para o campo de concentração de Westerbork, na Holanda. Aí se mantêm os oito prisioneiros até ao dia 3 de setembro, dia em que são transferidos para Auschwitz. Só por curiosidade, este transporte foi o último que saiu da Holanda. Auschwitz, como todos sabem, era um campo da morte, de onde muito dificilmente se saiu de lá vivo. Mal saíram do comboio houve logo uma seleção: mulheres para a esquerda e homens para a direita. Depois desta primeira seleção, havia uma segunda: ou iam para a direita ou para a esquerda. Sendo este último lado sinónimo de morte, porque eram diretamente enviados para as câmaras de gás, velhos, crianças com menos de 15 anos e todos aqueles que aparentavam pouca saúde. Neste grupo encontrava-se Herman van Pels. Aos que ainda lhes foi concedida algum tempo de vida eram obrigados a despirem-se, os seus braços eram tatuados com um número, às mulheres rapavam-lhes o cabelo e era-lhes dado uma espécie de bata e uns tamancos.
A vida dos prisioneiros nos campos era terrível. Em qualquer momento pairava sobre cada um deles a ameaça das câmaras de gás ou então morriam de exaustão, ou de fome. As doenças espalhavam-se muito rapidamente devido à ausência de medicamentos e à falta de higiene.A sarna era vulgar entre todos os prisioneiros.
No dia 29 de outubro houve uma seleção no barracão onde estava Otto. Este e Peter escaparam, mas Pfeffer foi selecionado e colocado num transporte que o levou para o campo de Sachsenhausen. Daqui foi levado para o campo de concentração de Neuengamme, na Alemanha, acabando por morrer a 20 de dezembro de 1944.
No dia seguinte foi a vez do barracão das mulheres. Anne e a irmã Margot foram selecionadas e enviadas para o transporte que as levou para Bergen-Belsen. À medida que a guerra se aproximava do fim, os nazis iam ficando cada vez mais nervosos e o campo de Bergen-Belsen no último ano do conflito foi-se transformando num campo de extermínio. Não havia, efetivamente, câmaras de gás, mas as doenças e a fome tomaram tais proporções que as prisioneiras morriam aos milhares por dia. 
No dia 6 de janeiro de 1945, uns dias antes de os russos libertarem o campo, Edith morre em Auschwitz. A 16 de janeiro, Peter é levado pelos nazis na que ficou conhecida por marcha da morte para fora de Auschwitz. Morre em Mauthausen a 5 de maio de 1945. Três dias depois o campo foi libertado.
Em Bergen-Belsen, as duas irmãs reencontram a senhora van Pels e Anne e Margot encontraram lá também algumas amigas. A 6 de fevereiro de 1945, Auguste van Pels fazia parte de um grupo de prisioneiros que foram transferidos de Bergen-Belsen para Buchenwald. E aqui começa uma viagem alucinante para a infeliz Auguste: foi transferida novamente daqui para Theresienstadt e depois foi possivelmente para uma fábrica de aviões em Raguhn. Apenas se sabe que morreu pouco antes de 8 de maio de 1945 ou na Alemanha ou na Checoslováquia.
Enquanto isso, Anne e Margot definhavam de frio, de fome e de doença no campo de Bergen. O tifo foi uma doença que se espalhou muito rapidamente no campo As condições eram indescritíveis. Praticamente não havia água e os alimentos eram uma raridade. Margot caiu da tarimba e morreu. Anne após a morte da irmã não conseguiu resistir e acabou também por morrer em finais de março de 1945.
Dos oito «mergulhados» só o pai de Anne Frank é que sobreviveu. Quando chegou a Amesterdão começou numa procura desenfreada pelas filhas. No dia em que lhe foi dito que ambas tinham morrido, Miep Gies, que tinha escondido o diário de Anne após a detenção pela Gestapo, entrega-o a Otto. 
É precisamente nesse momento que o pai de Anne decide publicá-lo e mostrá-lo ao mundo, satisfazendo assim um desejo da filha mais nova que era ser escritora. E foi também nesse momento que começou uma nova «guerra» acerca da veracidade do diário. 
Por muitas buscas que eu possa fazer, por muito o que eu já tenha lido de que o diário é falso, não acredito. Há talentos naturais mesmo em crianças e apesar de estarmos perante uma, devido às circunstâncias, ela rapidamente se fez adulta. E acrescento mais uma coisa: li e reli ao longo de mais de 30 anos este diário, e leitura após leitura, apercebo-me de que a escrita da criança vai lentamente tornando-se a escrita de adulto. Em 2004 saiu pela primeira vez a versão definitiva e completa do diário. A diferença entre uma e outra é a seguinte: há entradas que no primeiro que eu li foram excluídas pelo pai, porque a filha fazia descrições pormenorizadas sobre si própria e algumas discussões virulentas com a mãe. Tirando estas poucas entradas censuradas tudo o resto é igual. Lembro que o livro foi publicado pela primeira vez nos anos 50 e a mentalidade da altura era totalmente diferente da de hoje. É natural que o pai tenha «censurado» algumas entradas. Estas não são nada escandalosas, mas revelam apenas os problemas de uma adolescente da época, que afinal são o espelho de qualquer adolescente indiferentemente da época em que vive: questões sobre si própria, os seus namorados e as questiúnculas com os progenitores. Claro que num espaço de liberdade, todos estes problemas rapidamente ficam sanados; mas uma garota de 13 anos, cheia de vida que gosta de festas, saídas com rapazes e com raparigas da sua idade, que aprecia e incentiva o flirte, que gosta de andar de bicicleta, de ir ao cinema, se vê obrigada a abandonar tudo isso e se mantém fechada durante mais de dois anos num anexo, sempre com as mesmas pessoas, com o medo constante a pairar sobre as suas cabeças de que em qualquer momento podem ser descobertos, que não pode abrir uma janela, nem dar um passeio, e a somar a tudo isto está a sua travessia pela adolescência, que qualquer um de nós sabe como pode ser problemática. Assim sendo, foi perfeitamente natural que os conflitos que teve com a mãe tivessem sido empolgados e aumentada a sua gravidade; as discussões que esta adolescente privada da sua liberdade teve com os restantes elementos do grupo são desagradáveis. Contudo, absolutamente compreensíveis.
Ela apenas se limitou a transpor para o papel as suas frustrações, a sua tristeza e a sua angústia, e claro, o seu amor pelo Peter. Na minha opinião por isso é que este livro é intemporal e também por essa razão cria tanto mal-estar em seu redor, especialmente em faixas xenófobas da nossa sociedade atual.
A tod@s os que ainda não leram o Diário de Anne Frank recomendo vivamente a leitura, porque não vão dar o tempo por perdido, pelo contrário. No final irão sentir o mesmo que eu senti quando o li pela primeira vez aos 10 anos de idade: tornei-me graças a ele uma pessoa diferente.

Relembrar uma menina

A conversa é como as cerejas. E há pouco, quando escrevi sobre a Alemanha de 1933 é que me lembrei de que ainda não vos tinha falado de Anne Frank. Pois chegou agora o momento de vos narrar a curta vida desta menina que marcou a minha aos 10 anos, quando pela primeira vez li o seu diário.
Anne Frank nasceu a 12 de junho de 1929 em Frankfurt-am-Main, na Alemanha, no seio de uma família judaica de quatro costados, como na altura se dizia na gíria, e que significa que os quatro avós etinham ascendência judaica. Em 1933, após a ascensão de Hitler ao poder, o pai de Anne, um eminente negociante, decide partir para a Amesterdão, na Holanda, um país que na época tinha a fama de bem acolher as minorias religiosas. A Holanda na Primeira Guerra Mundial conseguiu manter a neutralidade, e o pai de Anne, Otto, acreditava que as tropas nazis não iriam invadir o seu país de acolhimento. Da mesma forma que Otto Frank pensou, foram milhares os judeus que abandonaram a Alemanha nazi e procuraram refúgio na tranquila Holanda. Porém, a 10 de maio de 1940 esta ilusão desfez-se. Os alemães ignoraram a neutralidade da Holanda e invadiram o seu território. Ao fim de cinco dias de combates, o estado holandês rendeu-se e a rainha Guilhermina exilou-se em Londres.
Rapidamente os nazis nomearam para comissário do Reich Artur Seyss-Inquart, um feroz antissemita. Desde logo começaram a sair uma série de progoms que começaram lentamente a transformar a vida dos judeus num inferno. Uma das primeiras medidas implantadas na Holanda foi tomada pela Gestapo que levou 385 crianças negras para o hospital para serem esterilizadas. Todos os judeus tiveram de se registar e nos seus passaportes foi carimbado a letra J.
Os nazis lançaram uma lei no dia 22 de outubro de 1940 que obrigava todos os proprietários de lojas e outras empresas a irem registar as suas empresas. Otto Frank na altura era o proprietário de uma empresa que fabricava ingredientes para compotas, a Opekta, que se situava na 263 da Prinsengracht. No dia seguinte Otto registou a sua empresa num outro nome. Ou seja, «arianizou», vocábulo muito vulgar na época, a sua empresa antes que esta fosse fechada pelos nazis.
No início do ano de 1941 os cinemas encerram as suas portas aos judeus. E a esta nova ordem outras se lhe seguiram: os judeus não podiam frequentar lugares públicos, jardins, transportes públicos, concertos, só podiam fazer as suas compras em lojas pertencentes a outros judeus; foram banidos de todos os cargos públicos, os estudantes judeus foram expulsos das universidades e as crianças foram obrigadas a saírem das escolas e começarem a frequentar apenas escolas judaicas. Os judeus não podiam visitar os «arianos» e vice-versa, bem como foram proibidos os casamentos «mistos» Foi-lhes imposto um rigoroso recolher obrigatório.
À medida que 1941 e 42 foi avançando, saíam cada vez mais decretos. Até que no dia 5 de julho de 1942 desaba sobre a família Frank a tragédia. Nesse dia Margot Frank, irmã mais velha de Anne, recebe uma convocatória ordenando que se apresentasse no dia seguinte no quartel das SS. 
Otto era um homem previdente e já tinha um plano para o caso de que tal acontecesse: um refúgio para toda a família nas dependências das traseiras na sua empresa. 
No dia 6 de julho de 1942, Otto, Edith (a mãe de Anne), Margot e a própria Anne mudam-se da sua casa na Merwedeplein para a Prinsengracht, para o anexo. No dia 16 de julho do mesmo ano, junta-se à família Frank uma outra família, os van Peels, um casal com um filho adolescente. 
(continuação para mais tarde...)

As minhas leituras

Já comecei a ler este livro. Começa precisamente com a família alemã em fevereiro de 1933 no momento do incêndio do Reichstag (o parlamento alemão). Sentimos o cheiro a queimado, ouvimos os discursos de Hitler inflamados e endemoniados no local e ouvimo-lo a conversar com o gordo Goring e a planear a encenação de liquidarem os comunistas, porque naquele momento, Hitler, Goring e o sinistro Goebbels acabaram de traçar o destino fatal aos comunistas. Estes foram os primeiros da lista sangrenta elaborada pelas figuras mais sinistras e mais terríveis de que há memória na Europa do século XX. Logo naquela noite do incêndio do Reichstag, começou a purga na Alemanha. Milhares e milhares de comunistas foram presos, torturados, alguns morreram mesmo nessas noite, e enviados para o primeiro campo de concentração da Alemanha, Dachau, em Berlim. E assim se iniciou o período mais negro da história da Europa.

Já que estou a referir-me ao período mais horrendo da nossa história europeia, não posso deixar de me escandalizar quando comparam a chanceler Merkel com tal figura demoníaca, endoidecida, raivosa e que arrastou consigo milhões de pessoas que foram intervenientes principais em mortes, genocídios, purgas. A senhora Merkel não tem nada a ver com tal figura sinistra. Não devemos estabelecer paralelismos com os tempos e pensar que são os mesmos. Estamos perante uma crise financeira com contornos muito semelhantes à de 1929 que mergulhou a Europa e os Estados Unidos numa profunda crise financeira. Os teatros neste momento são os mesmos, mas não podemos criar paralelas entre os atores dos anos 30 do século XX com estes do século XXI. Não nos podemos esquecer que a senhora Merkel nasceu e cresceu na antiga Alemanha de Leste, o que quer dizer ela está habituada a poupar e poupar muito, porque o dinheiro por aquelas bandas não abundava.

Até mais logo, porque agora vou ter de ir passear o meu quatro patas, apesar de ele agora estar ali deitado no sofá, de barriga para cima que é a sua posição favorita.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Para um fim de noite

Para mim a poesia é sempre boa a qualquer hora do dia. É uma companhia fantástica em todos os momentos. Independentemente da minha disposição, quando abro ao acaso um livro de poesia encontro sempre uns versos que me alimentam a alma. Como é espetacular que nuns pequeninos versos se encontre tanta riqueza? Porque afinal ser poeta é...?

«Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
E seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!»

Florbela Espanca, Sonetos.

«Voz que se cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera, que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é infinito e é pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero destino!...»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II

E depois disto, há já muito pouco a acrescentar. Apenas desejo a todos uma noite descansada.
Até amanhã.
Hoje estou voltada para a poesia...

«Senhor,
leva-me com Maria
à procura da casa de Isabel;

leva-me com Francisco
à procura dos pobres de Assis;

leva-me com Teresinha
para chegar mais longe a minha missão;

leva-me com a Outra Teresa
para vestir as mulheres de Calcutá;

leva-me com Nuno de Santa Maria
para enfrentar as vaidades;

leva-me com Tomás Moro
para denunciar a injustiça;

leva-me com o irmão Roger Schutz
para multiplicar aldeias Taizé;

leva-me com Jacinta e Francisco Marto
para acolher e contemplar o Reino;

leva-me ao hipermercado
para ver, nos que tudo têm na vida,
o escárnio de todas as nossas pobrezas.

Leva-me pelo caminho da humildade,
e encontrarei, como criança,
o colo da mãe
no coração de Deus.»

Frei Manuel Rito Dias, in Bíblica



Há de vir um Natal e será o primeiro

Falta pouco mais de um mês para o Natal. Ainda ontem ouvi no Telejornal a fazerem perguntas às pessoas e a comentarem que este Natal vai ser o mais poupado. Afinal o espírito de Natal não se mede, nem nunca se mediu, pela quantidade de presentes que colocamos debaixo da árvore; não se mede, nem nunca se mediu, por uma mesa farta ou menos farta. O espírito de Natal mede-se pelos afetos, pela amizade, pelos momentos em que passamos junto de pessoas que nos são queridas. Este é o espírito da quadra natalícia e não o espírito do consumo. Alguém houve que «inventou» o espírito do consumo chamando-lhe natal, desvirtuando totalmente a época festiva, esquecendo até o que estamos a celebrar. O Natal é festejado com luzes, árvores enfeitadas, sorrisos. Porque os sorrisos não nos custam dinheiro. Podem, claro, dizer que não há razões para os sorrisos, a vida está muito difícil e estamos perante uma crise sem precedentes. Concordo plenamente. Porém, os sorrisos são sempre benéficos à saúde. Por muito tristes que possamos estar devemos sempre sorrir: sorrir porque estamos vivos, sorrir porque aqueles que nós gostamos ainda estão vivos e estarmos vivos é bom; é melhor do que qualquer outra coisa. Viver e viver com qualidade não é sinónimo de riqueza financeira. Passaram-nos esta mensagem falaciosa e nós acreditámos. Não necessitamos de muito dinheiro para vivermos com qualidade. 
Por tudo isto, estas palavras dirigem-se a tod@s que neste momento se sentem tristes, desanimados, sem vontade de enfeitar a casa com os artefactos de Natal (eu já coloquei os meus e todos os dias à noite ligo as luzes de Natal), sem vontade até de celebrar o Natal, porque estamos a viver uma crise sem precedentes. E é aqui que chegamos ao ponto que eu quero: vou colocar aqui um excelente poema de David Mourão-Ferreira intitulado «Ladainha dos póstumos Natais», porque o que verdadeiramente importa é passarmos um Natal, com a crise ou sem a crise, com aqueles que mais gostamos, partilhar a mesa da ceia com todos os que nos são queridos e aproveitar ao máximo a sua companhia enquanto habitamos neste mundo.

«Ladainha dos póstumos Natais

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que hão de me lembrar de modo menos nítido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.»

David Mourão-Ferreira, Obra poética

Momento de poesia

Já há algum tempo que não posto um poema. Nada melhor antes do almoço que ler um poema, porque ele desperta os nossos sentidos.

«Glosa

Quem me roubou a minha dor antiga,
E só a vida me deixou por dor?
Quem, entre o incêndio da alma em que o ser periga,
Me deixou só no fogo e no torpor?

Quem fez a fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor?
Ninguém ou o Fado, e a fantasia siga,
A seu infiel e irreal sabor...

Quem me dispôs para o que não pudesse?
Quem me fadou para o que não conheço
na teia do real que ninguém tece?

Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu só a vida em que me esqueço,
"Onde a minha saudade a cor se trava?"»

Fernando Pessoa, Poesia de Fernando Pessoa.

«Morre lentamente

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajeto,
quem não muda as marcas no supermercado,
quem não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir aos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte 
ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de o iniciar,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples ato de respirar.
Estejamos vivos, então!»

Martha Medeiros, poetisa brasileira. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

As minhas leituras


Hoje comprei o segundo volume da trilogia de Ken Follett. O primeiro volume, A Queda dos Gigantes, é fascinante. O autor descreve os ambientes de tal maneira bem que até dá a ideia ao leitor de que está lá. Para quem desconhece, passo a explicar muito brevemente: o primeiro volume coloca-nos em 1911 e termina em 1925 onde travamos conhecimento com cinco famílias, uma americana, uma alemã, uma inglesa, uma russa e uma galesa. Tendo por companhia estas famílias, vamos fazendo uma visita ao início do século XX, passando pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918), descrita com grande rigor histórico, pela revolução russa  e pelo movimento sufragista feminino. Em toda a obra não falta a intriga, o romance amoroso, a luta de classes. São perto de 1000 páginas que nos agarram à leitura sem conseguirmos quase  parar. Li o primeiro volume em 15 dias. 
No segundo volume voltamos a encontrar-nos com as nossas personagens conhecidas e vamos continuar a percorrer o ambiente que antecedeu à subida ao poder de Adolfo Hitler, à guerra civil de Espanha, à Segunda Guerra Mundial, ao Holocausto, à queda das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui até ao início da guerra fria. Estou entusiasmada e ansiosa por iniciar a minha leitura. Recomendo vivamente a leitura e nestes dias que se aproximam de frio e chuva não há nada melhor do que ter um livro empolgante por companhia. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Estou neste momento a ouvir a casa dos segredos. E estou a ouvir a ileteracia daqueles concorrentes. Se é propositada ou não, não sei. Tenho esperança de que a «burrice» manifestada pelos concorrentes seja propositada, mas tenho medo... Medo, que não seja propositada, medo que seja natural... porque eles são jovens e se os jovens são assim tão ignorantes... algo vai mal neste país. Vai mal e muito mal. Entre mim e eles existe talvez uma diferença de uma geração. Que se passa com eles? Será que estamos a diminuir a nossa qualidade? Afinal nunca tivemos tantos licenciados como agora. Nunca houve tantos «cérebros» como agora. E «cérebros» que estão a sair (preocupante...) ficamos só com isto?

Para um fim de noite



Pois cá estou eu novamente para vos contar como foi o meu jantar. As perninhas de frango estavam espetaculares e as batatinhas à moda do avô estavam divinas. Se há alguém que tenha curiosidade de saber como eu faço as batatinhas assadas à avô que me diga, ou me pergunte... :-)
Relativamente à importância do meu avô na minha vida, deixarei isso para uma outra altura porque neste momento não me apetece falar. Porém, posso afirmar que ele teve e tem um lugar de relevo e primordial na minha vida. Mas outros também tiveram e serão abordados aqui a seu devido tempo.

O meu avô ensinou-me a fazer umas batatinhas assadas extremamente saborosas. Um frango à maneira (dele claro), temperar uns bifes divinos. Enfim, tudo o que ele fazia era extremamente saboroso.
Mas também recordo uma massa simples de carne. Um esparguete partido grosseiramente acompanhado com carne que para mim ficou a imagem de algo mágico. Extremamente saboroso. 

Tenho saudades desses sabores...

Para um fim de dia

Tanto ontem como hoje, o dia mostrou-se cinzento e chuvoso. Uma combinação preocupante para quem tem um cãozito que adora sair e dar o seu passeio. Vem com o pelo molhado, a «cheirar a cão» e maldisposto, porque o passeio de quase uma hora diária se transformou nuns pobres 15 minutos. Para a próxima vez que eu arranjar um animal a minha escolha vai para o gato. Não necessita de ser passeado e faz todas as suas necessidades numa caixa. 
Haviam de ver a «cara» do meu cão, quando abro a porta e ele vê que está a chover! Volta para trás e só depois da minha insistência é que resolve sair. Afinal quem manda ainda é o ser humano!

Tirando este problema, gosto dos dias chuvosos. A água é fundamental à vida: animal e vegetal. E para quem passou muitos meses a olhar para um rio quase seco, esta aguinha que tem caído é uma bênção. Os dias cinzentos são bons para ficar em casa, enroscada no sofá e acender umas velas aromáticas e olhar através da janela e ver a chuva a cair nas vidraças.
Pois isto é o que eu gosto de fazer nos dias chuvosos, o que não quer dizer que o tenha feito hoje. Ontem fiz. Estive todo o dia a dormitar no sofá, com umas velinhas aromáticas acesas e a ver Mentes Criminosas. Hoje, decidi não preguiçar, mas sim trabalhar. E foi precisamente o que estive a fazer até agora. 

Neste momento estou a preparar o meu jantar: umas belas perninhas de frango assadas acompanhadas de umas batatinhas à moda do meu avô. Conhecem? Digo-lhes que são fabulosas. Pouco me importa o colesterol. Há dias e dias, e nuns faz-se dieta e preocupamo-nos com isso, noutros, não. Hoje estou nestes dias. Já liguei o forno e pela casa vai-se espalhando o cheirinho do assado. Também já acendi umas velas aromáticas.
Agora só falta pôr a mesa e ter o jantar cozinhado. Vou ter por companhia um quatro patas, porque quando lhe chegar o cheirinho a frango ao nariz, já sei que vai ficar ora estático, ora agitado, lançando-me olhares chamativos e, muitas vezes até, colocando as patinhas da frente na mesa...

O Natal está a chegar...

Já começa a «cheirar» a Natal. Por todos os centros comerciais e até já em algumas vilas e cidades já prevalece o espírito natalício, espelhado na iluminação. 
À semelhança do Natal anterior, neste Natal também vou elaborar os meus postais. 
Podem pensar: mas que ideia mais atrasada e fora de moda enviar ainda postais de Natal, se temos agora estas novas tecnologias em que podemos criar as nossas próprias imagens e enviá-las pelo correio eletrónico... Pois é! Mas eu gosto de sair das modas e fazer os meus próprios postais e enviá-los pelo correio. À moda antiga. Pena tenho eu de não ter o dom do desenho. Os meus postais manufaturados são do mais pueril que existe. Parecem saídos das mãos de uma criança de três anos! Enfim, nem todos somos dotados com os mesmos dons.
Quando fizer o primeiro, vou fotografá-lo e postá-lo aqui. Quando o virem, vão desatar às gargalhadas mas não me importo com isso. Sou pessoa de ideias fixas e sem preconceitos.
E este Natal vai ser especial, porque vai ser o primeiro que tenho um blogue. E um blogue serve para partilhar tudo quanto nos vem à cabeça e até o nosso dia a dia, e partilhar convosco os meus postalitos pueris e originais também faz parte. 

Também já estou a planear uns trabalhos de croché para oferecer a amig@s. Já tenho umas ideias de uns saquinhos interessantes. Neste trabalho manual sou eficiente!

E agora vou preparar o meu almocinho porque já vai sendo horas e o estômago já reclama...

As árvores, nossas grandes amigas

Estou a fazer um trabalho sobre árvores e tenho descoberto coisas interessantíssimas. Há árvores que duram centenas de anos, como é o caso das nossas oliveiras, por exemplo, outras que atingem dezenas e dezenas de metros de altura, como as sequoias. A árvore aloja em si uma série de organismos vivos. Quando se abate uma árvore viva, está-se a matar esses organismos. E há também mitos ligados às árvores. Por exemplo, quando pegamos nuns troncos de madeira e os colocamos na lareira para arderem, volta e meia ouvimos um crepitar e uns estalidos. Claro que isto é resultado da água que existe no tronco da madeira. Mas é agradável pensar e tentar acreditar que esses estalidos resultam do espírito da árvore que está a sair, e esse espírito vai invadir a nossa casa e povoá-la de energias positivas. Porque os espíritos que habitam nas árvores são sempre bons e benéficos. Aliás, na França havia um ritual de Natal de acender sempre um fogo e de lá colocar a arder um tronco grosso, para ir ardendo lentamente, de modo a permitir que os espíritos saíssem calmamente, invadissem as casas e a purificassem. Com a modernidade, as casas deixaram de ter lareiras e os franceses inventaram o «tronco de Natal», que é um bolo de chocolate que imita um tronco de árvore.

Lembro-me, quando era miúda, a Circunvalação estava cheia de árvores. Depois foram todas cortadas, sabe-se lá porquê! Agora voltaram a colocar lá árvores... Muitas pessoas acreditam que as árvores provocam alergias. E grande responsabilidade nesta crença provém da medicina, pois para além de não provocarem alergias, purificam o ambiente absorvendo os elementos poluentes. 

Árvore é vida. Dá-nos sombra, protege-nos dos ruídos, dá-nos alimento. Sem elas o nosso ambiente seria muito mais poluído do que é hoje. Por isso, olhemos com uns novos olhos uma árvore: é um reservatório de vida para centenas de organismos; abriga os pássaros;  absorve os poluentes e dá-nos em troca o oxigénio; carrega no seu interior espíritos bons e dá-nos frutos saborosos. Só por estas razões deveríamos olhar para ela com carinho, respeitá-la e tratá-la bem e não podá-la como se ela fosse uma árvore de fruto, pois só estas é que aceitam podas. As ornamentais sofrem imenso com as podas a que as sujeitam: provocam feridas no tronco que são chagas abertas a fungos, provocando-lhes doenças fatais.

Deus colocou à nossa disposição uma gigantesca farmácia totalmente gratuita. Segue-se alguns exemplos: o azeite e óleos de frutos secos, como os pistácios, as amêndoas, as avelãs, as nozes, os amendoins e os abacates fornecem-nos as gorduras monoinsaturadas, que são as gorduras benéficas. Os alimentos ricos em gorduras polinsaturadas encontramo-los no salmão, no arenque, nas trutas, na sardinha e na cavala. os antioxidantes estão no alho, na cebola, na laranja, no limão e nos vegetais de cor escura. Os ricos em ácido fólico são a laranja e todos os vegetais de folhas verdes.

Como curiosidade acrescento que os tomates, beringelas, pepinos e abóboras são frutos e não vegetais. Os frutos classificam-se por apresentarem sementes no seu interior.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Reflexões

Hoje não vou começar por escrever neste blogue o Evangelho diário, mas sim vou iniciar o dia com uma reflexão. Os tempos não estão fáceis para ninguém, exceto alguns «eleitos» para quem a crise ainda não chegou, nem vai chegar, porque sempre assim foi e sempre assim será.
Preocupa-me a questão do desemprego juvenil. Assisto ao sacrifício dos pais dos jovens para suportar as despesas inerentes a um curso superior, para, no fim do curso, os seus filhos enfrentarem não um emprego, mas sim o desemprego.
Ainda há bem pouco tempo, escolhia-se ou optava-se por um curso superior, porque se gostava, porque se tinha vocação. Atualmente os pais, na minha opinião e penso, perdoem-me a vaidade da convicção de que estou certa, que os progenitores têm agora um papel fundamental em encaminhar os filhos para um curso superior que não os conduza para o desemprego, logo frustração, mas sim para um curso que lhes abra as portas para o mercado de trabalho. Os pais não podem ceder ao facto de os filhos lhes dizerem que querem este ou aquele curso, porque é o que gostam. Devem fazer ver aos filhos que aquela opção os vai levar ao desemprego. Assim sendo ou o jovem é um excelente aluno, e por excelência refiro-me a um(a) garoto(a) que tenha média de 20 valores e, neste caso, terá um lugar sempre garantido em Portugal ou no estrangeiro, ou então, cabe aos pais, como educadores, dissuadi-los de tal opção. Conheço pais com filhos que estão num curso superior que os vai levar diretamente para o desemprego ou então para outras profissões que não têm nada a ver com aquilo que estudaram. Refiro-me a cursos por exemplo de marketing, sociologia, engenharia de materiais, biologia, psicologia, direito, etc., etc. e tantos outros cursos que proliferam  por todas as nossas universidades que oferecem como destino aos seus alunos a frustração e o desespero. Desespero dos jovens que estudaram durante cinco anos e não vão ter emprego; desespero dos pais que investiram as suas economias, fizeram sacrifícios, para depois olharem para os seus filhos e verem-nos tristes e desanimados.
É curioso como hoje tantos comentadores falam da geração de excelência, que se vê obrigada a sair de Portugal e emigrar. Claro que provavelmente nunca na nossa história tivemos tantos licenciados como agora. Mas dentro deste grande número de licenciados há os que saíram com médias de excelência, e outros com médias boas e outros com médias suficientes. Há uns anos discutia-se a falta de enfermeiros. Como resposta a esta falta, multiplicaram-se as escolas de aumentaram-se as vagas. Resultado: excedente de enfermeiros! Discute-se agora a falta de médicos. O mesmo «tratamento» foi feito. Se vai haver excedente de médicos ou não só o futuro nos dirá.
Esta crise é financeira. Esta crise é também fruto das más políticas que há mais de 20 anos têm sido seguidas pelos nossos políticos, pelos políticos de carreira. E estes políticos de carreira têm rosto e têm assento no parlamento. A culpa de tudo isto recai em cada elemento que se senta naquelas bancadas, independentemente da cor política. Todos são responsáveis pelo estado a que nos conduziram. Não há um único elemento daquela casa que esteja livre de que qualquer cidadão lhes aponte o dedo e, mais, os responsabilize pelo estado e pelo momento em que vivemos. Foram os políticos que permitiram que as escolas de ensino superior proliferassem como cogumelos. Tudo em nome de mostrar à Europa números de licenciados. Se os cursos oferecidos têm ou não saídas profissionais, pouco importa. O importante era mostrar à Europa que éramos um país desenvolvido e «carregado» de licenciados. Os cursos médios transformaram-se rapidamente em licenciaturas. Exemplos: magistério primário e enfermeiros. Resultados atuais: desemprego. As universidades estão cheias de investigadores. É claro que é necessária a investigação, mas muitos optam por esta via, porque não têm outras saídas. Quantos engenheiros que se licenciaram em universidades prestigiadas só tiveram por opção a via do ensino? Resultado atual: o desemprego. Ainda há pouco tempo havia falta de professores de matemática. Agora há excedentes. 
Cada um de nós contribui com uma larga fatia do seu parco dinheiro para os impostos que vão encher a barriguinha dos políticos. Eles estão a ser pagos por nós. E o resultado é o estado atual. Consequência de anos e anos e anos de más políticas, opções erradas, cedências a grupos. Todas as capitais de distrito têm o seu instituto politécnico. Por quase todas as cidades portuguesas há um polo universitário. E todos ainda continuam abertos, continuam a receber alunos... Tenho a certeza, infelizmente, que todos os anos saem milhares de jovens daquelas instituições direitinhos ao centro de emprego para o desemprego! Porque é que não há coragem para fechar aquelas instituições durante uns anos de modo a permitir que o mercado de trabalho estabilize? Até há bem pouco tempo, no Porto não havia uma faculdade de direito pública. O ministério da educação cedeu, o Porto «ganhou» a sua reivindicação e agora tem a sua faculdade de direito pública. Todos os anos saem de lá dezenas de advogados que vão engrossar o número (de desempregados) de outras dezenas e dezenas que saem das faculdades de Lisboa (onde há duas faculdades de direito!), de Coimbra e de várias dezenas de faculdades de direito privadas!!!!!

Por hoje chega, com a certeza de que ainda hei de voltar a este assunto.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Olá, amigos do blogue

Penso que já podem comentar as mensagens que eu vou pondo aqui no meu espaço.
Li, há dias, que há quem esteja a fazer disto sua profissão. Em tempos de crise vale tudo. E porque não fazer disto uma profissão? Por isso, bora lá às visualizações, sim? :-)

Evangelho do dia

Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade. Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos. Procurava ver quem era Jesus, mas, devido à multidão, não podia vê-lo, porque era de pequena estatura. Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro, para ver Jesus, que havia de passar por ali. Quando Jesus chegou ao local, olhou para cima e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa.» Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria. Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo: «Foi hospedar-se em casa de um pecador.» Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao senhor, dizendo: «Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei qualquer prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais.» Disse-lhe Jesus: «Hoje entrou a salvação nesta casa, porque Zaqueu também é filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido.» (Lc 19,1-10)

A atitude de Zaqueu deve pôr-nos a pensar e até interpela o nosso modo de viver a fé. Zaqueu, homem rico e poderoso, era o chefe dos publicanos, deseja ver Jesus; por isso procura-O e como era de baixa estatura, sobe para uma árvore, porque assim tem a certeza de que O vai ver. Cria todas as condições para O poder encontrar. Não se intimida perante medos, opinião pública, receios e «recebe Jesus com alegria» e tal atitude até o leva a tomar decisões concretas e empenhadas.
E nós? Será que recebemos sempre Jesus na nossa casa com a mesma alegria? Será que envidamos todos os esforços só para vermos Jesus, tal como Zaqueu, também subimos a uma árvore e não nos importamos com os outros possam dizer de nós ou achar a nossa atitude tola e inútil? Quantas vezes Jesus está à porta da nossa casa (alma) e farta-se de bater... e nós, porque estamos tão preocupados e tão envolvidos nas nossas tarefas, nas nossas mesquinhices que nem ouvimos o chamamento de Jesus. 
Abramos a porta da nossa casa a tão ilustre hóspede sem medos, sem temores, sem receios, sem nos importarmos com aquilo que outros possam dizer e vivamos em comunhão com tal Hóspede, porque só Ele é capaz de nos dar a salvação que nos muda por completo o nosso coração, nos liberta das nossas mesquinhices; nos torna efetivamente livres e abertos aos outros.
Jesus veio ao mundo, fez-se pequenino, para nos trazer a salvação; salvar precisamente o que estava perdido, porque tal como Ele o disse: «Só os doentes necessitam de médico».
Estamos a aproximar-nos rapidamente do Advento, tempo de esperança. Período favorável para abrir as portas de par em par da nossa casa e recebermos Jesus com alegria, com fé e com muita esperança de que só Ele é capaz de mudar radicalmente a nossa vida.

«Deus da misericórdia e do carinho esmagador,
bendizemos-te porque na conversão de Zaqueu
deste provas de acreditar no homem apesar de tudo.
Nós classificamos facilmente os irmãos,
mas tu ofereces sempre uma segunda oportunidade.
Por isso o teu Reino pertence aos pobres e aos pecadores.

Neste dia convidas-nos a cada um de nós
a dar os frutos da nova justiça do Reino.
Faz que a brisa da tua ternura areje os nossos corações
com a esperança e o prazer do teu banquete de festa,
e concede-nos um lugar na tua mesa ao lado de Cristo. Ámen»
B. Caballero, A Palavra de cada Dia

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Santa do dia

A beata Isabel da Trindade é uma das santas que mais penetrou no mistério insondável da Santíssima Trindade. Nasceu em França, perto de Bruges, no dia 18 de julho de 1880. Educada na fé, desde criança que começou a manifestar os seus altos voos místicos para Deus, apesar do seu espírito vivo e turbulento. Aos 14 anos entregou-se, em segredo, a Deus, o qual ela conta: «Um dia, durante a ação de graças, senti-me terrivelmente levada a escolher Jesus como único Esposo e sem mais demoras uni-me a Ele pelo voto da castidade. Não nos dissemos nada, mas demo-nos um ao outro, amando-nos tão fortemente que a resolução de ser toda d'Ele tornou-se em mais ainda mais definitiva. O meu coração já não é livre porque o dei ao Senhor.»
Recebeu grande inspiração em Teresa de Lisieux (Santa Teresinha), especialmente no livro História de Uma Alma, a a exemplo de tão grande inspiradora, ponderou entrar no Carmelo. Porém a mãe opôs-se veementemente. Apesar de tal contrariedade, aos 21 anos entrou no Carmelo de Dijon, no dia 2 de agosto  de 1901, e em apenas cinco anos abismou-se totalmente no mistério trinitário, considerando-se «louvor da glória» de Deus.
A doença bateu-lhe à porta. Numa carta dirigida à mãe Isabel dizia-lhe que o Senhor a tinha marcado com o selo da sua cruz e ela sofre nela como se ela fosse «uma extensão da sua Paixão». Desejava chegar ao céu «transformada em Jesus Cristo Crucificado». O seu desejo era atrair as almas para «dentro» para o recolhimento e mantê-las nesse «silêncio interior» que é a única forma que permite a Deus imprimir-se nelas e transformá-las n'Ele. «Encontrei o céu sobre a terra, porque o Céu é Deus e Deus está na minha alma.»
O lado particular de Isabel da Trindade é que a santidade pode estar ao alcance de qualquer pessoa e não apenas dos religiosos. Daí que lança um apelo a todos os leigos que vivam também uma vida de santidade nas atividades de cada dia e que todas as suas tarefas sejam sempre «louvor da glória» de Deus.
Morreu no Carmelo de Dijon no dia 9 de novembro de 1906, com apenas 26 anos. As suas últimas palavras foram: «vou para a Luz, para o Amor, para a Vida».
Os seus escritos, tais como O Céu na Terra, Grandeza da Nossa Vocação, Último Retiro, Notas Íntimas, Deixa-te Amar e ainda cartas e poesias, onde está patente a profundidade da sua vida, continuam a ser forte alimento espiritual para muitas almas, convidando-as ao recolhimento e à intimidade com o mistério trinitário. Foi beatificada por João Paulo II, na festa de Cristo Rei (25 de novembro) em 1984.

«Ó meu Deus, Trindade que eu adoro

Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, para me estabelecer em Vós, imóvel e pacífica, como se já a minha alma estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar a minha paz, nem fazer-me sair de Vós, ó meu Imutável, mas que cada minuto me leve mais longe na profundeza do vosso Mistério. Pacificai a minha alma, fazei dela o vosso céu, vossa morada amada e o lugar do vosso repouso. Que nunca aí eu Vos deixe só, mas que esteja lá inteiramente, toda acordada em minha fé, perfeita adoradora, toda entregue à vossa ação criadora.
Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quereria ser uma esposa para o vosso coração, quereria cobrir-Vos de glória, quereria amar-Vos... até morrer de amor! Mas sinto a minha incapacidade e peço-Vos para me 'revestir de Vós mesmo', para identificar a minha alma com todos os movimentos de vossa alma, me submergir, me invadir, e Vos substituir a mim, a fim de que a minha vida não seja senão uma irradiação da vossa vida. Vinde a mim como Adorador, como Reparador e como Salvador. Ó Verbo eterno, Palavra do meu Deus, quero passar a minha vida a escutar-Vos, quero tornar-me inteiramente dócil ao vosso ensino, a fim de tudo aprender de Vós. Depois, por entre todas as noites, todos os vazios, todas as incapacidades, quero fixar-Vos sempre e permanecer sob a vossa grandiosa luz; ó meu Astro amado, fascinai-me para que já não possa mais sair da vossa irradiação.
Ó fogo consumidor, Espírito de amor, 'sobrevinde em mim', a fim que se faça na minha alma como uma encarnação do Verbo: que eu Lhe seja uma humanidade de acréscimo na qual Ele renove todo o seu Mistério. E Vós, ó Pai, inclinai-Vos para esta vossa pobre pequena criatura, 'cobri-a com a vossa sombra', não vede nela senão 'o Bem-amado no qual pusestes todas as vossas complacências'.
Ó meus Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade em que me perco, entrego-me a Vós como uma presa. Sepultai-Vos em mim, para que eu me sepulte em Vós, esperando ir contemplar na vossa luz o abismo das vossas grandezas.» Isabel da Trindade, Obras completas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ex corde

«O sentido da vida é o valor que dá valor a todas as coisas.» Ignacio Larrañaga

O tempo é irreversível. Não é possível voltar atrás no tempo, nem que seja por um minuto, um segundo. Logo, porque se pensa tanto no que já passou? Porque se está constantemente a referir o passado? Especialmente tudo o que correu mal? Tudo o que trouxe tristeza? Apenas serve para nos sentirmos ainda mais amargurados. Não vale a pena estarmos constantemente a dar murros contra a parede. Deixemos o passado no seu lugar. Aliás, se teimamos em recordar sempre o passado, apenas lhe estamos a dar vida; a dar vida a algo que nos faz sofrer, nos causa amargura e nos põe tristes. As fúrias do coração nada poderão fazer para o que sucedeu não tivesse sucedido. Então, para quê continuarmo-nos a lamentar sobre o passado? Olhemos sim para o presente. Aprendamos a gostar do momento presente, por muitas dificuldades que ele traga e esqueçamos o passado.

Três minutos de sabedoria

Devemos aprender a repousar a nossa mente. Uma mente cansada não pode pensar corretamente. Façamos um exercício mental de repouso: sentemo-nos durante 10 minutos e esvaziemos o nosso pensamento. Durante estes 10 minutos não pensamos em nada; deixamos o nosso pensamento divagar e assim conquistamos mais energia e mais vigor. Nada pior que um cérebro cansado, porque tolda o nosso pensamento. E este é a maior força criadora que existe.

Os maus conselhos devem imediatamente ser excluídos. Não aceitemos nem nos deixemos sugestionar por palavras de desânimo. Sempre existe uma saída para qualquer dificuldade, por mais difícil e complexa que nos pareça. 

Os  pensamentos positivos atraem energias positivas; os pensamentos negativos atraem energias negativas. Pensar sempre positivamente; deste modo conseguimos paz e prosperidade.

Evangelho do dia

Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, e não me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que  olharem comecem a fazer troça, dizendo: "Esse  começou a edificar, mas não foi capaz de concluir." E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo.» (Lc 14,25-33)

Seguir Jesus, ser seu discípulo, é exigente. Não basta o entusiasmo de um momento, porque para O seguir exige envolvimento total, liberdade de coração de tudo o que nos impede de segui-l'O. Nada nem ninguém se deve pôr entre nós e Deus. O que aqui está em causa não é que Deus seja ciumento à maneira humana de se sentir o ciúme, mas sim que se os laços familiares ou o apreço aos valores materiais não se sobreponham à entrega total a Deus, para sermos efetivamente verdadeiros discípulos de Jesus.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Evangelho do dia

Naquele tempo, disse Jesus a um dos principais fariseus, que o tinha convidado para uma refeição: «Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos». (Lc 14,12-14, da Bíblia dos Capuchinhos).

Jesus recorda-nos que não devemos construir as nossas relações de amizade com base na retribuição, ou assentes apenas na permuta, mas sim devemos estabelecer relações de amizade gratuitamente, com o objetivo de sermos úteis e de praticar a amizade simples, fraterna, generosa e sem qualquer tipo de interesses subjacentes.
Por isso devemos empenhar-nos em manter e acalentar relações de amizade no serviço aos outros, de forma gratuita, desinteressada e sem preferências de qualquer género, e sobretudo sem esperar nada em troca da nossa amizade. 


sábado, 3 de novembro de 2012

Cesário Verde

Disseram, os especialistas, que hoje se esperavam chuvas abundantes e ventos fortes. Pois por cá tudo calmo, tudo tranquilo. Vento, ausente; chuva, miúda. Nada mau.

Posto isto, para fim de tarde e a acompanhar um saboroso chazinho quente, porque a temperatura atmosférica assim convida, uns momentos de poesia de Cesário Verde. 
Morreu jovem, este nosso poeta, aos 31 anos em 19 de julho de 1886. Apenas era conhecido e admirado por um pequeno grupo de amigos e intectuais. Invariavelmente, só ficou conhecido e foi reconhecido no século seguinte, quando os críticos souberam discernir e valorizar a sua poesia, que era escrita apenas nas horas vagas, porque durante o dia trabalhava na loja de ferragens do pai. 
Será graças a este contacto com os trabalhadores, operários e artífices, homens do povo, calceteiros, carvoreiros, etc. que possivelmente permitiu que Cesário fosse um poeta extraordinário, porque dos seus versos respira uma Lisboa industrial, citadina, cosmopolita a par de uma «alma popular» a alma da classe operária, composta por homens e mulheres, que constituem um testemunho sugestivo da sua época. Mas Cesário não nos retrata apenas a sociedade trabalhadora lisboeta, descreve-nos os ambientes noturnos de boémia, a iluminação a gás, os teatros iluminados, as cervejarias, os becos, as tendas. Porém, a saúde de Cesário evoluiu e o poeta morre prematuramente. Todavia, os seus versos sobreviveram-lhe e chega mesmo a ser invocado por Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e recordado por Alberto Caeiro, outro dos heterónimos de Fernando Pessoa.
E agora partilho convosco este poeta extraordinário, mas que lamentavelmente tem andado muito esquecido

«Impossível

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos
Cor d'azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de croché.

Posso sentir-te em fogo, escandecida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entre-dormida,
Nas noites de verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu posso dar-te tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te conhaque,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande lotaria que passou,
Da boa, da espanhola.

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!»

Cesário Verde, O livro de Cesário Verde.

Ora digam lá, se fizerem o favor, se isto não é absolutamente atual?

Olá, amigos

Como já devem ter visto, no canto superior direito coloquei as minhas páginas favoritas. Convido todos os meus amigos a darem uma vistinha de olhos por elas, porque são muito interessantes, pelo menos é esta a minha opinião. Chamo particular atenção para a última que muito me ajudou a entender e perceber melhor a liturgia. A todos quanto estão interessados em aprofundar os seus conhecimentos, recomendo-a vivamente.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Dia de Todos os Fiéis Defuntos



Hino

«Nós te rogamos, Senhor,
Pelos irmãos que morreram
E à procura do teu rosto
À tua porta bateram.

Recebe-os junto de ti
Por tua grande bondade,
Teu amor os transfigure
Em divina claridade.

Pelo sangue que na Cruz
Por todos foi derramado,
Perdoa suas ofensas,
Purifica-os do pecado.

Lembra-te, Pai, que era frágil
O barro de que os fizeste.
Compadecido, recebe-os
Na tua glória celeste.

Os nosso rogos aceite
O teu coração paterno.
No esplendor da luz perpétua,
Dá-lhes o descanso eterno.»

De Vésperas, Liturgia das Horas.


«Vemos que também a morte pode ser lucro e ainda ser castigo. Por isso Paulo afirma: Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro. Que é Cristo, senão morte do corpo e espírito de vida? Morramos pois com Ele, para vivermos com Ele. Seja nosso exercício diário o amor da morte, a fim de que a nossa alma, pelo afastamento dos desejos corpóreos, aprenda a elevar-se para as alturas, onde o prazer terreno não pode chegar nem atraí-la a si, e assim receba a imagem da morte por não incorrer no castigo da morte. A lei da carne contradiz a lei do espírito e quer submetê-la à lei do erro. Qual será o remédio para isto? Quem me libertará do meu corpo mortal? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor.
Temos médico, apliquemos o remédio. O nosso remédio é a graça de Cristo, e o corpo mortal é o nosso próprio corpo. Por conseguinte, afastemo-nos do corpo para não nos afastarmos de Cristo. Embora vivamos no corpo, não sigamos o que é do corpo nem nos sujeitemos às exigências da natureza, mas prefiramos os dons da graça.
Que mais ainda? O Mundo foi resgatado pela morte de um só. Cristo podia não ter morrido, se quisesse; mas julgou que não devia fugir à morte, como se fosse inútil; antes, considerou-a como o melhor meio para nos salvar. A sua morte foi, portanto, a vida de todos. Recebemos o sinal sacramental da sua morte, anunciamos a sua morte na oração, proclamamos a sua morte na Eucaristia; a sua morte é vitória, é sacramento, é solenidade anual em todo o mundo.
Que diremos ainda da sua morte, depois de mostrarmos, com o exemplo divino, que só a morte conseguiu a imortalidade e se redimiu a si própria? Não devemos pois chorar a morte que é a causa da salvação universal; não devemos fugir à morte que o Filho de Deus não desprezou nem evitou.
Sem dúvida, a morte não fazia parte da natureza, mas tornou-se natural; porque Deus não instituiu a morte ao princípio, mas deu-a como remédio. Condenada pelo pecado a um trabalho contínuo e a lamentações insuportáveis, a vida dos homens começou a ser miserável. Deus teve de pôr fim a estes males, para que a morte restituísse o que a vida tinha perdido. Com efeito, a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça.
A nossa alma aspira a sair do estreito círculo desta vida, a libertar-se do peso deste corpo terreno e a caminhar para aquela assembleia eterna onde só chegam os santos, para aí cantar o louvor de Deus, como cantam, segundo a leitura profética, os celestes tocadores de cítara: Grandes e admiráveis são as vossas obras, Senhor Deus omnipotente; justos e verdadeiros são os vossos caminhos. ó Rei das nações. Quem não há de temer e glorificar o vosso nome? Porque só Vós sois santo, e todos os povos virão adorar-Vos. A nossa alma deseja partir deste mundo para contemplar as vossas núpcias eternas, ó Jesus, nas quais, por entre o cântico jubiloso de todos os eleitos, a Esposa é acompanhada da terra ao Céu -- a Vós acorrerão todos os homens -- já não sujeita ao mundo, mas unida ao Espírito.
Era isto que o santo David desejava, acima de tudo, contemplar e admirar, quando dizia: Uma só coisa peço ao Senhor, por ela anseio: habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para viver na alegria do Senhor.

Do livro de Santo Ambrósio, bispo, sobre a morte de seu irmão Sátiro, 2.ª leitura do Ofício de Leitura, da Liturgia das Horas.

Oração: Deus, Pai de misericórdia, escutai benignamente as nossas orações, para que, ao confessarmos a fé na ressurreição do vosso Filho, se confirme em nós a esperança da ressurreição dos vossos servos. Por Nosso Senhor.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Momentos de poesia

«Na capela

Na capela, perdida entre a folhagem,
O Cristo lá no fundo agonizava...
Oh! como intimamente se casava
Com minha dor a dor daquela imagem!

Filhos ambos do amor, igual miragem
Nos roçou pela fronte, que escaldava...
Igual traição, que o afeto mascarava,
Nos deu suplício às mãos da vilanagem...

E agora, ali, enquanto da floresta
A sombra se infiltrava lenta e mesta,
Vencidos ambos, mártires do fado,

Fitávamo-nos mudos -- dor igual! --
Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual
Mais pálido, mais triste e mais cansado...»

«A um crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: 'Há Deus!' e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eco o eco dos teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojaras de novo à campa os membros lassos...

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...

Agora, como então, viras o mundo exangue
E ouviras perguntar: 'De que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário?'»

Antero de Quental, Sonetos 

Dia de Todos os Santos


«Que aproveitam aos Santos o nosso louvor, a nossa glorificação e até esta mesma solenidade? Para quê tributar honras terrenas a quem o Pai celeste glorifica, segundo a promessa verdadeira do Filho? De que lhes servem os nossos panegíricos? Os Santos não precisam das nossas honras e nada podemos oferecer-lhes com a nossa devoção. Realmente, venerar a sua memória interessa-nos a nós e não a eles.
Por mim, confesso, com esta evocação sinto-me inflamado por um anelo veemente.
O primeiro desejo que a recordação dos Santos excita ou aumenta em nós é o de gozar da sua amável companhia, de merecermos ser concidadãos e comensais dos espíritos bem-aventurados, de sermos integrados na assembleia dos Patriarcas, na falange dos Profetas, no senado dos Apóstolos, no inumerável exército dos Mártires, na comunidade dos Confessores, nos coros das Virgens; enfim, de nos reunirmos e nos alegrarmos na comunhão de todos os Santos.
Aguarda-nos aquela Igreja dos primogénitos e nós ficamos insensíveis; desejam os Santos a nossa companhia e nós pouco nos importamos; esperam-nos os justos e nós parecemos indiferentes.
Despertemos, finalmente, irmãos. Ressuscitemos com Cristo, procuremos as coisas do alto, saboreemos as coisas do alto. Desejemos os que nos desejam, corramos para os que nos aguardam, preparemo-nos com as aspirações da nossa alma para entrar na presença daqueles que nos esperam. Não devemos apenas desejar a companhia dos Santos, mas também a sua felicidade, ambicionando com fervorosa diligência a glória daqueles por cuja presença suspiramos. Na verdade, esta ambição não é perniciosa, nem o desejo de tal glória é de modo algum perigoso.
Ao comemorarmos os Santos, um segundo desejo se inflama em nós: que tal como a eles, Cristo, nossa vida, Se nos manifeste também e que nos manifestemos também nós com Ele revestidos de glória. É que neste momento a nossa Cabeça revela-Se-nos não como é, mas como encarnou por nós, não coroada de glória, mas rodeada dos espinhos dos nossos pecados. Envergonhemo-nos de sermos membros tão requintados sob uma Cabeça coroada de espinhos, à qual por agora a púrpura não proporciona honras mas afronta. Chegará o momento da vinda de Cristo; e já não se anunciará a sua morte, para sabermos que também nós estamos mortos e que a nossa vida está escondida com Ele. Aparecerá a Cabeça gloriosa e com ela resplandecerão os membros glorificados, quando Ele transformar o nosso corpo mortal e o tornar semelhante ao corpo glorioso da Cabeça que é Ele mesmo.
Desejemos pois esta glória com total e segura ambição. Mas para podermos esperar tal glória e aspirar a tamanha felicidade, devemos desejar taambém ardentemente a intercessão dos Santos, a fim de nos ser concedido pelo seu patrocínio o que as nossas possibilidades não alcançam.»

Oração: O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de luz para O conhecerdes plenamente, e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória que encerra a sua herança entre os santos.

Dos Sermões de São Bernardo, abade, in Ofício de Leitura, Liturgia das Horas.

Provérbios

O diabo mora nos detalhes.