Disseram, os especialistas, que hoje se esperavam chuvas abundantes e ventos fortes. Pois por cá tudo calmo, tudo tranquilo. Vento, ausente; chuva, miúda. Nada mau.
Posto isto, para fim de tarde e a acompanhar um saboroso chazinho quente, porque a temperatura atmosférica assim convida, uns momentos de poesia de Cesário Verde.
Morreu jovem, este nosso poeta, aos 31 anos em 19 de julho de 1886. Apenas era conhecido e admirado por um pequeno grupo de amigos e intectuais. Invariavelmente, só ficou conhecido e foi reconhecido no século seguinte, quando os críticos souberam discernir e valorizar a sua poesia, que era escrita apenas nas horas vagas, porque durante o dia trabalhava na loja de ferragens do pai.
Será graças a este contacto com os trabalhadores, operários e artífices, homens do povo, calceteiros, carvoreiros, etc. que possivelmente permitiu que Cesário fosse um poeta extraordinário, porque dos seus versos respira uma Lisboa industrial, citadina, cosmopolita a par de uma «alma popular» a alma da classe operária, composta por homens e mulheres, que constituem um testemunho sugestivo da sua época. Mas Cesário não nos retrata apenas a sociedade trabalhadora lisboeta, descreve-nos os ambientes noturnos de boémia, a iluminação a gás, os teatros iluminados, as cervejarias, os becos, as tendas. Porém, a saúde de Cesário evoluiu e o poeta morre prematuramente. Todavia, os seus versos sobreviveram-lhe e chega mesmo a ser invocado por Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e recordado por Alberto Caeiro, outro dos heterónimos de Fernando Pessoa.
E agora partilho convosco este poeta extraordinário, mas que lamentavelmente tem andado muito esquecido
«Impossível
Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.
Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos
Cor d'azeitona escura.
Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de croché.
Posso sentir-te em fogo, escandecida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entre-dormida,
Nas noites de verão.
Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.
Eu posso dar-te tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te conhaque,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.
E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande lotaria que passou,
Da boa, da espanhola.
Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.
Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.
E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.
Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!
Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!»
Cesário Verde, O livro de Cesário Verde.
Ora digam lá, se fizerem o favor, se isto não é absolutamente atual?