«Na capela
Na capela, perdida entre a folhagem,
O Cristo lá no fundo agonizava...
Oh! como intimamente se casava
Com minha dor a dor daquela imagem!
Filhos ambos do amor, igual miragem
Nos roçou pela fronte, que escaldava...
Igual traição, que o afeto mascarava,
Nos deu suplício às mãos da vilanagem...
E agora, ali, enquanto da floresta
A sombra se infiltrava lenta e mesta,
Vencidos ambos, mártires do fado,
Fitávamo-nos mudos -- dor igual! --
Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual
Mais pálido, mais triste e mais cansado...»
«A um crucifixo
Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: 'Há Deus!' e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!
Porque morreu sem eco o eco dos teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojaras de novo à campa os membros lassos...
Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...
Agora, como então, viras o mundo exangue
E ouviras perguntar: 'De que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário?'»
Antero de Quental, Sonetos
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