quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Continuação do anterior

(Continuação)
Ficamos então desde o último poste no dia 16 de julho de 1942, no momento em que a família van Peels se junta à família Frank no refúgio do anexo, numa tentativa de escaparem à perseguição dos nazis aos judeus.  
No dia 12 de junho de 1942, o pai de Anne ofereceu-lhe um diário como prenda de aniversário. E Anne começa a escrever regularmente. Quando se escondem no anexo, Anne levou o seu diário para aí continuar a sua escrita. Nele escreveu todo o seu dia a dia no anexo e de todos os que ali viviam, os seus medos, as suas depressões, as discussões, as angústias, os problemas normais e sobremaneira conhecidos de qualquer miúda a atravessar a adolescência: as discussões com a mãe e com os outros elementos do anexo e a vivência do seu primeiro amor com o Peter van Pels, mas também as festas: Natal, Hanukkah, Ano Novo e os aniversários de cada habitante do anexo. No dia 16 de novembro de 1942 junta-se-lhes um outro judeu, dentista, e também alemão, Fritz Pfeffer.
Claro que para oito «mergulhados», era esta a designação na altura para todos os que se escondiam, era fundamental terem ajuda. E os que os ajudaram foram os funcionários da empresa: Miep Gies, uma secretária, Kugler, que chefiava os empregados do armazém, Kleiman, o diretor da empresa, e Bep Voskuijl, datilógrafa. Todos eles estavam ao corrente do segredo, bem como o marido de Miep Gies, Jan Gies, um ativista que se dedicava a ajudar «mergulhados». Eram eles que estavam encarregados de lhes trazer a comida, cadernos, livros, palavras de conforto e de alento, enfim durante mais de dois anos, Kleiman, Kugler, Bep, Miep e Jan tentaram dar ânimo aos seus amigos, incentivavam os dias festivos e nunca se esqueciam dos aniversários dos seus «protegidos». 
Relembro-vos que quando os «mergulhados» eram descobertos ou eram imediatamente mortos no local, ou rapidamente enviados para campos da morte. Os seus protetores não teriam melhor sorte, caso os nazis descobrissem o esconderijo. Ou eram também fuzilados ou enviados para campos de concentração. Mas, felizmente, os amigos destes oito «mergulhados» não temeram as represálias nem tão-pouco se deixaram intimidar pelo medo. Desde o dia 6 de julho de 1942 até 4 de agosto de 1944, ajudaram os seus amigos. 
A 4 de agosto de 1944 (a última entrada no diário de Anne é de três dias antes) a Gestapo invade o anexo, prende os oito «mergulhados» e juntamente com estes Kugler e Kleiman. Por um golpe de sorte, Miep e Bep não foram presas. 
É a partir deste dia que a tragédia se abate sobre todos os residentes do anexo. No dia 8 de agosto são enviados de comboio para o campo de concentração de Westerbork, na Holanda. Aí se mantêm os oito prisioneiros até ao dia 3 de setembro, dia em que são transferidos para Auschwitz. Só por curiosidade, este transporte foi o último que saiu da Holanda. Auschwitz, como todos sabem, era um campo da morte, de onde muito dificilmente se saiu de lá vivo. Mal saíram do comboio houve logo uma seleção: mulheres para a esquerda e homens para a direita. Depois desta primeira seleção, havia uma segunda: ou iam para a direita ou para a esquerda. Sendo este último lado sinónimo de morte, porque eram diretamente enviados para as câmaras de gás, velhos, crianças com menos de 15 anos e todos aqueles que aparentavam pouca saúde. Neste grupo encontrava-se Herman van Pels. Aos que ainda lhes foi concedida algum tempo de vida eram obrigados a despirem-se, os seus braços eram tatuados com um número, às mulheres rapavam-lhes o cabelo e era-lhes dado uma espécie de bata e uns tamancos.
A vida dos prisioneiros nos campos era terrível. Em qualquer momento pairava sobre cada um deles a ameaça das câmaras de gás ou então morriam de exaustão, ou de fome. As doenças espalhavam-se muito rapidamente devido à ausência de medicamentos e à falta de higiene.A sarna era vulgar entre todos os prisioneiros.
No dia 29 de outubro houve uma seleção no barracão onde estava Otto. Este e Peter escaparam, mas Pfeffer foi selecionado e colocado num transporte que o levou para o campo de Sachsenhausen. Daqui foi levado para o campo de concentração de Neuengamme, na Alemanha, acabando por morrer a 20 de dezembro de 1944.
No dia seguinte foi a vez do barracão das mulheres. Anne e a irmã Margot foram selecionadas e enviadas para o transporte que as levou para Bergen-Belsen. À medida que a guerra se aproximava do fim, os nazis iam ficando cada vez mais nervosos e o campo de Bergen-Belsen no último ano do conflito foi-se transformando num campo de extermínio. Não havia, efetivamente, câmaras de gás, mas as doenças e a fome tomaram tais proporções que as prisioneiras morriam aos milhares por dia. 
No dia 6 de janeiro de 1945, uns dias antes de os russos libertarem o campo, Edith morre em Auschwitz. A 16 de janeiro, Peter é levado pelos nazis na que ficou conhecida por marcha da morte para fora de Auschwitz. Morre em Mauthausen a 5 de maio de 1945. Três dias depois o campo foi libertado.
Em Bergen-Belsen, as duas irmãs reencontram a senhora van Pels e Anne e Margot encontraram lá também algumas amigas. A 6 de fevereiro de 1945, Auguste van Pels fazia parte de um grupo de prisioneiros que foram transferidos de Bergen-Belsen para Buchenwald. E aqui começa uma viagem alucinante para a infeliz Auguste: foi transferida novamente daqui para Theresienstadt e depois foi possivelmente para uma fábrica de aviões em Raguhn. Apenas se sabe que morreu pouco antes de 8 de maio de 1945 ou na Alemanha ou na Checoslováquia.
Enquanto isso, Anne e Margot definhavam de frio, de fome e de doença no campo de Bergen. O tifo foi uma doença que se espalhou muito rapidamente no campo As condições eram indescritíveis. Praticamente não havia água e os alimentos eram uma raridade. Margot caiu da tarimba e morreu. Anne após a morte da irmã não conseguiu resistir e acabou também por morrer em finais de março de 1945.
Dos oito «mergulhados» só o pai de Anne Frank é que sobreviveu. Quando chegou a Amesterdão começou numa procura desenfreada pelas filhas. No dia em que lhe foi dito que ambas tinham morrido, Miep Gies, que tinha escondido o diário de Anne após a detenção pela Gestapo, entrega-o a Otto. 
É precisamente nesse momento que o pai de Anne decide publicá-lo e mostrá-lo ao mundo, satisfazendo assim um desejo da filha mais nova que era ser escritora. E foi também nesse momento que começou uma nova «guerra» acerca da veracidade do diário. 
Por muitas buscas que eu possa fazer, por muito o que eu já tenha lido de que o diário é falso, não acredito. Há talentos naturais mesmo em crianças e apesar de estarmos perante uma, devido às circunstâncias, ela rapidamente se fez adulta. E acrescento mais uma coisa: li e reli ao longo de mais de 30 anos este diário, e leitura após leitura, apercebo-me de que a escrita da criança vai lentamente tornando-se a escrita de adulto. Em 2004 saiu pela primeira vez a versão definitiva e completa do diário. A diferença entre uma e outra é a seguinte: há entradas que no primeiro que eu li foram excluídas pelo pai, porque a filha fazia descrições pormenorizadas sobre si própria e algumas discussões virulentas com a mãe. Tirando estas poucas entradas censuradas tudo o resto é igual. Lembro que o livro foi publicado pela primeira vez nos anos 50 e a mentalidade da altura era totalmente diferente da de hoje. É natural que o pai tenha «censurado» algumas entradas. Estas não são nada escandalosas, mas revelam apenas os problemas de uma adolescente da época, que afinal são o espelho de qualquer adolescente indiferentemente da época em que vive: questões sobre si própria, os seus namorados e as questiúnculas com os progenitores. Claro que num espaço de liberdade, todos estes problemas rapidamente ficam sanados; mas uma garota de 13 anos, cheia de vida que gosta de festas, saídas com rapazes e com raparigas da sua idade, que aprecia e incentiva o flirte, que gosta de andar de bicicleta, de ir ao cinema, se vê obrigada a abandonar tudo isso e se mantém fechada durante mais de dois anos num anexo, sempre com as mesmas pessoas, com o medo constante a pairar sobre as suas cabeças de que em qualquer momento podem ser descobertos, que não pode abrir uma janela, nem dar um passeio, e a somar a tudo isto está a sua travessia pela adolescência, que qualquer um de nós sabe como pode ser problemática. Assim sendo, foi perfeitamente natural que os conflitos que teve com a mãe tivessem sido empolgados e aumentada a sua gravidade; as discussões que esta adolescente privada da sua liberdade teve com os restantes elementos do grupo são desagradáveis. Contudo, absolutamente compreensíveis.
Ela apenas se limitou a transpor para o papel as suas frustrações, a sua tristeza e a sua angústia, e claro, o seu amor pelo Peter. Na minha opinião por isso é que este livro é intemporal e também por essa razão cria tanto mal-estar em seu redor, especialmente em faixas xenófobas da nossa sociedade atual.
A tod@s os que ainda não leram o Diário de Anne Frank recomendo vivamente a leitura, porque não vão dar o tempo por perdido, pelo contrário. No final irão sentir o mesmo que eu senti quando o li pela primeira vez aos 10 anos de idade: tornei-me graças a ele uma pessoa diferente.

1 comentário:

O silêncio reparador disse...

Sim, o diário é fascinante e o curioso é que ainda continua a ser polémico :-))