terça-feira, 27 de novembro de 2012

Para um fim de noite

Para mim a poesia é sempre boa a qualquer hora do dia. É uma companhia fantástica em todos os momentos. Independentemente da minha disposição, quando abro ao acaso um livro de poesia encontro sempre uns versos que me alimentam a alma. Como é espetacular que nuns pequeninos versos se encontre tanta riqueza? Porque afinal ser poeta é...?

«Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
E seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!»

Florbela Espanca, Sonetos.

«Voz que se cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera, que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é infinito e é pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero destino!...»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II

E depois disto, há já muito pouco a acrescentar. Apenas desejo a todos uma noite descansada.
Até amanhã.

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