Falta pouco mais de um mês para o Natal. Ainda ontem ouvi no Telejornal a fazerem perguntas às pessoas e a comentarem que este Natal vai ser o mais poupado. Afinal o espírito de Natal não se mede, nem nunca se mediu, pela quantidade de presentes que colocamos debaixo da árvore; não se mede, nem nunca se mediu, por uma mesa farta ou menos farta. O espírito de Natal mede-se pelos afetos, pela amizade, pelos momentos em que passamos junto de pessoas que nos são queridas. Este é o espírito da quadra natalícia e não o espírito do consumo. Alguém houve que «inventou» o espírito do consumo chamando-lhe natal, desvirtuando totalmente a época festiva, esquecendo até o que estamos a celebrar. O Natal é festejado com luzes, árvores enfeitadas, sorrisos. Porque os sorrisos não nos custam dinheiro. Podem, claro, dizer que não há razões para os sorrisos, a vida está muito difícil e estamos perante uma crise sem precedentes. Concordo plenamente. Porém, os sorrisos são sempre benéficos à saúde. Por muito tristes que possamos estar devemos sempre sorrir: sorrir porque estamos vivos, sorrir porque aqueles que nós gostamos ainda estão vivos e estarmos vivos é bom; é melhor do que qualquer outra coisa. Viver e viver com qualidade não é sinónimo de riqueza financeira. Passaram-nos esta mensagem falaciosa e nós acreditámos. Não necessitamos de muito dinheiro para vivermos com qualidade.
Por tudo isto, estas palavras dirigem-se a tod@s que neste momento se sentem tristes, desanimados, sem vontade de enfeitar a casa com os artefactos de Natal (eu já coloquei os meus e todos os dias à noite ligo as luzes de Natal), sem vontade até de celebrar o Natal, porque estamos a viver uma crise sem precedentes. E é aqui que chegamos ao ponto que eu quero: vou colocar aqui um excelente poema de David Mourão-Ferreira intitulado «Ladainha dos póstumos Natais», porque o que verdadeiramente importa é passarmos um Natal, com a crise ou sem a crise, com aqueles que mais gostamos, partilhar a mesa da ceia com todos os que nos são queridos e aproveitar ao máximo a sua companhia enquanto habitamos neste mundo.
«Ladainha dos póstumos Natais
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que hão de me lembrar de modo menos nítido
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.»
David Mourão-Ferreira, Obra poética
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