A beata Isabel da Trindade é uma das santas que mais penetrou no mistério insondável da Santíssima Trindade. Nasceu em França, perto de Bruges, no dia 18 de julho de 1880. Educada na fé, desde criança que começou a manifestar os seus altos voos místicos para Deus, apesar do seu espírito vivo e turbulento. Aos 14 anos entregou-se, em segredo, a Deus, o qual ela conta: «Um dia, durante a ação de graças, senti-me terrivelmente levada a escolher Jesus como único Esposo e sem mais demoras uni-me a Ele pelo voto da castidade. Não nos dissemos nada, mas demo-nos um ao outro, amando-nos tão fortemente que a resolução de ser toda d'Ele tornou-se em mais ainda mais definitiva. O meu coração já não é livre porque o dei ao Senhor.»
Recebeu grande inspiração em Teresa de Lisieux (Santa Teresinha), especialmente no livro História de Uma Alma, a a exemplo de tão grande inspiradora, ponderou entrar no Carmelo. Porém a mãe opôs-se veementemente. Apesar de tal contrariedade, aos 21 anos entrou no Carmelo de Dijon, no dia 2 de agosto de 1901, e em apenas cinco anos abismou-se totalmente no mistério trinitário, considerando-se «louvor da glória» de Deus.
A doença bateu-lhe à porta. Numa carta dirigida à mãe Isabel dizia-lhe que o Senhor a tinha marcado com o selo da sua cruz e ela sofre nela como se ela fosse «uma extensão da sua Paixão». Desejava chegar ao céu «transformada em Jesus Cristo Crucificado». O seu desejo era atrair as almas para «dentro» para o recolhimento e mantê-las nesse «silêncio interior» que é a única forma que permite a Deus imprimir-se nelas e transformá-las n'Ele. «Encontrei o céu sobre a terra, porque o Céu é Deus e Deus está na minha alma.»
O lado particular de Isabel da Trindade é que a santidade pode estar ao alcance de qualquer pessoa e não apenas dos religiosos. Daí que lança um apelo a todos os leigos que vivam também uma vida de santidade nas atividades de cada dia e que todas as suas tarefas sejam sempre «louvor da glória» de Deus.
Morreu no Carmelo de Dijon no dia 9 de novembro de 1906, com apenas 26 anos. As suas últimas palavras foram: «vou para a Luz, para o Amor, para a Vida».
Os seus escritos, tais como O Céu na Terra, Grandeza da Nossa Vocação, Último Retiro, Notas Íntimas, Deixa-te Amar e ainda cartas e poesias, onde está patente a profundidade da sua vida, continuam a ser forte alimento espiritual para muitas almas, convidando-as ao recolhimento e à intimidade com o mistério trinitário. Foi beatificada por João Paulo II, na festa de Cristo Rei (25 de novembro) em 1984.
«Ó meu Deus, Trindade que eu adoro
Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, para me estabelecer em Vós, imóvel e pacífica, como se já a minha alma estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar a minha paz, nem fazer-me sair de Vós, ó meu Imutável, mas que cada minuto me leve mais longe na profundeza do vosso Mistério. Pacificai a minha alma, fazei dela o vosso céu, vossa morada amada e o lugar do vosso repouso. Que nunca aí eu Vos deixe só, mas que esteja lá inteiramente, toda acordada em minha fé, perfeita adoradora, toda entregue à vossa ação criadora.
Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quereria ser uma esposa para o vosso coração, quereria cobrir-Vos de glória, quereria amar-Vos... até morrer de amor! Mas sinto a minha incapacidade e peço-Vos para me 'revestir de Vós mesmo', para identificar a minha alma com todos os movimentos de vossa alma, me submergir, me invadir, e Vos substituir a mim, a fim de que a minha vida não seja senão uma irradiação da vossa vida. Vinde a mim como Adorador, como Reparador e como Salvador. Ó Verbo eterno, Palavra do meu Deus, quero passar a minha vida a escutar-Vos, quero tornar-me inteiramente dócil ao vosso ensino, a fim de tudo aprender de Vós. Depois, por entre todas as noites, todos os vazios, todas as incapacidades, quero fixar-Vos sempre e permanecer sob a vossa grandiosa luz; ó meu Astro amado, fascinai-me para que já não possa mais sair da vossa irradiação.
Ó fogo consumidor, Espírito de amor, 'sobrevinde em mim', a fim que se faça na minha alma como uma encarnação do Verbo: que eu Lhe seja uma humanidade de acréscimo na qual Ele renove todo o seu Mistério. E Vós, ó Pai, inclinai-Vos para esta vossa pobre pequena criatura, 'cobri-a com a vossa sombra', não vede nela senão 'o Bem-amado no qual pusestes todas as vossas complacências'.
Ó meus Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade em que me perco, entrego-me a Vós como uma presa. Sepultai-Vos em mim, para que eu me sepulte em Vós, esperando ir contemplar na vossa luz o abismo das vossas grandezas.» Isabel da Trindade, Obras completas.
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