A conversa é como as cerejas. E há pouco, quando escrevi sobre a Alemanha de 1933 é que me lembrei de que ainda não vos tinha falado de Anne Frank. Pois chegou agora o momento de vos narrar a curta vida desta menina que marcou a minha aos 10 anos, quando pela primeira vez li o seu diário.
Anne Frank nasceu a 12 de junho de 1929 em Frankfurt-am-Main, na Alemanha, no seio de uma família judaica de quatro costados, como na altura se dizia na gíria, e que significa que os quatro avós etinham ascendência judaica. Em 1933, após a ascensão de Hitler ao poder, o pai de Anne, um eminente negociante, decide partir para a Amesterdão, na Holanda, um país que na época tinha a fama de bem acolher as minorias religiosas. A Holanda na Primeira Guerra Mundial conseguiu manter a neutralidade, e o pai de Anne, Otto, acreditava que as tropas nazis não iriam invadir o seu país de acolhimento. Da mesma forma que Otto Frank pensou, foram milhares os judeus que abandonaram a Alemanha nazi e procuraram refúgio na tranquila Holanda. Porém, a 10 de maio de 1940 esta ilusão desfez-se. Os alemães ignoraram a neutralidade da Holanda e invadiram o seu território. Ao fim de cinco dias de combates, o estado holandês rendeu-se e a rainha Guilhermina exilou-se em Londres.
Rapidamente os nazis nomearam para comissário do Reich Artur Seyss-Inquart, um feroz antissemita. Desde logo começaram a sair uma série de progoms que começaram lentamente a transformar a vida dos judeus num inferno. Uma das primeiras medidas implantadas na Holanda foi tomada pela Gestapo que levou 385 crianças negras para o hospital para serem esterilizadas. Todos os judeus tiveram de se registar e nos seus passaportes foi carimbado a letra J.
Os nazis lançaram uma lei no dia 22 de outubro de 1940 que obrigava todos os proprietários de lojas e outras empresas a irem registar as suas empresas. Otto Frank na altura era o proprietário de uma empresa que fabricava ingredientes para compotas, a Opekta, que se situava na 263 da Prinsengracht. No dia seguinte Otto registou a sua empresa num outro nome. Ou seja, «arianizou», vocábulo muito vulgar na época, a sua empresa antes que esta fosse fechada pelos nazis.
No início do ano de 1941 os cinemas encerram as suas portas aos judeus. E a esta nova ordem outras se lhe seguiram: os judeus não podiam frequentar lugares públicos, jardins, transportes públicos, concertos, só podiam fazer as suas compras em lojas pertencentes a outros judeus; foram banidos de todos os cargos públicos, os estudantes judeus foram expulsos das universidades e as crianças foram obrigadas a saírem das escolas e começarem a frequentar apenas escolas judaicas. Os judeus não podiam visitar os «arianos» e vice-versa, bem como foram proibidos os casamentos «mistos» Foi-lhes imposto um rigoroso recolher obrigatório.
À medida que 1941 e 42 foi avançando, saíam cada vez mais decretos. Até que no dia 5 de julho de 1942 desaba sobre a família Frank a tragédia. Nesse dia Margot Frank, irmã mais velha de Anne, recebe uma convocatória ordenando que se apresentasse no dia seguinte no quartel das SS.
Otto era um homem previdente e já tinha um plano para o caso de que tal acontecesse: um refúgio para toda a família nas dependências das traseiras na sua empresa.
No dia 6 de julho de 1942, Otto, Edith (a mãe de Anne), Margot e a própria Anne mudam-se da sua casa na Merwedeplein para a Prinsengracht, para o anexo. No dia 16 de julho do mesmo ano, junta-se à família Frank uma outra família, os van Peels, um casal com um filho adolescente.
(continuação para mais tarde...)
1 comentário:
Extraordinária descrição. Parabéns
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