Nada melhor para terminar o dia que um momento de poesia com os nossos poetas.
«Sonhos
Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Quase se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que ao sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois vir a morte
Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
«Amor vivo
Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser -- e não só de beijos
Dados no ar -- delírios e desejos --
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?»
Antero de Quental, Sonetos.
«Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.»
Bocage, Antologia poética.
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terça-feira, 30 de outubro de 2012
Momentos de poesia
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Breve biografia de Antero de Quental
Antero de Quental nasceu em Ponta Delgada em 1842 no seio de uma família profundamente religiosa e muito culta. Em 1852, Antero frequentou o colégio em Ponta Delgada e três anos depois veio para o continente terminar os seus estudos. Aos dezasseis anos estava a frequentar o curso de direito na faculdade de Direito de Coimbra.
Este período para Antero foi extremamente profícuo em termos de leituras, dedicando-se à literatura realista e racionalista, lendo imensos livros que lhe chegavam de França. Fundou a Sociedade do Raio, uma espécie de agremiação secreta, perfilhou as ideias jacobinas e encabeçou a célebre Questão Coimbrã.
Quando terminou o curso de direito, partiu para São Miguel. Pouco tempo depois regressou ao continente e decidiu tomar contacto com o mundo do trabalho, para saber por experiência própria as dificuldades dos operários. Foi para Paris e durante seis meses exerceu a profissão de tipógrafo.
Quando regressou a Portugal, juntamente com Jaime Batalha Reis, transformou a sua casa no célebre Cenáculo, local de convívio de leitura e discussão de literatura europeia vanguardista. Foi durante este perído que Antero promoveu as conhecidas Conferências do Casino.
Partilhava fortemente do socialismo defendido por Proudhon e chegou a trabalhar na organização Fraternidade Operária, fundou um semanário e chegou mesmo a ter ideias para criar um partido político exclusivamente operário.
Em 1873, o pai de Antero morre e um ano depois é ele próprio que adoece. Depois de ter consultado muitos médicos, diagnosticaram-lhe histeria.
Decidiu retirar-se e viver como um eremita. Em 1881, instalou-se em Vila do Conde com as duas filhas do jornalista Germano Meireles, falecido em 1877, e a viúva deste.
Em 1885 morre a mãe das meninas e Antero decide internar as garotas nas Doroteias do Porto e mantém-se retirado no seu «ermitério».
Em 1890, aquando do ultimatum inglês, Antero abandona o seu retiro e preside à Liga Patriótica do Norte, tendo-se esta extinguido pouco tempo depois.
Entretanto as meninas já estavam crescidas e era imperioso tirá-las do instituto e iniciá-las e apresentá-las à sociedade.
Em 1891 Antero parte para os Açores a fim de deixar as meninas ao cuidado da sua irmã. Porém, a irmã de Antero recebe mal as garotas e este fica furioso chegando mesmo a dizer: «Isto ainda acaba com uma corda na garganta ou um tiro na cabeça.»
Finalmente, no dia 10 de setembro de 1891, consegue encontrar uma família que as recebeu. No dia seguinte, Antero de Quental vendo-se só e desamparado sentado num banco de jardim, deu um tiro na cabeça. Às nove horas da noite desse mesmo dia, Antero morre no hospital da Misericórdia de Ponta Delgada.
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