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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
A amizade vista pelos olhos e sentimento de Florbela Espanca
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Para um fim de noite
Para mim a poesia é sempre boa a qualquer hora do dia. É uma companhia fantástica em todos os momentos. Independentemente da minha disposição, quando abro ao acaso um livro de poesia encontro sempre uns versos que me alimentam a alma. Como é espetacular que nuns pequeninos versos se encontre tanta riqueza? Porque afinal ser poeta é...?
«Ser poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
E seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!»
Florbela Espanca, Sonetos.
«Voz que se cala
Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.
Amo a hera, que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.
Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é infinito e é pequenino!
Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero destino!...»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
E depois disto, há já muito pouco a acrescentar. Apenas desejo a todos uma noite descansada.
Até amanhã.
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Momento de poesia
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Momentos de poesia
Nada melhor para terminar o dia que um momento de poesia com os nossos poetas.
«Sonhos
Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Quase se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que ao sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois vir a morte
Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
«Amor vivo
Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser -- e não só de beijos
Dados no ar -- delírios e desejos --
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?»
Antero de Quental, Sonetos.
«Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.»
Bocage, Antologia poética.
«Sonhos
Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Quase se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que ao sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois vir a morte
Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
«Amor vivo
Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser -- e não só de beijos
Dados no ar -- delírios e desejos --
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?»
Antero de Quental, Sonetos.
«Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.»
Bocage, Antologia poética.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Momento de poesia
«Oração
Ó Deus, senhor da terra, omnipotente,
Senhor do vasto mar! Senhor do céu!
Atendei esta prece humilde e crente,
Ouvi-me por piedade, Senhor meu!
Olhai por todos que amam sua terra,
Guiai aqueles que amam Portugal,
Protegei os que andam pela guerra
A defender o seu torrão natal!
Lançai o vosso olhar de piedade
Por todos os que arrastam 'ma saudade
pela pátria distante, muito além!...
Consolai, ó meu Deus, os orfãozinhos,
As mães, as noivas e os que têm ninhos
Despedaçados pela guerra. Amém.»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
Ó Deus, senhor da terra, omnipotente,
Senhor do vasto mar! Senhor do céu!
Atendei esta prece humilde e crente,
Ouvi-me por piedade, Senhor meu!
Olhai por todos que amam sua terra,
Guiai aqueles que amam Portugal,
Protegei os que andam pela guerra
A defender o seu torrão natal!
Lançai o vosso olhar de piedade
Por todos os que arrastam 'ma saudade
pela pátria distante, muito além!...
Consolai, ó meu Deus, os orfãozinhos,
As mães, as noivas e os que têm ninhos
Despedaçados pela guerra. Amém.»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012
«Verdades cruéis
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã 'squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre oito dias!...»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã 'squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre oito dias!...»
Florbela Espanca, Obra poética, vol. II
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sábado, 22 de setembro de 2012
Loucura
«Afinal, quem é que tem a pretensão de não ser louca?... Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores do que o diabo!»
Florbela Espanca, Correspondência
Florbela Espanca, Correspondência
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Momento de poesia
Momento de poesia
A uma rapariga
«Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com as tuas mãos preciosas de menina.
Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!
Trata por tu a amis longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!
Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!...»
Florbela Espanca, Charneca em Flor, Sonetos
«Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com as tuas mãos preciosas de menina.
Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!
Trata por tu a amis longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!
Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!...»
Florbela Espanca, Charneca em Flor, Sonetos
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Momento de poesia
«Meu Portugal
Meu Portugal querido, minha terra
De risos e quimeras e canções,
Tens dentro de ti, esse teu peito encerra
Tudo que faz bater os corações!
Tens o fado. A canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na alma da guitarra aonde mora!
Tu tens, ó pátria minha, as raparigas
Mais frescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue!... Às vezes penso
Que tu és, pátria minha, branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo, ó pátria amada,
A beleza eterna, a arte, a poesia!...»
Florbela Espanca, Obra Poética, vol. II, Editorial Presença
Meu Portugal querido, minha terra
De risos e quimeras e canções,
Tens dentro de ti, esse teu peito encerra
Tudo que faz bater os corações!
Tens o fado. A canção triste e bendita
Que todos cantam pela vida fora;
O fado que dá vida e que palpita
Na alma da guitarra aonde mora!
Tu tens, ó pátria minha, as raparigas
Mais frescas, mais gentis do orbe imenso,
Tens os beijos, os risos, as cantigas
De seus lábios de sangue!... Às vezes penso
Que tu és, pátria minha, branca fada
Boa e linda que Deus sonhou um dia,
Para lançar no mundo, ó pátria amada,
A beleza eterna, a arte, a poesia!...»
Florbela Espanca, Obra Poética, vol. II, Editorial Presença
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quinta-feira, 23 de agosto de 2012
A Mulher
I
«Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimentos cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!
Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta; sê Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão de pisar-te!
Se às vezes fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;
E gritam então os vis: «olhem, vejam,
É aquela a infame!» e apedrejam
A pobrezita, a triste, a desgraçada!
II
Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!
Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!»
Florbela Espanca, Obra Poética, vol. II, Editorial Presença
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Momento de poesia
terça-feira, 21 de agosto de 2012
«Filhos
Filhos são as nossas almas,
Desabrochadas em flores,
Filhos estrelas caidas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilream
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aquenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p'los filhos seus!
Filhos! Na su'alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...»
Florbela Espanca, Obra Poética, vol. II, Editorial Presença
Filhos são as nossas almas,
Desabrochadas em flores,
Filhos estrelas caidas
No mundo das nossas dores!
Filhos, aves que chilream
No ninho do nosso amor,
Mensageiros da felicidade
Mandados pelo Senhor!
Filhos, sonhos adorados,
Beijos que nascem de risos;
Sol que aquenta e dá luz
E se desfaz em sorrisos!
Em todo o peito bendito
Criado pelo bom Deus,
Há uma alma de mãe
Que sofre p'los filhos seus!
Filhos! Na su'alma casta,
A nossa alma revive...
Eu sofro pelas saudades
Dos filhos que nunca tive!...»
Florbela Espanca, Obra Poética, vol. II, Editorial Presença
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Momento de poesia
Às mães de Portugal
«Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d'olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas,
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe da crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães, porque chorais?
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar,
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai a vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A pátria rouba os filhos, mas é mãe,
A mãe de todos nós.
Direito de a trair não tem ninguém,
Ó mães, nem sequer vós!»
Florbela Espanca, Obra Poética, vol. II, Editorial Presença
Este poema foi escrito em honra dos soldados portugueses que lutaram bravamente em terras de França durante a Primeira Guerra Mundial. Todavia, mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado)...
Misericordiosas,
Ó mães d'olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas,
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe da crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães, porque chorais?
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar,
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai a vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A pátria rouba os filhos, mas é mãe,
A mãe de todos nós.
Direito de a trair não tem ninguém,
Ó mães, nem sequer vós!»
Florbela Espanca, Obra Poética, vol. II, Editorial Presença
Este poema foi escrito em honra dos soldados portugueses que lutaram bravamente em terras de França durante a Primeira Guerra Mundial. Todavia, mutatis mutandis (mudando o que deve ser mudado)...
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domingo, 12 de agosto de 2012
Lágrimas ocultas
«Se me ponho a cismar em outra eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!»
Florbela Espanca, Sonetos
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!»
Florbela Espanca, Sonetos
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Noitinha
Olá amig@s, para este final de noite, nada melhor que mais um poema de Florbela Espanca alusivo à noite. Esta noite de sexta-feira com os termómetros a baterem mais de 24 ºC, pelo menos por aqui, de janela aberta, por onde entra uma brisa suave que traz até mim o canto das cigarras. Uma noite estival como esta encanta, dá-nos paz, enche-nos o coração de tranquilidade e pacatez.
«Noitinha
A noite sobre nós de debruçou...
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
É água dum gomil que se entornou...
Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora...
Flores do campo, humildes, mesmo agora,
A noite os olhos brandos lhes fechou...
Fumo beijando o colmo dos casais...
Serenidade idílica das fontes,
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...
Tranquilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...»
Florbela Espanca, Sonetos
«Noitinha
A noite sobre nós de debruçou...
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
É água dum gomil que se entornou...
Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora...
Flores do campo, humildes, mesmo agora,
A noite os olhos brandos lhes fechou...
Fumo beijando o colmo dos casais...
Serenidade idílica das fontes,
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...
Tranquilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...»
Florbela Espanca, Sonetos
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Florbela Espanca
Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa no dia 8 de dezembro de 1894. Em Évora concluiu o curso liceal com excelentes notas. De seguida matriculou-se na Faculdade de Direito de Lisboa. Foi neste período que começou a publicar os primeiros livros de versos.
Mulher de temperamento ardente, foi muito infeliz nas suas relações sentimentais, aliás facto bastante evidente nos seus poemas. De forma a ultrapasar os desgostos sentimentais fazia versos e tomava drogas. Morreu em Matosinhos a 7 de dezembro de 1930 e foi sepultada no dia em que deveria fazer 36 anos.
Numa carta Florbela escreve: «Não sei fazer mais nada a não ser versos; pensar em verso e sentir em verso».
A Vida
É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo «Pedro Sem»,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre eco de um lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia,
A gente esquece sempre o bem de um dia,
Que queres, meu amor, se é isto a vida!...
Florbela Espanca, Sonetos
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo «Pedro Sem»,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre eco de um lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia,
A gente esquece sempre o bem de um dia,
Que queres, meu amor, se é isto a vida!...
Florbela Espanca, Sonetos
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Eu
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Senhora de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca, Sonetos
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Senhora de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca, Sonetos
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