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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Balada da neve


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente,
e a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se houve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
-- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezinhos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
-- E cai no meu coração.

Augusto Gil, Luar de Janeiro.

A vida

«A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai;
a vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares,
uma após outra lançou,
a vida -- pena caída
da asa de ave ferida --
de vale em vale impelida
a vida o vento a levou!»

João de Deus, Campo de Flores.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Um Santo Natal

Desejo a todos os meus leitores um Santo e feliz Natal e como não poderia deixar de ser, os votos são acompanhados de uma poesia de David Mourão-Ferreira.

«Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acenda-se de novo o Presépio nas almas.
Acenda-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ladainha dos póstumos Natais


«Ladainha dos póstumos Natais

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que hão de me lembrar de modo menos nítido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.»

David Mourão-Ferreira, Obra poética

porque nunca é demais relembrar...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Para um fim de noite

Para mim a poesia é sempre boa a qualquer hora do dia. É uma companhia fantástica em todos os momentos. Independentemente da minha disposição, quando abro ao acaso um livro de poesia encontro sempre uns versos que me alimentam a alma. Como é espetacular que nuns pequeninos versos se encontre tanta riqueza? Porque afinal ser poeta é...?

«Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
E seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!»

Florbela Espanca, Sonetos.

«Voz que se cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera, que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é infinito e é pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero destino!...»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II

E depois disto, há já muito pouco a acrescentar. Apenas desejo a todos uma noite descansada.
Até amanhã.
Hoje estou voltada para a poesia...

«Senhor,
leva-me com Maria
à procura da casa de Isabel;

leva-me com Francisco
à procura dos pobres de Assis;

leva-me com Teresinha
para chegar mais longe a minha missão;

leva-me com a Outra Teresa
para vestir as mulheres de Calcutá;

leva-me com Nuno de Santa Maria
para enfrentar as vaidades;

leva-me com Tomás Moro
para denunciar a injustiça;

leva-me com o irmão Roger Schutz
para multiplicar aldeias Taizé;

leva-me com Jacinta e Francisco Marto
para acolher e contemplar o Reino;

leva-me ao hipermercado
para ver, nos que tudo têm na vida,
o escárnio de todas as nossas pobrezas.

Leva-me pelo caminho da humildade,
e encontrarei, como criança,
o colo da mãe
no coração de Deus.»

Frei Manuel Rito Dias, in Bíblica



Há de vir um Natal e será o primeiro

Falta pouco mais de um mês para o Natal. Ainda ontem ouvi no Telejornal a fazerem perguntas às pessoas e a comentarem que este Natal vai ser o mais poupado. Afinal o espírito de Natal não se mede, nem nunca se mediu, pela quantidade de presentes que colocamos debaixo da árvore; não se mede, nem nunca se mediu, por uma mesa farta ou menos farta. O espírito de Natal mede-se pelos afetos, pela amizade, pelos momentos em que passamos junto de pessoas que nos são queridas. Este é o espírito da quadra natalícia e não o espírito do consumo. Alguém houve que «inventou» o espírito do consumo chamando-lhe natal, desvirtuando totalmente a época festiva, esquecendo até o que estamos a celebrar. O Natal é festejado com luzes, árvores enfeitadas, sorrisos. Porque os sorrisos não nos custam dinheiro. Podem, claro, dizer que não há razões para os sorrisos, a vida está muito difícil e estamos perante uma crise sem precedentes. Concordo plenamente. Porém, os sorrisos são sempre benéficos à saúde. Por muito tristes que possamos estar devemos sempre sorrir: sorrir porque estamos vivos, sorrir porque aqueles que nós gostamos ainda estão vivos e estarmos vivos é bom; é melhor do que qualquer outra coisa. Viver e viver com qualidade não é sinónimo de riqueza financeira. Passaram-nos esta mensagem falaciosa e nós acreditámos. Não necessitamos de muito dinheiro para vivermos com qualidade. 
Por tudo isto, estas palavras dirigem-se a tod@s que neste momento se sentem tristes, desanimados, sem vontade de enfeitar a casa com os artefactos de Natal (eu já coloquei os meus e todos os dias à noite ligo as luzes de Natal), sem vontade até de celebrar o Natal, porque estamos a viver uma crise sem precedentes. E é aqui que chegamos ao ponto que eu quero: vou colocar aqui um excelente poema de David Mourão-Ferreira intitulado «Ladainha dos póstumos Natais», porque o que verdadeiramente importa é passarmos um Natal, com a crise ou sem a crise, com aqueles que mais gostamos, partilhar a mesa da ceia com todos os que nos são queridos e aproveitar ao máximo a sua companhia enquanto habitamos neste mundo.

«Ladainha dos póstumos Natais

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que hão de me lembrar de modo menos nítido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.»

David Mourão-Ferreira, Obra poética

Momento de poesia

Já há algum tempo que não posto um poema. Nada melhor antes do almoço que ler um poema, porque ele desperta os nossos sentidos.

«Glosa

Quem me roubou a minha dor antiga,
E só a vida me deixou por dor?
Quem, entre o incêndio da alma em que o ser periga,
Me deixou só no fogo e no torpor?

Quem fez a fantasia minha amiga,
Negando o fruto e emurchecendo a flor?
Ninguém ou o Fado, e a fantasia siga,
A seu infiel e irreal sabor...

Quem me dispôs para o que não pudesse?
Quem me fadou para o que não conheço
na teia do real que ninguém tece?

Quem me arrancou ao sonho que me odiava
E me deu só a vida em que me esqueço,
"Onde a minha saudade a cor se trava?"»

Fernando Pessoa, Poesia de Fernando Pessoa.

«Morre lentamente

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajeto,
quem não muda as marcas no supermercado,
quem não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir aos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte 
ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de o iniciar,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples ato de respirar.
Estejamos vivos, então!»

Martha Medeiros, poetisa brasileira. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Para um fim de noite



Pois cá estou eu novamente para vos contar como foi o meu jantar. As perninhas de frango estavam espetaculares e as batatinhas à moda do avô estavam divinas. Se há alguém que tenha curiosidade de saber como eu faço as batatinhas assadas à avô que me diga, ou me pergunte... :-)
Relativamente à importância do meu avô na minha vida, deixarei isso para uma outra altura porque neste momento não me apetece falar. Porém, posso afirmar que ele teve e tem um lugar de relevo e primordial na minha vida. Mas outros também tiveram e serão abordados aqui a seu devido tempo.

O meu avô ensinou-me a fazer umas batatinhas assadas extremamente saborosas. Um frango à maneira (dele claro), temperar uns bifes divinos. Enfim, tudo o que ele fazia era extremamente saboroso.
Mas também recordo uma massa simples de carne. Um esparguete partido grosseiramente acompanhado com carne que para mim ficou a imagem de algo mágico. Extremamente saboroso. 

Tenho saudades desses sabores...

Para um fim de dia

Tanto ontem como hoje, o dia mostrou-se cinzento e chuvoso. Uma combinação preocupante para quem tem um cãozito que adora sair e dar o seu passeio. Vem com o pelo molhado, a «cheirar a cão» e maldisposto, porque o passeio de quase uma hora diária se transformou nuns pobres 15 minutos. Para a próxima vez que eu arranjar um animal a minha escolha vai para o gato. Não necessita de ser passeado e faz todas as suas necessidades numa caixa. 
Haviam de ver a «cara» do meu cão, quando abro a porta e ele vê que está a chover! Volta para trás e só depois da minha insistência é que resolve sair. Afinal quem manda ainda é o ser humano!

Tirando este problema, gosto dos dias chuvosos. A água é fundamental à vida: animal e vegetal. E para quem passou muitos meses a olhar para um rio quase seco, esta aguinha que tem caído é uma bênção. Os dias cinzentos são bons para ficar em casa, enroscada no sofá e acender umas velas aromáticas e olhar através da janela e ver a chuva a cair nas vidraças.
Pois isto é o que eu gosto de fazer nos dias chuvosos, o que não quer dizer que o tenha feito hoje. Ontem fiz. Estive todo o dia a dormitar no sofá, com umas velinhas aromáticas acesas e a ver Mentes Criminosas. Hoje, decidi não preguiçar, mas sim trabalhar. E foi precisamente o que estive a fazer até agora. 

Neste momento estou a preparar o meu jantar: umas belas perninhas de frango assadas acompanhadas de umas batatinhas à moda do meu avô. Conhecem? Digo-lhes que são fabulosas. Pouco me importa o colesterol. Há dias e dias, e nuns faz-se dieta e preocupamo-nos com isso, noutros, não. Hoje estou nestes dias. Já liguei o forno e pela casa vai-se espalhando o cheirinho do assado. Também já acendi umas velas aromáticas.
Agora só falta pôr a mesa e ter o jantar cozinhado. Vou ter por companhia um quatro patas, porque quando lhe chegar o cheirinho a frango ao nariz, já sei que vai ficar ora estático, ora agitado, lançando-me olhares chamativos e, muitas vezes até, colocando as patinhas da frente na mesa...

O Natal está a chegar...

Já começa a «cheirar» a Natal. Por todos os centros comerciais e até já em algumas vilas e cidades já prevalece o espírito natalício, espelhado na iluminação. 
À semelhança do Natal anterior, neste Natal também vou elaborar os meus postais. 
Podem pensar: mas que ideia mais atrasada e fora de moda enviar ainda postais de Natal, se temos agora estas novas tecnologias em que podemos criar as nossas próprias imagens e enviá-las pelo correio eletrónico... Pois é! Mas eu gosto de sair das modas e fazer os meus próprios postais e enviá-los pelo correio. À moda antiga. Pena tenho eu de não ter o dom do desenho. Os meus postais manufaturados são do mais pueril que existe. Parecem saídos das mãos de uma criança de três anos! Enfim, nem todos somos dotados com os mesmos dons.
Quando fizer o primeiro, vou fotografá-lo e postá-lo aqui. Quando o virem, vão desatar às gargalhadas mas não me importo com isso. Sou pessoa de ideias fixas e sem preconceitos.
E este Natal vai ser especial, porque vai ser o primeiro que tenho um blogue. E um blogue serve para partilhar tudo quanto nos vem à cabeça e até o nosso dia a dia, e partilhar convosco os meus postalitos pueris e originais também faz parte. 

Também já estou a planear uns trabalhos de croché para oferecer a amig@s. Já tenho umas ideias de uns saquinhos interessantes. Neste trabalho manual sou eficiente!

E agora vou preparar o meu almocinho porque já vai sendo horas e o estômago já reclama...

sábado, 3 de novembro de 2012

Cesário Verde

Disseram, os especialistas, que hoje se esperavam chuvas abundantes e ventos fortes. Pois por cá tudo calmo, tudo tranquilo. Vento, ausente; chuva, miúda. Nada mau.

Posto isto, para fim de tarde e a acompanhar um saboroso chazinho quente, porque a temperatura atmosférica assim convida, uns momentos de poesia de Cesário Verde. 
Morreu jovem, este nosso poeta, aos 31 anos em 19 de julho de 1886. Apenas era conhecido e admirado por um pequeno grupo de amigos e intectuais. Invariavelmente, só ficou conhecido e foi reconhecido no século seguinte, quando os críticos souberam discernir e valorizar a sua poesia, que era escrita apenas nas horas vagas, porque durante o dia trabalhava na loja de ferragens do pai. 
Será graças a este contacto com os trabalhadores, operários e artífices, homens do povo, calceteiros, carvoreiros, etc. que possivelmente permitiu que Cesário fosse um poeta extraordinário, porque dos seus versos respira uma Lisboa industrial, citadina, cosmopolita a par de uma «alma popular» a alma da classe operária, composta por homens e mulheres, que constituem um testemunho sugestivo da sua época. Mas Cesário não nos retrata apenas a sociedade trabalhadora lisboeta, descreve-nos os ambientes noturnos de boémia, a iluminação a gás, os teatros iluminados, as cervejarias, os becos, as tendas. Porém, a saúde de Cesário evoluiu e o poeta morre prematuramente. Todavia, os seus versos sobreviveram-lhe e chega mesmo a ser invocado por Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e recordado por Alberto Caeiro, outro dos heterónimos de Fernando Pessoa.
E agora partilho convosco este poeta extraordinário, mas que lamentavelmente tem andado muito esquecido

«Impossível

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham, com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos
Cor d'azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de croché.

Posso sentir-te em fogo, escandecida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entre-dormida,
Nas noites de verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu posso dar-te tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te conhaque,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque.

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande lotaria que passou,
Da boa, da espanhola.

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá nessa é que eu não caio!»

Cesário Verde, O livro de Cesário Verde.

Ora digam lá, se fizerem o favor, se isto não é absolutamente atual?

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Momentos de poesia

«Na capela

Na capela, perdida entre a folhagem,
O Cristo lá no fundo agonizava...
Oh! como intimamente se casava
Com minha dor a dor daquela imagem!

Filhos ambos do amor, igual miragem
Nos roçou pela fronte, que escaldava...
Igual traição, que o afeto mascarava,
Nos deu suplício às mãos da vilanagem...

E agora, ali, enquanto da floresta
A sombra se infiltrava lenta e mesta,
Vencidos ambos, mártires do fado,

Fitávamo-nos mudos -- dor igual! --
Nem, dos dois, saberei dizer-vos qual
Mais pálido, mais triste e mais cansado...»

«A um crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: 'Há Deus!' e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Porque morreu sem eco o eco dos teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojaras de novo à campa os membros lassos...

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...

Agora, como então, viras o mundo exangue
E ouviras perguntar: 'De que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário?'»

Antero de Quental, Sonetos 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Momentos de poesia

Nada melhor para terminar o dia que um momento de poesia com os nossos poetas.

«Sonhos

Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Quase se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que ao sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...

Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois vir a morte

Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II

«Amor vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser -- e não só de beijos
Dados no ar -- delírios e desejos --
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?»

Antero de Quental, Sonetos.

«Sentimentos de contrição e arrependimento da vida passada

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana:

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos:

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.»

Bocage, Antologia poética.




sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Camões

«Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero sempre que seja celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dua outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.»

Luís de Camões, Lírica.


«O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha e a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar a minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora,

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.»

Idem.

Momento de poesia

«Salmo

Esperemos em Deus! Ele há tomado
Em suas mãos a massa inerte e fria
Da matéria impotente e, num só dia,
Luz, movimento, ação, tudo lhe há dado.

Ele, ao mais pobre de alma, há tributado
Desvelo e amor: ele conduz à via
Segura quem lhe foge e se extravia,
Quem pela noite andava desgarrado.

E a mim, que aspiro a ele, a mim, que o amo,
Que anseio por mais vida e maior brilho,
Há de negar-me o termo deste anseio?

Buscou quem o não quis: e amim, que o chamo,
Há de fugir-me, como a ingrato filho?
Ó Deus, meu pai e abrigo! espero!... eu creio!»

Antero de Quental, Sonetos

Momento de poesia

«O meu céu

Para suportar o exílio do vale de lágrimas
Preciso de olhar do meu Divino Salvador
Esse olhar cheio de amor revelou-me os seus encantos
Fez-me pressentir a felicidade celeste.
O meu Jesus sorri-me quando suspiro por Ele.
Então já não sinto a provação da fé
O olhar do meu Deus, o seu encantador sorriso
Eis o meu céu!...

O emu céu é poder atrair sobre as almas
Sobre a Igreja minha mãe e sobre todas as minhas irmãs
As graças de Jesus e as suas divinas chamas
Que sabem abrasar e alegrar os corações.
Posso tudo alcançar quando em segredo
Falo a sós com o meu divino Rei
Esta doce oração juntinho do santuário
Eis o meu céu!...

O meu céu está oculto na hóstia pequenina
Onde Jesus, meu Esposo, se esconde por amor
A este fogo divino eu vou buscar a vida
E nele o meu Salvador ouve-me noite e dia.
'Oh! que feliz instante quando na tua ternura
Vens, meu Bem-amado, transformar-me em Ti'
Esta união de amor, esta inevitável loucura
Eis o meu céu!...

O meu céu é sentir em mim semelhança
Do Deus que me criou com o seu sopro poderoso
O meu céu é ficar sempre na sua presença
Chamar-Lhe meu Pai e ser sua filha
Nos seus braços divinos, não receio a tempestade
O total abandono é a minha ínica lei.
Dormitar no seu coração, bem junto do seu rosto
Eis o meu céu!...»

Santa Teresinha do Menino Jesus, Obra Completa.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Alguns momentos de poesia

«Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva --
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão --
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.»

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, Poemas


«Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se eu morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.»

Idem.

«Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não terá nada mais simples.
Tem só duas datas -- a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.

Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.»

Idem.



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

«Fosse eu apenas, não sei onde nem como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu doirado assomo...

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloríola com ter
A árvore do meu uso o único pomo...

Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...»

Fernando Pessoa, Poesias

Momento de poesia

«Oração

Ó Deus, senhor da terra, omnipotente,
Senhor do vasto mar! Senhor do céu!
Atendei esta prece humilde e crente,
Ouvi-me por piedade, Senhor meu!

Olhai por todos que amam sua terra,
Guiai aqueles que amam Portugal,
Protegei os que andam pela guerra
A defender o seu torrão natal!

Lançai o vosso olhar de piedade
Por todos os que arrastam 'ma saudade
pela pátria distante, muito além!...

Consolai, ó meu Deus, os orfãozinhos,
As mães, as noivas e os que têm ninhos
Despedaçados pela guerra. Amém.»

Florbela Espanca, Obra poética, vol. II