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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Beira Alta

Serras dobradas sobre serras, pequenos vales escondidos em desfiladeiros abruptos e as aldeias geralmente negras de lousa e curvadas de pequenas culturas; de onde em onde um plató mais airoso que deixa ver à distância as lombas azuladas -- e é a Beira serrana. Lá dentro, o beirão é um homem resoluto e andarilho, trepador da serra a pé ou a lombo de garrano, ora afeito à doçura dos vales dos socalcos que, pelo sopé do Caramulo e a faixa da Bairrada, estabelecem transição com a zona portuguesa da costa, ora habituado às alturas da serra da Estrela e às plataformas da raia castelhana.
O coração da província pulsa esparso e tranquilo, tão depressa na Guarda e na sua região de vilas acasteladas e pecuárias -- Belmonte, Almeida, Gouveia, Manteigas, Sertã --, como na velha Viseu da lenda do Viriato, e no seu duplo alfoz de Lamego ao Alto Paiva e das suas vilas vinhateiras e lenhosas do vale do Dão: Nelas, Santa Comba Dão, Mangualde. Os xistos lamelados alternam na construção com os granitos lavrados dos solares de Viseu e de Tondela.
A expressão da terra é ao mesmo tempo áspera e suavizada. As penhas redondas do Alto Dão, onde o próprio pinheiro parece vegetar a custo, cedem a largos oásis férteis e bem regados. A amendoeira algarvia tem a sua réplica e o seu émulo em Figueira de castelo Rodrigo.
Assim, a Beira Alta é o cerne de Portugal, a sua região interior a que os ventos do Atlântico ainda levam um pouco de frescura e humidade. Os rebanhos compactos descem dos Hermínios aos vales que o outono de todo em todo não crestou, e então o pastor de surrão e manta às costas traz até quase ao litoral a nota de uma humanidade de um pouco de pão duro e azeitonas com um trago da ordenha da manhã. os centros beirões conhecem uma civilização velhíssima que a energia hidroelétrica arrancada às quedas serranas vai industrializando e iluminando.
Em Viseu passeamos entre solares vetuscos e podemos ver da melhor pintura quinhentista em museus bem ordenados. Há estâncias de cura e repouso ao longo do vale do Dão, vida e ar puro em toda a parte. Tocando a leste o páramo castelhano, na planura de Almeida, a oeste as terras baixas e irrigadas e ao sul os calmos pinhais, estremenhos, que ondulam no sentido do mar, a Beira Alta é Portugal velho legítimo, Portugal de raiz.




Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Minho

Terra de verdura e de névoa; terra sem osso -- chamou Miguel de Unamuno, espanhol nosso amigo, ao Minho e à Galiza. Mas os ossos que faltam à terra húmida e fértil sobram ao homem próvido. O Minho é a província da pobreza seivosa e lameiros quase humanos. Ali, a gente e a terra fundem-se numa harmonia profunda e sofrida. A vida é dura mas alegremente levada. O cabaneiro agarra-se com igual denodo à soga dos bois, ao sacho do milho regadio e à tesoura de podar. No dia de festa do santuário larga tudo pela maceta do bombo ou pelo fole da gaita céltica. De Barcelos a Viana e de Braga a Monção estrugem foguetes de arraial, os caminhos enfeitam-se da saia barrada de Afife e dos peitos constelados de cordões.

As romarias afamadas ainda são sensivelmente as mesmas do tempo de Pai Soares de Taveirós e de el-rei D. Dinis, num cordão de ermidinhas que levam São Torcato ao endireito de Compostela, entre os milharais e as latadas. A um lado Viana do Castelo com os veleiros e solares; -- a outro, Guimarães com a Colegiada de Mumadona e a igrejinha de São Miguel onde levaram a batizar o primeiro rei português; a outro, ainda, Braga com a bênção de São Martinho de Dume, apóstolo do reino suevo, a espessura do Bom Jesus e as ruas canónicas e pausadas.
A literatura abusou talvez um pouco do pitoresco de uma terra que não é só logradoiro de lavradeiras clientes das ourivesarias de Gondomar, porque é também a leiva em que não cabem todos e que, assim, vai encaminhando o seu povo, de saquitel e tamancos às costas, para o caminho incerto e duro da emigração. Mas o minhoto de Santo Tirso, de Famalicão e de Barcelos não quer mal à terra apertada a que voltará um dia com a certeza de espaço para a velhice e a morte. A densidade da vizinhança ensina-lhe uma regra de convívio temperada de prudência e bonomia. É festeiro na hora da festa e bom braço nos dias de labuta. pescador em Âncora e Viana, é boieiro à porta do estábulo, serrano nas alturas de Barroso, vinhateiro e hortelão das chedas um pouco por toda a parte. Ourives nas abas do Porto, as suas mãos calosas do carro do milho e da aduela do pipo do verdasco chamuscam-se da pólvora pirotécnica do arraial, empastam-se do barro de Barcelos, falquejam as imagens de Braga e o cavername dos barcos de Vila do Conde e de Póvoa de Varzim.
O senhor abade e o fidaurgo da quinta dos vales do Lima, do Minho e do Vez ainda são seus oráculos: sempre, porém, ouvidos com o íntimo sentimento de que cada um no seu lugar cuida de si mesmo -- e bonda... Com isto, a paz da honesta abundância ainda conhece bucólicas como a do quinchoso de Alvapenha do romance de Júlio Dinis. Os cães ladram nas testeiras das quintas, são mesmo de má cara em Castro Laboreiro, mas o almocreve vai passando, como passa a roga e o rancho de Zé Pereira. De Ponte de Lima a Caminha e Monção vai havendo lugar para todos, uma malga de caldo verde, um naco de broa e às vezes uma caneca em que crepita o verdasco. Quando o não há, o minhoto toma pacatamente um paquete no porto de Leixões e espera-lhe pela volta com uma confiança inabalável. Portugal não fica arredondado sem ele.

Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Homenagem ao Porto

-- O Porto! -- dizia ela. -- Então mas o senhor já viu terra mais linda e gente mais séria?
Devo confessar ter-lhe respondido que a respeito de boniteza havia visto melhor, mas quanto a seriedade, concordei. E acrescento agora que só quem de todo quiser negar as evidências e apagar o facho de gerações e gerações, é que pode deixar de combater para que esta terra não continue a ser o reduto das nossas velhas virtudes, das quais é certamente a mais perdida a que D. João de Castro sabia que se chamava honradez.
A velha e, hoje, para muitos, ridícula cena das barbas, lá nas terras onde só coisas dessas nos fizeram grandes, não vem aqui ao acaso, nem por simples motivo de expressão. Vem porque se emoldura justamente neste caixilho sólido de castanho velho, e porque quero tirar dela o significado profundo que ela tem.
O indivíduo que põe num cabelo seu o valor de todo o resto de si, é um homem perfeito. Da cabeça aos pés, passando pela alma, a sua unidade não tem fendas, e joga como um bloco maciço. É uma força invencível. Ora se por graça da sorte o cabelo transpõe, e em vez de ser um pelo da cara passa a ser uma cidade inteira, então o perfeito torna-se sublime, e nós temos esta coisa única e reveladora: o cidadão do Porto, o homem português mais livre, mais humano, mais responsável e mais uno que a nossa pátria deu.
Formado na escola do trabalho remunerado, da solidariedade correspondida, da liberdade conquistada e dos direitos adquiridos, o filho desta terra, das origens até agora, foi sempre ao mesmo tempo ímpar e ubíquo na história de Portugal.
À semelhança do antigo vice-rei, que não era daqui mas podia ter sido, cada filho do Porto soube sempre dar o Porto por penhor dos seus atos. Dá-lo e remi-lo honradamente.
Toda a forma serena e acabada de uma expressão é um classicismo imortal. Nas sociedades, como na arte, esses estados atingem-se de vez em quando, e são marcos padrões de uma graça por que a vida se esforça. Na história portuguesa, os mais altos momentos, não do nosso génio, mas da nossa plenitude atingida, foram aqui. Uma saudável consciência gregária, uma solidez de processos de conduta e relação, deram a este aglomerado humano foros de única grande cidade castiçamente nossa. Deram-lhe isto a que eu chamo o classicismo social português.
O próprio mar, que sempre se lhe negou, mantendo-se renitentemente indócil a todas as solicitações, afastando a cidade da grande epopeia de Lisboa, a tornou mais nossa, mais nacional, agrária e comercial no telúrico e íntimo destino que nos esperava.
A aventura das descobertas foi um espasmo onde a seiva minhota, transmontana e beiroa entrou sem convicção. Por isso o Porto mandou à façanha do infante de Sagres e Pêro Vaz de Caminha, seus filhos, um para empurrar as naus, outro para dar notícias da chegada delas ao Brasil, e como mãe tinha cumprido o seu dever, longe do feito, continuou o seu labor de capital terrosa e barrosã de Portugal. Bem sei que há Ceuta, onde o Porto deu tudo. Mas uma coisa é um gesto, e outra uma obstinação.
Não é que ter ido à Índia tire a Lisboa significação e sentido. Pudéssemos nós ir às Índias deste tempo!
Chão humoso nas nossas caseiras virtudes e defeitos, Porto de Portugal e não da Europa ou do mundo, quem como eu faz persistentemente e incansavelmente o trajeto espectral da nossa pátria, há de por força senti-lo tal e qual como eu, embalado numa toalha velha e diligente de socos a roer granito -- é Portugal por uma pena. São as fragas da Estrela a dar centeio, as de Barroso a dar batata, e o milho as do Gerês. É uma existência arrancada a uma courela onde tudo cresce em dor.
Até no ritmo de progredir, na maneira formal de realização, eu julgo ver o Porto com mais caráter português. Um certo cortar em largo, em medida exagerada às nossas forças, em estilo de embaixada de D. Manuel e de convento de Mafra, com um pouco de mais bom senso, claro está, tem aqui a sua morada. Sem mesmo faltar depois a nossa costumada renúncia, sentimental na sua aparência e tragicamente fatal no seu fundo. O tal ímpeto desmedido vai por aí acima num rompante de Avenida dos Aliados; mas para daí a pouco, embasbacado diante da Igreja da Trindade.
Eu não cuido de saber neste momento se sim ou não se devem levar todas as avenidas ao fim. Quero apenas oferecer à meditação dos portugueses, sobretudo aos do Porto, esta parábola contemporânea.

Miguel Torga, O Porto