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domingo, 23 de dezembro de 2012

Um Santo Natal

Desejo a todos os meus leitores um Santo e feliz Natal e como não poderia deixar de ser, os votos são acompanhados de uma poesia de David Mourão-Ferreira.

«Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acenda-se de novo o Presépio nas almas.
Acenda-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ladainha dos póstumos Natais


«Ladainha dos póstumos Natais

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que hão de me lembrar de modo menos nítido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.»

David Mourão-Ferreira, Obra poética

porque nunca é demais relembrar...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Há de vir um Natal e será o primeiro

Falta pouco mais de um mês para o Natal. Ainda ontem ouvi no Telejornal a fazerem perguntas às pessoas e a comentarem que este Natal vai ser o mais poupado. Afinal o espírito de Natal não se mede, nem nunca se mediu, pela quantidade de presentes que colocamos debaixo da árvore; não se mede, nem nunca se mediu, por uma mesa farta ou menos farta. O espírito de Natal mede-se pelos afetos, pela amizade, pelos momentos em que passamos junto de pessoas que nos são queridas. Este é o espírito da quadra natalícia e não o espírito do consumo. Alguém houve que «inventou» o espírito do consumo chamando-lhe natal, desvirtuando totalmente a época festiva, esquecendo até o que estamos a celebrar. O Natal é festejado com luzes, árvores enfeitadas, sorrisos. Porque os sorrisos não nos custam dinheiro. Podem, claro, dizer que não há razões para os sorrisos, a vida está muito difícil e estamos perante uma crise sem precedentes. Concordo plenamente. Porém, os sorrisos são sempre benéficos à saúde. Por muito tristes que possamos estar devemos sempre sorrir: sorrir porque estamos vivos, sorrir porque aqueles que nós gostamos ainda estão vivos e estarmos vivos é bom; é melhor do que qualquer outra coisa. Viver e viver com qualidade não é sinónimo de riqueza financeira. Passaram-nos esta mensagem falaciosa e nós acreditámos. Não necessitamos de muito dinheiro para vivermos com qualidade. 
Por tudo isto, estas palavras dirigem-se a tod@s que neste momento se sentem tristes, desanimados, sem vontade de enfeitar a casa com os artefactos de Natal (eu já coloquei os meus e todos os dias à noite ligo as luzes de Natal), sem vontade até de celebrar o Natal, porque estamos a viver uma crise sem precedentes. E é aqui que chegamos ao ponto que eu quero: vou colocar aqui um excelente poema de David Mourão-Ferreira intitulado «Ladainha dos póstumos Natais», porque o que verdadeiramente importa é passarmos um Natal, com a crise ou sem a crise, com aqueles que mais gostamos, partilhar a mesa da ceia com todos os que nos são queridos e aproveitar ao máximo a sua companhia enquanto habitamos neste mundo.

«Ladainha dos póstumos Natais

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que hão de me lembrar de modo menos nítido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito.»

David Mourão-Ferreira, Obra poética

sábado, 22 de setembro de 2012

Casas caiadas

«Por entre casas caiadas
de luar e de silêncio,
paira no meio da estrada
a poeira de outros tempos...

Por entre casas caiadas,
mas com desgraça por dentro
(ó varandas enfeitadas
com trepadeiras de vento!),

algumas desmanteladas,
de apodrecidas empenas
(todavia nos telhados
antenas e cataventos...),

por entre casas caiadas,
por entre casas (Silêncio,
que ronda o medo na estrada
em automóveis cinzentos!)

há jorros de luz salgada,
há torrentes de veneno...

E dentro daquelas casas
quando foi que morremos?»

David Mourão-Ferreira, Obra Poética

sábado, 15 de setembro de 2012

Momento de poesia

Écloga em tempo de guerra

(...)
«Sob céus de primavera,
por entre olivais de prata,
seguimos... e quem nos dera
que a nossa febre esquecera
quem de nós nos arrebata!
Não são 'stranhos que tememos.
Bem sabemos
quem nos mata.

Que destino tão errado,
o que haviam de me impor!
Pastor a soldo forçado
de um gado que não é gado,
nem precisa de pastor!
E vamos!, vidas marcadas
p'las espadas
do terror.

(...)
Se o dia há de ser de luta,
que a noite não tenha fim!
Ao menos, quem quer desfruta
a placidez impoluta
de um primitivo jardim.
E se mais nos não concedem,
se é esse o preço que pedem,
seja assim!»
David Mourão-Ferreira, Obra poética, Editorial Presença, 1988.