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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vá, já chega de vos «massacrar» com o tema livros. Agora chegou a vez de vos «massacrar» com as particularidades da língua portuguesa escrita e falada.

O Facebook é uma rede social que mostra bem o quanto as pessoas escrevem mal, com erros ortográficos (e não estou a referir-me ao acordo ortográfico, bem pelo contrário ele veio até reduzir os erros). Para mim, tão sensível à ortografia, dá-me dores na alma quando leio o que os outros escrevem! A cada palavra escrita, é erro garantido. É claro que este reparo nada tem e nem pretende ser insultuoso, pelo contrário. É apenas um reparo e uma constatação de que não sei bem o que os responsáveis pela disciplina de língua portuguesa andam a fazer.

Nos meus tempos de escola primária, e não só, era-nos pedido que fizéssemos todos os dias uma cópia. Mas uma cópia de um texto grande e não de duas ou três linhas. Está cientificamente provado que a nossa memória visual é excelente e ao fazermos cópias, o nosso cérebro lentamente e sem grande esforço vai memorizando as palavras e a forma como elas se escrevem. A somar à cópia, havia o ditado. Outra forma de treino de escrita sem erros. Claro que não aprovo as sanções que nos eram impostas caso déssemos cinco erros... eu cheguei a levar duas palmatórias porque dei num ditado cinco erros! Mas com sanções à parte, porque não há agora o incentivo do passado nas cópias e ditados? Eram tarefas para serem feitas na escola mas levávamos também como trabalho de casa.

Posto isto, que é apenas um aparte, vou hoje falar de uma particularidade da língua portuguesa em relação às cores.

Dou como exemplo o azul-escuro.

Azul-escuro é uma palavra composta, logo entra no grupo das chamadas cores compostas, ou seja, os elementos das cores ligam-se sempre por hífen..
Neste caso particular que estamos a estudar, o azul-escuro pode assumir duas funções: substantiva ou adjetiva, e varia conforme a função que estiver a assumir.
Assim, se estivermos perante a função substantiva, isto é, se a palavra estiver na posição de substantivo, tipo: "O azul-escuro é muito bonito e elegante" faz o plural assim: "Os azuis-escuros são muito bonitos e elegantes". E quando está na função de substantivo usa-se sempre no masculino do singular ou plural. 
Exemplos: o amarelo-claro, os amarelos-claros; o azul-claro, os azuis-claros, etc.

Porém se a nossa amiga cor composta estiver a exercer a função de adjetivo, o caso muda de figura!
Exemplo no singular: 1. "O casaco azul-escuro da Maria Luísa é lindíssimo." Mas se estivermos perante uma frase no plural: 2. "Os sofás azul-escuros da Maria Luísa são lindíssimos." 

Conseguem aperceber-se das diferenças? E porquê estas diferenças? Porque o segundo elemento é também um adjetivo (escuro) e por isso concorda em género e número com o substantivo (no caso em estudo em 1 temos um substantivo no singular e no caso 2 no plural, ambos são substantivos masculinos).

E se estivermos perante substantivos femininos? De que forma se grafam as cores compostas?

Pois bem, grafam-se sempre em concordância com o chefe que é o substantivo quem manda. Assim, 3. "A saia azul-escura da Maria Luísa é lindíssima"; substantivo feminino do singular.
4. "As botas azul-escuras da Maria Luísa são lindíssimas", substantivo feminino do plural.

Resta por fim acrescentar que esta regra se estende a todas as cores compostas: amarelo-vivo; azul-claro. verde-escuro, etc.


Mais uma particularidade da língua. Até à próxima!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A classificação das palavras (continuação)

Ora vamos continuar com a classificação das palavras.

As palavras da língua portuguesa, quanto à forma, distribuem-se em dois grandes grupos: variáveis ou flexíveis e as invariáveis ou inflexíveis.
Dentro do primeiro grupo estão os nomes, adjetivos, verbos, numerais, determinantes, pronomes.
No segundo grupo estão os advérbios, preposições, conjunções e interjeições.

O nome: representa coisas, seres, estados ou qualidades. É precedido por quantificadores ou determinantes e é flexionável em número (singular e plural), género (masculino e feminino) e grau (aumentativo ou diminutivo). Exemplos de nomes: casa (singular+feminino); muitas casas (plural+feminino); este caderno (singular+masculino); estes cadernos (plural+masculino), a árvore (singular+feminino); o ódio (singular+masculino); a alegria (singular+feminino.
Quanto ao grau -- aumentativo: casarão; muitos casarões; este cadernão; etc.
Diminutivo: casinha; caderninho; etc.

O adjetivo: é uma palavra variável em número, género e grau. É geralmente um modificador do nome. Exemplos: casa linda (telhados lindos); cão preto (cadela preta); homem alto (mulher alta). Como veem neste exemplos os adjetivos acompanham o o número e o género do nome.
Relativamente ao grau dos adjetivos: variam entre normal, comparativo e superlativo.
Grau normal: a casa é linda.
Grau comparativo: de superioridade: O João é mais alto que a Maria.
                              de igualdade: A tulipa é tão bonita como a rosa.
                              de inferioridade: A prata é menos valiosa que o ouro.
Grau superlativo: absoluto sintético: O João é altíssimo.
                           absoluto analítico: O computador é muito rápido.
Grau superlativo relativo de superioridade: A Inês é a mais bonita das irmãs.
                         relativo de inferioridade: A Rute é a menos comilona das irmãs.

Os numerais: dividem-se em cardinais, ordinais e proporcionais.
O numeral cardinal determina o número exato das pessoas, animais ou coisas: sete livros, duas raparigas.
Os numerais ordinais: mostram a ordem, o lugar numérico que as pessoas, animais ou coisas ocupam numa série: dezembro é o décimo segundo mês do ano. Ele passou agora o segundo corredor.
Os numerais proporcionais exprimem a multiplicidade ou fração numérica dos seres e por isso dividem-se em multiplicativos: duplo, triplo, quadruplo, etc. E em partitivos: um meio, um terço, um quarto.

Os determinantes: são vários.
Determinante artigo definido: distingue o grau de especificidade do nome, com o qual concorda sempre em género e número. Exemplo: a casa, o telefone; as casas, os telefones.
Determinante artigo indefinido: é o que denota que nos referimos indeterminadamente a uma pessoa, a um animal, a uma coisa, uma ação ou um estado, entre diversos da mesma espécie. Exemplo: Comprei uns livros; um mal-estar geral, uma dor de cabeça, uma filha do médico, uns rapazes da escola, umas raparigas da escola. Etc.
Determinante demonstrativo: é variável em género e número e influencia o nome que o precede, atribuindo-lhe valor de proximidade ou afastamento no tempo ou no espaço. Exemplo: este caderno, esta mesa, aquele carro, aquela revista, esse jornal, essas cadeiras.
Determinante possessivo: variável em pessoa, género e número e influencia o nome que o precede, atribuindo-lhe valor de posse: As tuas roupas, o meu carro, os meus amigos. Etc.
Determinante indefinido: variável em género e número, e indicam as pessoas, coisas, animais ou qualidades de um modo muito vago e indeterminado. Exemplos: um certo rapaz veio perguntar por ti. Alguns alunos faltaram ao teste. Todos os dias tomo o pequeno-almoço. Alguém bateu à porta. Etc.
Determinante relativo: são os que se referem a uma palavra (nome ou pronome) ou sentido anteriormente mencionado e serve para ligar duas afirmações. Exemplo: O senhor cujo carro foi assaltado é meu vizinho. Perdi a caneta que me deste.

Os pronomes pessoais: são usados para se referir aos participantes do discurso, isto é são os que no discurso representam as três pessoas gramaticais: primeira pessoa (eu; nós); segunda pessoa (tu; vós); terceira pessoa (ele(a); eles(as))


Continua...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Continuando...

Ora, continuando a nossa explicação pelo mundo da gramática portuguesa vamos agora referirmos ao vocábulo «ministro».

O vocábulo provém do étimo ministru, que deriva do adjetivo de origem latina minister, tra, trum, um adjetivo da 1.ª classe, que significa «que serve», «que ajuda». Com o passar dos tempos o vocábulo evoluiu e tomou significados que estão bastante afastados do significado inicial. Como todos podemos verificar, o inocente e modesto vocábulo que tinha na sua origem «o que serve» evoluiu para «o que se serve»; «o que ajuda» evoluiu para «o que trama e o que se ajuda apenas a si próprio».

As particularidades de uma língua em permanente evolução...


A classificação das palavras

As palavras estabelecem relações entre si, tal como as pessoas estabelecem amizades e travam diálogos umas com as outras.
As relações estabelecidas entre as palavras situam-se ao nível do som (fonética) e ao nível do grafismo e ao nível semântico.
Assim, as palavras podem classificar-se homónimas, homófonas, homógrafas, parónimas e sinónimas.

Palavras homónimas: são classificadas assim todas as palavras que têm significados diferentes mas que se escrevem da mesma maneira.
Amo (forma do verbo amar) -- amo (patrão); rio (curso de água) -- rio (forma do verbo rir); dó (piedade) -- dó (nota musical); etc.

Palavras homófonas: são classificadas assim todas as palavras que têm significados distintos, grafias distintas mas são pronunciadas da mesma forma.
Acento (sinal ortográfico) -- assento (lugar onde nos sentamos); conserto (arranjo ou forma do verbo consertar) -- concerto (espetáculo musical); cem (quantificador numeral) -- sem (preposição que designa ausência); etc.

Palavras homógrafas: são classificadas deste modo todas as palavras com grafias iguais mas com significados diferentes e são pronunciadas de forma distinta.
Alívio (diminuição de dor) -- alivio (forma do verbo aliviar); governo (administração) -- governo (forma do verbo governar); hábito (costume, vestimenta) -- habito (forma do verbo habitar); etc.

Palavras parónimas: são classificadas desta forma todas as palavras que são pronunciadas e grafadas de forma parecida mas com significados diferentes.
Cumprimento (saudação) -- comprimento (medida longitudinal); discrição (qualidade de quem é reservado) -- descrição (enumeração); etc.

Palavras sinónimas: são classificadas desta forma quando existe coincidência de significado entre palavras diferentes. Como exemplo destas palavras temos todo um dicionário de sinónimos. Mas deixamos aqui alguns exemplos: alegria tem como sinónimo -- prazer; habitar tem como sinónimo morar, etc.

Falta ainda classificar as palavras como antónimas que são aquelas cujo significado é diametralmente oposto: claro (escuro); branco (preto); quente (frio); noite (dia); etc.

A polissemia é a propriedade que uma palavra tem de possuir diversas significações mediante o contexto em que aparece. Assim e dando como exemplo o substantivo «operação» que mediante o contexto pode assumir diferentes significados.
Assim: conduzir uma operação (estratégia militar); fazer uma operação (uma cirurgia); resolver uma operação (fazer um cálculo mental); lançar uma operação publicitária; etc.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Falando de literatura

É curioso que tendo dado a conhecer tanta poesia neste espaço que  O Cantinho da Carmen ainda não tenha explicado o que é a poesia, o que é a prosa e como ambas se podem interligar. Pois agora vamos tentar, sucintamente, passar uma vista de olhos neste assunto.

Se apenas nos limitarmos a ter em conta o aspeto externo de uma linha em verso de uma outra em prosa rapidamente nos damos conta das diferenças. Todavia não nos podemos quedar apenas neste aspeto, porque há necessidade de analisarmos a linguagem sob dois níveis: o do conteúdo (semântico) e o nível da expressão (fónico).
Poesia e prosa quase que se podem colocar em campos opostos. A primeira pode ser considerada um desvio de natureza estética, enquanto que a segunda é a expressão da linguagem corrente e normal. 
A poesia que aqui tem sido mostrada situamo-la na chamada poesia integral. Isto é, contém uma linguagem conotativa e metafórica, próxima da música pelo ritmo, e apenas lhe interessa o aspeto artístico.Os signos linguísticos são de forte cunho conotativo, ricos de sentido e de emoção. Mas também podemos encontrar estes signos linguísticos na chamada prosa poética, bastante evidenciada por exemplo em Vergílio Ferreira, em que o mundo do não eu é-nos apresentado em linguagem com características bem ritmadas e ricos de emoção poética, o que muito a aproxima da sua «irmã» poesia.
Dentro da prosa ainda temos mais estilos: a prosa literária e a não literária. Na primeira os signos selecionados não evidenciam qualquer emoção poética. Porém são escolhidos cuidadosamente de forma a mostrar clareza, naturalidade, originalidade. Na prosa não literária os signos mostram a ausência total de emoção poética. Como exemplos concretos de prosa literária podemos encontrá-la nos romances e nos livros de Oliveira Martins, que tem uma forma extraordinária e rica de apresentar os signos linguísticos na descrição de vários episódios da história.
Na prosa não literária temos exemplos nos livros técnicos, em que os signos linguísticos são exclusivamente denotativos, pobres de conteúdo semântico.

Chegados a este ponto, estarão vocês assim a pensar: Tudo muito bem, mas o que é a semântica, signo, denotação, conotação?

Passemos então a explicar de forma simples.
A semântica é uma ciência que estuda a significação das palavras no tempo e no espaço. Divide-se em dois constituintes: o semantema e o morfema.
Gato define-se como um substantivo comum masculino do singular. Pode ser desmontado em semantema (gat) e morfema (o). O semantema é a parte propriamente significativa da palavra e o morfema é o que lhe dá a forma, isto é, o que lhe empresta a categoria de substantivo comum masculino do singular. Exemplo: 
gata. A mudança de morfema do para o classifica a palavra já como pertencente ao género feminino.

A noção denotação é constituída pelo significado real, objetivo e lógico. A conotação, pelo contrário, é constituída pelo seu conteúdo afetivo, emocional e expressivo.
Exemplos:
Denotação: O incêndio por fim dava tréguas e recuava, deixando um rasto de cinzas atrás de si.
Conotação: Necessito de me afastar para pôr as ideias em ordem de modo a apagar o incêndio que se instalou no meu coração.
Noite -- denota o espaço entre o pôr do sol e o nascer do sol; conota em determinado contexto dor e tristeza. 
Vermelho -- denota cor; conota perigo em certos contextos e também fações políticas.
E muitos mais exemplos há.
Signo -- designação vulgar a qualquer objeto, forma ou fenómeno que nos remete de imediato para algo diferente de si mesmo. Exemplo: a balança que nos remete de imediato não para o utensílio que serve para pesar algo, mas sim símbolo da justiça. Cruz -- que nos remete de imediato para o cristianismo e não para aquelas cruzinhas que colocamos nos jogos da Santa Casa.