terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Balada da neve


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente,
e a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se houve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
-- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!


Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezinhos de criança...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
-- E cai no meu coração.

Augusto Gil, Luar de Janeiro.

A vida

«A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai;
a vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares,
uma após outra lançou,
a vida -- pena caída
da asa de ave ferida --
de vale em vale impelida
a vida o vento a levou!»

João de Deus, Campo de Flores.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Homenagem ao Porto

-- O Porto! -- dizia ela. -- Então mas o senhor já viu terra mais linda e gente mais séria?
Devo confessar ter-lhe respondido que a respeito de boniteza havia visto melhor, mas quanto a seriedade, concordei. E acrescento agora que só quem de todo quiser negar as evidências e apagar o facho de gerações e gerações, é que pode deixar de combater para que esta terra não continue a ser o reduto das nossas velhas virtudes, das quais é certamente a mais perdida a que D. João de Castro sabia que se chamava honradez.
A velha e, hoje, para muitos, ridícula cena das barbas, lá nas terras onde só coisas dessas nos fizeram grandes, não vem aqui ao acaso, nem por simples motivo de expressão. Vem porque se emoldura justamente neste caixilho sólido de castanho velho, e porque quero tirar dela o significado profundo que ela tem.
O indivíduo que põe num cabelo seu o valor de todo o resto de si, é um homem perfeito. Da cabeça aos pés, passando pela alma, a sua unidade não tem fendas, e joga como um bloco maciço. É uma força invencível. Ora se por graça da sorte o cabelo transpõe, e em vez de ser um pelo da cara passa a ser uma cidade inteira, então o perfeito torna-se sublime, e nós temos esta coisa única e reveladora: o cidadão do Porto, o homem português mais livre, mais humano, mais responsável e mais uno que a nossa pátria deu.
Formado na escola do trabalho remunerado, da solidariedade correspondida, da liberdade conquistada e dos direitos adquiridos, o filho desta terra, das origens até agora, foi sempre ao mesmo tempo ímpar e ubíquo na história de Portugal.
À semelhança do antigo vice-rei, que não era daqui mas podia ter sido, cada filho do Porto soube sempre dar o Porto por penhor dos seus atos. Dá-lo e remi-lo honradamente.
Toda a forma serena e acabada de uma expressão é um classicismo imortal. Nas sociedades, como na arte, esses estados atingem-se de vez em quando, e são marcos padrões de uma graça por que a vida se esforça. Na história portuguesa, os mais altos momentos, não do nosso génio, mas da nossa plenitude atingida, foram aqui. Uma saudável consciência gregária, uma solidez de processos de conduta e relação, deram a este aglomerado humano foros de única grande cidade castiçamente nossa. Deram-lhe isto a que eu chamo o classicismo social português.
O próprio mar, que sempre se lhe negou, mantendo-se renitentemente indócil a todas as solicitações, afastando a cidade da grande epopeia de Lisboa, a tornou mais nossa, mais nacional, agrária e comercial no telúrico e íntimo destino que nos esperava.
A aventura das descobertas foi um espasmo onde a seiva minhota, transmontana e beiroa entrou sem convicção. Por isso o Porto mandou à façanha do infante de Sagres e Pêro Vaz de Caminha, seus filhos, um para empurrar as naus, outro para dar notícias da chegada delas ao Brasil, e como mãe tinha cumprido o seu dever, longe do feito, continuou o seu labor de capital terrosa e barrosã de Portugal. Bem sei que há Ceuta, onde o Porto deu tudo. Mas uma coisa é um gesto, e outra uma obstinação.
Não é que ter ido à Índia tire a Lisboa significação e sentido. Pudéssemos nós ir às Índias deste tempo!
Chão humoso nas nossas caseiras virtudes e defeitos, Porto de Portugal e não da Europa ou do mundo, quem como eu faz persistentemente e incansavelmente o trajeto espectral da nossa pátria, há de por força senti-lo tal e qual como eu, embalado numa toalha velha e diligente de socos a roer granito -- é Portugal por uma pena. São as fragas da Estrela a dar centeio, as de Barroso a dar batata, e o milho as do Gerês. É uma existência arrancada a uma courela onde tudo cresce em dor.
Até no ritmo de progredir, na maneira formal de realização, eu julgo ver o Porto com mais caráter português. Um certo cortar em largo, em medida exagerada às nossas forças, em estilo de embaixada de D. Manuel e de convento de Mafra, com um pouco de mais bom senso, claro está, tem aqui a sua morada. Sem mesmo faltar depois a nossa costumada renúncia, sentimental na sua aparência e tragicamente fatal no seu fundo. O tal ímpeto desmedido vai por aí acima num rompante de Avenida dos Aliados; mas para daí a pouco, embasbacado diante da Igreja da Trindade.
Eu não cuido de saber neste momento se sim ou não se devem levar todas as avenidas ao fim. Quero apenas oferecer à meditação dos portugueses, sobretudo aos do Porto, esta parábola contemporânea.

Miguel Torga, O Porto

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012


«Ó Alma Portuguesa, agora exulta;
E, num protesto ousado,
repele a ignara gente que te insulta,
Clamando: "Povo exausto e infortunado,
Que existe apenas pelo seu passado!"
Dizê-lo deixarás sem que o desmintas?
Queres tu num sarcófago de gelo
Dormir, sonhando com ações extintas?...
Não; tu hás de viver; e ardendo em zelo,
Lutar com o mau destino até vencê-lo!
Que te falta? Valor? Não; esperança!
Em ti própria não crês; vagas aflita,
Na indecisão estranha que te irrita,
E em pensamentos lúgubres te lança...
Mas a esperança ressuscita!
Não muda a raça, embora o tempo mude.
Em ti, alma serena,
O génio não morreu, nem a virtude;
Inda nas mãos da lusa juventude
Podem caber charrua, espada e pena...
Alma complexa, que o valor guerreiro
Conduziu muito além da Taprobana;
E que exprimir soubeste, na profana
Graça dos fados e do Romanceiro,
A tua lírica emoção humana;
Alma suave e pia,
Alma candente e heroica,
Leal no intento, simples na energia,
No sofrimento resignada e estoica,
Doce no amor e na melancolia;
Eia, arranca de ti o manto escuro
Dessa austera, apagada e vil tristeza;
E tendo o Gama audaz por palinuro,
Vai conquistar as Índias do futuro,
Ó Alma Portuguesa!»

Magalhães Azevedo, Língua Pátria

domingo, 23 de dezembro de 2012

Um Santo Natal

Desejo a todos os meus leitores um Santo e feliz Natal e como não poderia deixar de ser, os votos são acompanhados de uma poesia de David Mourão-Ferreira.

«Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acenda-se de novo o Presépio nas almas.
Acenda-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Ora, ora, ora

Ora bolas, afinal não houve fim do mundo! Óooooooo! Continua tudo igual ao dia de ontem: o primeiro-ministro ainda lá está e mais o superministro e mais o ministro das finanças, a troika e tudo o resto! Que pena. Ehehehehehe!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Brincando

Dizem que o mundo vai terminar amanhã. Apenas deixarei aqui umas palavras de que gostei imenso de partilhar o meu espaço convosco. E se isso acontecer estou como o José Rodrigues dos Santos o disse hoje no fim do telejornal: manter-me-ei no meu posto e relatarei tudo em direto.
Como nada disto vai acontecer, apenas pretendi partilhar convosco um pouco de bom humor. É que. sabem, não dava jeito nenhum o mundo acabar amanhã!

Posto isto despeço-me com amizade e vemo-nos amanhã, sim?.