Nesta tarde, cinzenta e fria, tenho por companhia um lume bem avivado e nas mãos um livro de Camilo Castelo Branco. Deixo-me levar pelas palavras de Camilo, excelso contador de histórias e olho as chamas avermelhadas da fogueira e penetro num ambiente do século XIX português.
Quando eu era mais nova, este escritor nunca despertou em mim a paixão. Ficava-me pelo ambiente bucólico de Júlio Dinis e pelos ambientes do Eça de Queirós. Mas a idade vai-nos abrindo o espírito a outros espaços e ambientes e a minha paixão por Camilo Castelo Branco vai crescendo de dia para dia. Lembro-me, perfeitamente, que o único livro que tinha devorado na minha juventude foi o famoso e conhecidíssimo Amor de Perdição. Depois vaguei pela Brasileira de Prazins, onde o riso me chegou até às lágrimas, o mesmo aconteceu enquanto percorri as aventuras de A Queda de Um Anjo.
Agora retomo novamente às páginas dos mesmos romances e encontro novos segredos até aqui nunca descobertos. Afinal a literatura é isto mesmo: de todas as vezes que lemos um livro de um grande autor, encontramos sempre coisas novas.
Neste momento deambulo pelas páginas de O Romance de Um Homem Rico, o livro favorito do autor e escrito no período em que ele esteve preso na cadeia da Relação do Porto.
Neste fim de semana que ontem findou, concluí a releitura de A Freira no Subterrâneo, que apesar de ser uma tradução pelo punho do Camilo tem imprimida a sua marca de escritor fora de série. Deixo-vos aqui um pequenino trecho como comprovativo da sua escrita exemplar e singular:
«Quem há que defina e analise uma carta de amores? São todas parecidas, cheias de adoráveis canduras, de entusiasmos sublimes, por vezes pueris e encantadores, jubilosos como um hossana e tristes como um gemido. Umas vezes marejam os olhos, outras vezes fazem sorrir. O que as aformoseia e diviniza é o sentimento que nos infundem e inflamam. Se mais tarde o coração se resfria e incinera, lá vai perdida a primeira impressão; porém, se um bafejo generoso nos aviventa, se o seio arfa, se renascemos para o amor como para uma vida nova, são inefáveis os gozos que nos dão as nossas cartas amorosas. Não nos vexamos de as ler, acolhemo-las ao seio, beijamo-las sem pejo nem contrafeito pudor. Aquele que não estremece ao ler uma carta dessas, aquele que olvidou a vida ardente e febril que aí se reflecte nesse papel, esse tal não amou nunca, nem foi digno de ser amado.» in A Freira no Subterrâneo.
Têm de concordar comigo que este pequenino trecho define tudo, não é verdade?


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