segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Contador de histórias: o livro

Livro é magia que entrelaça vogais e consoantes que se transformam em palavras. Palavras que, ora, podem ser doces, mágicas, meigas, ora, cruéis, que ferem. Palavras que ficam para a história, muito para lá de quem as produziu. Este mundo maravilhoso da literatura em que podemos voar através da projeção das palavras na nossa mente para mundos distantes. O livro, esse transportador de sonhos, de realidades, de vivências fantasiosas ou bibliográficas. Ao contrário do cinema, o livro dá asas à imaginação, permite que a mente imagine lugares, pessoas, histórias. 
Marília Carmen Barros

Contador de histórias: Os filhos de Alice



Os filhos de Alice eram os livros que ela lia; os que corrigia. E quanto mais trabalho um livro lhe desse, mais amava aquele filho saído das suas entranhas: palavra atrás de palavra; frase após frase.
Não eram os filhos desejados e sonhados de Alice, de carne e osso, mas eram filhos em que os seus corpos eram de papel, os seus ossos, letras e o seu sangue misturava-se com o sangue da Alice; o sangue das horas passadas a tentar encontrar o sinónimo exato, a palavra certa, a vírgula bem colocada. Os «filhos» de Alice tinham pai: o/a autor/a. Mas para a Alice, o pai era apenas uma figura; o sémen indispensável à produção. O resultado era fruto do trabalho árduo de Alice. Como ela amava aquelas criaturas feitas de orações, subordinações, integrantes, substantivas. Assim passou a Alice a ser mãe não de uma, duas, três ou mais crianças, mas de uma infinidade de filhos. Todos muito amados, muito queridos, muito sofridos durante o percurso da sua educação. Uns foram rebeldes e indisciplinados, outros doces e amáveis, uns fizeram a Alice chorar lágrimas sentidas e outros gargalhadas incontidas. E como ela se sentia feliz no dia em que via o seu filho exposto num escaparate de uma livraria! Conhecia todos os seus filhos pelo nome; sabia quanto sangue seu perdeu ao dar à luz aqueles filhos. 
Marília Carmen Barros

Uma tarde com Camilo

Nesta tarde, cinzenta e fria, tenho por companhia um lume bem avivado e nas mãos um livro de Camilo Castelo Branco. Deixo-me levar pelas palavras de Camilo, excelso contador de histórias e olho as chamas avermelhadas da fogueira e penetro num ambiente do século XIX português.
Quando eu era mais nova, este escritor nunca despertou em mim a paixão. Ficava-me pelo ambiente bucólico de Júlio Dinis e pelos ambientes do Eça de Queirós. Mas a idade vai-nos abrindo o espírito a outros espaços e ambientes e a minha paixão por Camilo Castelo Branco vai crescendo de dia para dia. Lembro-me, perfeitamente, que o único livro que tinha devorado na minha juventude foi o famoso e conhecidíssimo Amor de Perdição. Depois vaguei pela Brasileira de Prazins, onde o riso me chegou até às lágrimas, o mesmo aconteceu enquanto percorri as aventuras de A Queda de Um Anjo.
Agora retomo novamente às páginas dos mesmos romances e encontro novos segredos até aqui nunca descobertos. Afinal a literatura é isto mesmo: de todas as vezes que lemos um livro de um grande autor, encontramos sempre coisas novas. 
Neste momento deambulo pelas páginas de O Romance de Um Homem Rico, o livro favorito do autor e escrito no período em que ele esteve preso na cadeia da Relação do Porto. 
Neste fim de semana que ontem findou, concluí a releitura de A Freira no Subterrâneo, que apesar de ser uma tradução pelo punho do Camilo tem imprimida a sua marca de escritor fora de série. Deixo-vos aqui um pequenino trecho como comprovativo da sua escrita exemplar e singular:
«Quem há que defina e analise uma carta de amores? São todas parecidas, cheias de adoráveis canduras, de entusiasmos sublimes, por vezes pueris e encantadores, jubilosos como um hossana e tristes como um gemido. Umas vezes marejam os olhos, outras vezes fazem sorrir. O que as aformoseia e diviniza é o sentimento que nos infundem e inflamam. Se mais tarde o coração se resfria e incinera, lá vai perdida a primeira impressão; porém, se um bafejo generoso nos aviventa, se o seio arfa, se renascemos para o amor como para uma vida nova, são inefáveis os gozos que nos dão as nossas cartas amorosas. Não nos vexamos de as ler, acolhemo-las ao seio, beijamo-las sem pejo nem contrafeito pudor. Aquele que não estremece ao ler uma carta dessas, aquele que olvidou a vida ardente e febril que aí se reflecte nesse papel, esse tal não amou nunca, nem foi digno de ser amado.» in A Freira no Subterrâneo.

Têm de concordar comigo que este pequenino trecho define tudo, não é verdade?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A amizade é algo caro a todos. A amizade é uma dádiva. A amizade é gratuitidade. Quantas vezes sentimos amizade por alguém e, esse alguém, trai a amizade... Como eu gostava de ter um  amigo verdadeiro ou uma amiga sem traições sem falsidade... Mas tenho; e esse amigo é Deus. O que nunca falha, o que nunca nos decessiona ....

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Beira Alta

Serras dobradas sobre serras, pequenos vales escondidos em desfiladeiros abruptos e as aldeias geralmente negras de lousa e curvadas de pequenas culturas; de onde em onde um plató mais airoso que deixa ver à distância as lombas azuladas -- e é a Beira serrana. Lá dentro, o beirão é um homem resoluto e andarilho, trepador da serra a pé ou a lombo de garrano, ora afeito à doçura dos vales dos socalcos que, pelo sopé do Caramulo e a faixa da Bairrada, estabelecem transição com a zona portuguesa da costa, ora habituado às alturas da serra da Estrela e às plataformas da raia castelhana.
O coração da província pulsa esparso e tranquilo, tão depressa na Guarda e na sua região de vilas acasteladas e pecuárias -- Belmonte, Almeida, Gouveia, Manteigas, Sertã --, como na velha Viseu da lenda do Viriato, e no seu duplo alfoz de Lamego ao Alto Paiva e das suas vilas vinhateiras e lenhosas do vale do Dão: Nelas, Santa Comba Dão, Mangualde. Os xistos lamelados alternam na construção com os granitos lavrados dos solares de Viseu e de Tondela.
A expressão da terra é ao mesmo tempo áspera e suavizada. As penhas redondas do Alto Dão, onde o próprio pinheiro parece vegetar a custo, cedem a largos oásis férteis e bem regados. A amendoeira algarvia tem a sua réplica e o seu émulo em Figueira de castelo Rodrigo.
Assim, a Beira Alta é o cerne de Portugal, a sua região interior a que os ventos do Atlântico ainda levam um pouco de frescura e humidade. Os rebanhos compactos descem dos Hermínios aos vales que o outono de todo em todo não crestou, e então o pastor de surrão e manta às costas traz até quase ao litoral a nota de uma humanidade de um pouco de pão duro e azeitonas com um trago da ordenha da manhã. os centros beirões conhecem uma civilização velhíssima que a energia hidroelétrica arrancada às quedas serranas vai industrializando e iluminando.
Em Viseu passeamos entre solares vetuscos e podemos ver da melhor pintura quinhentista em museus bem ordenados. Há estâncias de cura e repouso ao longo do vale do Dão, vida e ar puro em toda a parte. Tocando a leste o páramo castelhano, na planura de Almeida, a oeste as terras baixas e irrigadas e ao sul os calmos pinhais, estremenhos, que ondulam no sentido do mar, a Beira Alta é Portugal velho legítimo, Portugal de raiz.




Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Estive a fazer uma «arrumação» ao blogue. Assim os leitores poderão ler os poemas por autor e não toda aquela mistura anterior que não permitia escolher um poeta. Penso que esta ordenação é mais certa. Todos os assuntos tratados aqui estão na pasta respetiva, tornando mais fácil o acesso aos conteúdos.

De qualquer forma aceitam-se sugestões, certo?

Minho

Terra de verdura e de névoa; terra sem osso -- chamou Miguel de Unamuno, espanhol nosso amigo, ao Minho e à Galiza. Mas os ossos que faltam à terra húmida e fértil sobram ao homem próvido. O Minho é a província da pobreza seivosa e lameiros quase humanos. Ali, a gente e a terra fundem-se numa harmonia profunda e sofrida. A vida é dura mas alegremente levada. O cabaneiro agarra-se com igual denodo à soga dos bois, ao sacho do milho regadio e à tesoura de podar. No dia de festa do santuário larga tudo pela maceta do bombo ou pelo fole da gaita céltica. De Barcelos a Viana e de Braga a Monção estrugem foguetes de arraial, os caminhos enfeitam-se da saia barrada de Afife e dos peitos constelados de cordões.

As romarias afamadas ainda são sensivelmente as mesmas do tempo de Pai Soares de Taveirós e de el-rei D. Dinis, num cordão de ermidinhas que levam São Torcato ao endireito de Compostela, entre os milharais e as latadas. A um lado Viana do Castelo com os veleiros e solares; -- a outro, Guimarães com a Colegiada de Mumadona e a igrejinha de São Miguel onde levaram a batizar o primeiro rei português; a outro, ainda, Braga com a bênção de São Martinho de Dume, apóstolo do reino suevo, a espessura do Bom Jesus e as ruas canónicas e pausadas.
A literatura abusou talvez um pouco do pitoresco de uma terra que não é só logradoiro de lavradeiras clientes das ourivesarias de Gondomar, porque é também a leiva em que não cabem todos e que, assim, vai encaminhando o seu povo, de saquitel e tamancos às costas, para o caminho incerto e duro da emigração. Mas o minhoto de Santo Tirso, de Famalicão e de Barcelos não quer mal à terra apertada a que voltará um dia com a certeza de espaço para a velhice e a morte. A densidade da vizinhança ensina-lhe uma regra de convívio temperada de prudência e bonomia. É festeiro na hora da festa e bom braço nos dias de labuta. pescador em Âncora e Viana, é boieiro à porta do estábulo, serrano nas alturas de Barroso, vinhateiro e hortelão das chedas um pouco por toda a parte. Ourives nas abas do Porto, as suas mãos calosas do carro do milho e da aduela do pipo do verdasco chamuscam-se da pólvora pirotécnica do arraial, empastam-se do barro de Barcelos, falquejam as imagens de Braga e o cavername dos barcos de Vila do Conde e de Póvoa de Varzim.
O senhor abade e o fidaurgo da quinta dos vales do Lima, do Minho e do Vez ainda são seus oráculos: sempre, porém, ouvidos com o íntimo sentimento de que cada um no seu lugar cuida de si mesmo -- e bonda... Com isto, a paz da honesta abundância ainda conhece bucólicas como a do quinchoso de Alvapenha do romance de Júlio Dinis. Os cães ladram nas testeiras das quintas, são mesmo de má cara em Castro Laboreiro, mas o almocreve vai passando, como passa a roga e o rancho de Zé Pereira. De Ponte de Lima a Caminha e Monção vai havendo lugar para todos, uma malga de caldo verde, um naco de broa e às vezes uma caneca em que crepita o verdasco. Quando o não há, o minhoto toma pacatamente um paquete no porto de Leixões e espera-lhe pela volta com uma confiança inabalável. Portugal não fica arredondado sem ele.

Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta.